XXIX Encontro do agrupamento de transmissões da Guiné

Num restaurante da Aldeia de Rio de Moinhos (Castelo Branco), decorreu o 29.º Encontro Anual do Agrupamento das Transmissões Militares da Guiné.

A organização do 29.º Encontro Anual do Agrupamento das Transmissões Militares da Guiné lembrava no convite: «A marcares presença irás relembrar e reviver momentos na companhia dos teus camaradas que lutaram na longínqua Guiné, muitos deles não vês há muito tempo.»

Recolhemos alguns depoimentos entre os antigos combatentes na Guiné presentes:

– Esteves dos Santos – Pedrógão de São Pedro, residente em Castelo Branco, que pela terceira vez organizou este evento: «Muito cedo, aos dezoito anos, fui cumprir serviço militar. A razão principal foi afastar-me da muita pobreza. Seguiu-se a mobilização para a Guiné, a maior parte dos militares não sabia o que ia fazer e não esperava encontrar uma guerra complicada com rebentamentos constantes na cidade de Bissau e nos quartéis, nos aquartelamentos… Na verdade, a vida militar acompanhou a minha vida até me reformar.»

– Esposa de um ex-Combatente – Covilhã: «Estes encontros são importantes. Revivem-se memórias. Muitas delas não são agradáveis mas existiram. Tenho guardados vários objectos de índole militar do meu marido, principalmente as cartas que me enviava como namorado. Este simbólico espólio irei entregá-lo à minha neta, para que tenha sempre orgulho no seu avô como homem, cidadão e militar.»

– Anabela Santos – Castelo Branco, filha de um ex-Combatente: «Tenho muito orgulho no meu Pai, que voluntariamente foi para o serviço militar, embora tenha sido forçado a ir para a Guiné, o Vietnam Português. Vivo estes encontros como memórias permanentes. Depois da Guerra o meu Pai ainda vestia a farda militar o que se prolongou durante muitos anos.»

– Tenente-Coronel Félix – Entroncamento: «Já sou octogenário e na análise que faço da Guerra na Guiné considero que foi uma das maiores estupidezes do governo da época, porque era uma guerra perdida. Foram tempos perdidos e vidas perdidas. Se aquele governo tivesse tido juízo, uma política eficiente, a independência teria acontecido naturalmente, pacificamente e para bem de todos.»

– Júlio Coelho Pina – Cabanas de Viriato: «Como sabe, os tempos eram muito difíceis para todos nós. Primeiramente, não estávamos minimamente preparados nem habituados ao ambiente de guerra. Segundo, encontrámos condições desastrosas, um clima sufocante, temperaturas elevadas, má qualidade da água, muitas vezes tínhamos que a beber filtrada por um lenço, má alimentação, os mosquitos a incomodar que não nos deixavam dormir… Senti bem os efeitos da guerra porque fui atingido por um tiro rastejante na cabeça quando estava a reparar uma torre militar de transmissões. Fui obrigado a um internamento no Hospital Militar em Bissau.»

– Carlos Alberto Duque Ribeiro – Sarnadas de Ródão: «Considero uma estupidez termos ido defender interesses de alguns civis. Os políticos nunca souberam resolvê-los e ainda há feridas por sarar. Hoje, como ex-combatente, sou considerado lixo tóxico para os governantes. Há muitos ex-combatentes com grandes dificuldades económicas, alguns a passar fome. Não podemos esquecer o drama da guerra que afectou psicologicamente todos aqueles que ainda hoje sofrem de stress pós-traumático, e se estende aos seus familiares mais próximos. Escandaliza-me ver tanto dinheiro enterrado na TAP e nos bancos, e não haver dinheiro para ajudar a resolver os problemas graves de alguns dos ex-combatentes. O país tem ignorado aqueles que aí sacrificaram a sua juventude e a sua vida. Fui rádio-telegrafista e tive muitas vezes a vida em perigo… vi morrer camaradas, dores que perduram para sempre. Tenho um livro de poemas e expresso nele as vivências de mais de dois anos na Guiné.»

– João Mota – São Miguel (Açores): «Era operador de mensagens, vim dos Açores para estar presente neste encontro, para recordar os velhos amigos, com quem convivi em momentos únicos e difíceis, felizmente ainda estão presentes. Fizemos amigos que se mantêm para sempre. As amizades que se criam na tropa, principalmente em cenários de guerra, em especial na Guiné, nunca mais se esquecem.»

– Carlos Viegas – Setúbal: «Fui técnico radio-telefonista e sempre em contacto com todos os postos militares espalhados pela província da Guiné, uma missão muito importante. Sempre que se registava uma avaria, um problema, tinha que me deslocar de Bissau por via fluvial, aérea, terrestre em coluna militar, situações de grandes riscos e perigos. Não me sai da mente, por exemplo, um ataque com foguetões a Tite, abrindo grandes crateras no aquartelamento. A Pátria ainda não reconheceu os sacrifícios que fizemos naquela guerra. Quando todos os ex-combatentes morrerem, lá apareceram os nossos vindouros a afirmar tardiamente que fomos uns verdadeiros Heróis.»

No final do almoço, o ex-Combatente Manuel Dias Pinheiro animou com o seu acordeão os seus camaradas de armas na Guiné, tocando para um pezinho de dança.

Também o fadista e ex-Combatente Júlio Coelho Pina cantou algumas baladas, acompanhadas à viola, muitas conhecidas de todos os presentes e algumas com letras alusivas à vida de militar na Guiné.

Já a tarde ia adiantada quando todos cantaram os parabéns a este Encontro de Convívio, partilhando o bolo da Paz e da Amizade.

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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes
(Cronista/Opinador no Capeia Arraiana desde Março de 2012)

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