Silêncio comunitário cria submundo de crimes contra a sexualidade da mulher

Ana tem 18 anos e o direito à sexualidade plena anulado para sempre. O mesmo pode acontecer a Marian e Nafide, quando seguirem viagem do Vale de Amoreira, concelho da Moita, até à Guiné-Bissau. Em breve vão viver, possivelmente, um “Verão de fanadu”, a expressão utilizada pelas adolescentes de 15 e 16 anos para nomear a mutilação genital feminina. Pelo que os anciãos contam, “já estão atrasadas, deviam ter sido cortadas antes de menstruarem”. Um grito de “não” acompanha a contagem decrescente e tenta sair para lá das torres do bairro. É a catequista do Islão quem as silencia, com a desculpa de “um atraso para chegar à aula”. Fotografias? “Também são impossíveis.”

O silêncio coloca Marian e Nafide a um passo de se tornarem cifras negras no número de crimes contra a sexualidade “onde desde a violação, à mutilação genital e casamento forçado há milhares de atos por denunciar”, afirma ao DN Carlos Anjos, presidente da Comissão de Proteção às Vítimas de Crimes. A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima contabilizou em 2021 menos de 2000 denúncias.

Para a comunidade guineense “fanadu é aceite como uma tradição religiosa, sendo na realidade com risco de saúde iminente para meninas e mulheres, com noção dessa faca apontada”, conta Alexandra Luís Alves, cofundadora da Associação Mulheres Sem Fronteiras, entidade dedicada à erradicação de crimes cometidos contra as mulheres.

Há na geração de 40 anos, filhos dos primeiros imigrantes guineenses, quem rejeite tradições, proteja as suas filhas e assuma a missão de passar aos filhos a mensagem de que “fanadu não pode ser aceite nem executado, mas o caminho ainda é muito longo”.

A Associação Mulheres Sem Fronteiras deu início ao combate contra o fanadu há dez anos envolvendo dez centros de saúde. Em 2018 a 2019 identificou 60 casos após consultas de planeamento familiar e obstetrícia. “A partir daí os números duplicaram para 101 casos em 2020 e 141 em 2021, uma parte muito residual da realidade”.

A ativista estima que em Portugal haja 6500 casos de fanadu por identificar. No concelho da Moita só há estimativas, “dados certos são zero”. Uma repetição do que acontece com outros crimes contra a sexualidade, liberdade e segurança física e emocional de mulheres portuguesas ou residentes em Portugal e que nunca foram denunciados, “nessa lista estimam-se 8000 casos desconhecidos”.

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