Prémio LeYa. “Gostaria que este livro fosse um olhar sobre Portugal do Estado Novo”

Escreve no livro até que “o Governador de Lisboa sabia de tudo”, mas também escreve “o essencial era silenciar o assunto. Não fazer ruído. Não haver assunto”. Mas o caso não passou em claro.

Esta história, apesar de tudo é conhecida pelos historiadores. Eu tive a necessidade no livro de ter uma nota bibliográfica, porque consultei muitos documentos sobre o assunto, portanto eles existem.

O que acontecia com esta história do trabalho escravo, e não tenhamos, de facto, medo das palavras é que ele era conhecido e era denunciado mesmo no interior do próprio regime. Marcelo Caetano várias vezes faz referência é isso nas suas cartas e na correspondência com Salazar.

Não sabemos o que terão sido as conversas entre ambos sobre o assunto, mas conhecemos os documentos escritos, a correspondência entre Marcelo Caetano e Salazar em que, por exemplo, Marcelo alerta para o cortejo de violências e misérias morais que está associado a essa indústria da mão-de-obra indígena.

Repare, em 1947, portanto poucos anos antes de acontecer o massacre de Batepá, o assunto do trabalho serviçal é discutido na Comissão das Colónias, na Assembleia Nacional. É o chamado “Relatório Henrique Galvão”, onde se diz que se passa nas nossas colónias uma situação insustentável, em que só os mortos estão isentos da compulsão ao trabalho. E nesse relatório denuncia-se aquilo que é descrito como uma situação mais grave, do que a criada pela escravatura pura.

Isto era do conhecimento do Regime. Com a abolição da escravatura, obviamente que não acabaram as necessidades de mão-de-obra intensiva. A abolição da escravatura é um ato mais formal que vai demorar muitas décadas, e muito tempo, até se tornar algo efetivo. Passadas sete décadas da abolição da escravatura, estamos a discutir e estamos a assistir a esta situação lamentável do trabalho de serviço serviçal nas nossas colónias.

A falta de água é um problema real. As alterações climáticas trazem uma nova dimensão a esse problema, mas é um problema de sempre!

O José Carlos Barros também escreve poesia e usa uma máquina de escrever para os versos.

São exercícios muito diferentes, o de escrever poesia e o de escrever textos longos em prosa. Para quem, como eu, que não pode dedicar-se a tempo inteiro à escrita, andei com este romance durante imenso tempo. De facto, é uma escrita que exige disciplina e exige, um tempo que é diferente no caso da poesia.

Na poesia é possível escrever um poema, ou um conjunto de poemas numa determinada altura e regressar depois. Na prosa, é diferente, embora a matéria seja a mesma, e o ofício o mesmo. No essencial o que existe é um conjunto de palavras que vamos usar de um outro modo.

Eu gostaria que na minha prosa, também se notasse essa oficina da poesia, por achar que a linguagem é o que dá importância às histórias. A literatura vive desse poder transfigurador da linguagem, dessa capacidade que existe de através da linguagem se criarem universos. Gostaria que houvesse essa contaminação e que desse ponto de vista não fosse tão diferente quanto isso, escrever poesia ou prosa.

Nasceu em Boticas, o seu trabalho levou-o ao Algarve, onde vive hoje. Foi diretor do Parque Natural da Ria Formosa. Como está o Algarve em termos ambientais hoje. A falta da água é uma preocupação?

A falta de água é um problema real. As alterações climáticas trazem uma nova dimensão a esse problema, mas é um problema de sempre! Para darmos um exemplo, onde há mais consumos de água é na agricultura, por isso o Algarve teve desde sempre como base, para além das hortas, as culturas tradicionais de sequeiro.

São um exemplo de adaptação ecológica e ambiental, absolutamente fantástico. Numa região onde sempre houve pouca água, onde sempre choveu muito pouco, obviamente que o modo de aproveitamento da terra se fazia em grande parte através do figo, da alfarroba, da amêndoa e dos produtos que têm baixíssimas exigências de rega.

Depois deste problema real das alterações climáticas, que vêm agravar esta situação, é obvio que é preciso discutir a possibilidade de termos maneiras alternativas de fontes de água, precisamos de mais água, mas penso que não podemos nunca perder também essa ideia de que não é só dizer que precisamos de mais água, mas perceber como é que nos conseguimos adaptar a uma realidade de pouca precipitação, de termos pouca água e de termos obviamente saber jogar com essa realidade.

Planta figos?

Eu vivo no campo, e vivo de facto numa fazenda onde fazemos alfarroba e figo. Temos pomares tradicionais de sequeiro, de alfarroba e figo e que são em ambos os casos, culturas que não são regadas. A médio prazo pode haver problemas, caso a precipitação sofra alterações significativas. Mas de facto não carecem de rega e é o que nós temos de estar a fazer no Algarve.

Esse viver no campo é também terreno fértil para a escrita?

Não sei, não tenho propriamente muito tempo para escrever. Há uma ideia um bocadinho romântica de viver fora das cidades, mas as diferenças não são grandes do ponto de vista do tempo que nos sobra para aquilo que queremos fazer!

Obviamente que esta minha ligação de sempre ao mundo rural – nasci e vivo no mundo rural – acaba por se refletir na minha escrita e, de facto, penso que a minha escrita seria completamente diferente senão fosse essa circunstância. Penso que neste romance se vê isso. É essa presença forte da ruralidade e da natureza que, penso que se reflete de uma maneira clara.

Cada frase, cada parágrafo, cada página sai-me com muito esforço

Já começou outro romance, depois do Prémio Leya?

Não. Eu penso que não se escreve mais, por se ganhar um prémio. Não sinto isso como um grande incentivo. Eu queria escrever! E quero escrever! É mais uma questão de ter disponibilidade de tempo, e mental. O prémio foi uma coisa fantástica que recebi com grande gosto, mas está a ter um bocadinho este efeito contrário, pelo menos durante algum tempo.

São os tais “15 minutos de fama”. Está a dispersar-me mais e está a convocar-me para um conjunto de situações que, inclusivamente, me impedem retomar da escrita. Mas isto é uma fase de transitória. Espero a curto prazo escrever, porque a vontade de escrever histórias é o que me move neste ofício da escrita. Tenho histórias para contar, e espero rapidamente regressar à escrita de um novo romance.

Recordo quando venceu o Prémio Leya dizia em entrevista à Renascença que escrever era estar de frente para um muro.

Eu às vezes, até tenho dificuldade em saber porque escrevo. Por que, de facto, não sendo masoquista, é difícil explicar porque dedico tanto tempo, o tempo que posso, à escrita. Custa-me muito escrever, acho que escrever é mais trabalho do que inspiração.

Cada frase, cada parágrafo, cada página sai-me com muito esforço. A atribuição deste prémio, também a senti como algo importante para premiar um trabalho que penso que as pessoas, de um modo geral, não terão a consciência do quanto é exigente.

Alguns amigos dizem: “És uma pessoa muito inspirada!”; “Deves escrever com facilidade”… bem, a inspiração, é como Picasso dizia – “Acredito muito na inspiração, espero que quando ela chegar me encontre a trabalhar!”. Mantenho essa ideia de que escrever é estar sentado com uma folha branca, ou com um ecrã, diante de um muro, sozinho, sem ninguém que nos possa ajudar nessa tarefa.

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