Comemorada no dia 22 de abril, o dia Internacional da Terra é um momento de reflexão sobre o impacto da pegada humana sobre o planeta e a importância de mudar de paradigma. O investigador e responsável pela área ambiental da Quercus CV, Nemias Gonçalves, salienta, em entrevista ao Balai, é necessário o ser humano ajustar as suas ações para salvar um planeta que sofre com as alterações climáticas.
“A Terra é a base de tudo”, começa por afirmar Nemias Gonçalves, acrescentando que todos os seres vivos precisam do planeta para viver. “Infelizmente, o planeta tem sido muitas vezes negligenciado com práticas prejudiciais que têm trazido consequências negativas como as temperaturas elevadas, as mudanças climáticas, as inundações e incêndios”.
Apesar da ínfima quota de Cabo Verde no impacto nas alterações climáticas, o arquipélago não produz combustíveis fósseis (Petróleo, Gás Natural e Carvão) e não faz exploração mineira (Ouro, Diamante e Lítio), por exemplo, o arquipélago sofre com as ações dos países mais desenvolvidos e, recentemente, já começou a sentir o efeito destas práticas. “Cabo Verde tem sentido na pele o impacto das alterações climáticas, passamos o mês de abril com uma temperatura anormal”, exemplifica o geólogo.
Outros países africanos também têm sofrido com as alterações climáticas, como é o caso de Moçambique que tem sido assolado pelas cheias. Segundo o investigador, estas fatalidades dizimam inúmeras vidas “e, infelizmente, o continente africano não tem infraestruturas preparadas para estes fenómenos”.
O geólogo considera que o ser humano tem sido egoísta no modo de viver, focando-se apenas no presente e não pensando no futuro das crianças e, consequentemente, dando maus exemplos aos mais novos: “As crianças são o reflexo do que veem e o futuro é delas”.
Apesar de reconhecer que as escolas se têm focado em temas ambientais, em disciplinas como Geologia e Ciências Naturais, e os alunos terem acesso à tecnologia e à informação, Nemias Gonçalves acredita que faltam atividades extracurriculares e a pressão para cumprir com o cronograma dificulta a compreensão e a execução destes ensinamentos. “O que nos falta é passar a barreira entre o dizer e o fazer e partir para a ação”, constata, aconselhando os professores a mostrar aos alunos as práticas saudáveis que incentivam a preservação ambiental.
Incentivo às boas práticas na agricultura
Tendo em conta a limitação de água e a falta de chuva que o país enfrenta, a Quercus CV tem trabalhado para consciencializar os agricultores sobre a urgência de adotar a rega gota a gota. A prática do alagamento usada pela maioria dos agricultores de Cabo Verde tem causado muito desperdício de água nos terrenos, diz o pesquisador.
Nemias Gonçalves defende que houve uma evolução na forma como a prática de gota-a-gota é vista pelos agricultores e considera que tem havido uma maior sensibilidade para a técnica depois dos inúmeros ganhos. “Por exemplo, com a prática da rega gota-a-gota podemos gastar uma tonelada de água em um terreno de 50 metros quadrados, enquanto que com a mesma quantidade de água (alagamento) regamos só 5 metros quadrados”, exemplifica.
Outra prática aconselhada é usar a água do banho para regar as plantas, mesmo que seja 2 litros. “Use uma banheira e tome banho ali, a água usada pode ser reaproveitada para regar as plantas”, explica e acrescenta que é possível criar um pequeno tanque com cascalho no fundo e esta pedra serve como um filtro para água.
A rotatividade de cultivo é outra sugestão já que é um método que ajuda na fertilização do solo que ganha dinamismo, fazendo com que o produto cultivado venha com mais nutrientes e a produção seja maior. “O solo da ilha de Santiago é pobre em matéria orgânica e é essa componente que fortalece o solo e o ajuda a produzir”, explicou, acrescentando que algumas zonas têm começado a seguir a técnica depois das formações dadas pela associação.
Quercus CV preocupada com Serra Malagueta
A 1 de abril a área protegida de Serra Malagueta, na ilha de Santiago, foi fustigada por um incêndio que resultou na perda de 200 hectares de terreno, segundo dados do Serviço Nacional de Proteção Civil e Bombeiros (SNPCB). Na sequência do ocorrido, perderam a vida 8 militares das Forças Armadas, que iam apoiar no combate às chamas, e um técnico do parque da Serra Malagueta.
“A Quercus CV observou com atenção e apreensão o incêndio em Serra Malagueta, por ser uma área protegida com uma variedade de plantas. Não é uma situação normal no país, foi um acontecimento preocupante e triste, a nível ambiental e socioeconómico”, diz Nemias Gonçalves, acrescentando que o infortúnio destruiu uma das áreas mais emblemáticas de Santiago e provocou impacto negativo no ar, na paisagem e no solo.
De novo, o pesquisador destacou que as informações e as leis já estão disponíveis e criadas para impedir estes atos (tratou-se de um fogo posto), o que falta é a prevenção já que a maioria dos fenómenos naturais são imprevisíveis.
Crédito: Link de origem



Comentários estão fechados.