OS DIAS DA SEMANA Portugal no espelho dos noticiários televisivos

Ler ou reler o que os estrangeiros escreveram sobre Portugal e os portugueses pode não ser um modo descabido de assinalar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Os textos abundam e não faltam os que não perderam actualidade. Infelizmente, em tantos casos. Há 20 anos, no dia 27 de Setembro, a revista húngara Heti Világgazdaság publicava uma objectiva, mas penosa, descrição dos principais noticiários televisivos portugueses que o tempo tratou de exacerbar.

O retrato, da autoria da jornalista Katalin Muharay [1], era assaz objectivo: “A maior parte dos telejornais é preenchida com ocorrências divertidas ou trágicas, com eventos e pessoas curiosas ou excêntricas: um adepto de futebol que foi ao estádio numa carroça puxada por um burro, um homem que tentou atropelar a namorada, uma professora que ensina os truques do engate, um trabalhador que perdeu o nariz num acidente. São estas as personagens principais que conquistaram o ceptro dos noticiários”. Duas décadas depois, mudaram os protagonistas dos noticiários televisivos, mas é idêntica a irrelevância informativa destas personagens instrumentais.

A análise de Katalin Muharay conduziu a uma amarga conclusão ainda assaz pertinente: “Na tentativa de agradar ao público, os noticiários procuram principalmente entreter, relegando o papel informativo para segundo plano”. A jornalista assinalava uma tendência que subsiste: “Preferencialmente, os editores escolhem ocorrências que provoquem emoções”. Em 2003, “histórias sobre famílias desalojadas ou crianças doentes”. Em 2023, o género de histórias é o mesmo. O fundamental é usar o isco da emoção – provocando comiseração ou gerando indignação. Mesmo pivôs outrora comedidos deixam agora a isenção para partilhar estados de alma. Acessoriamente, pode surgir a informação útil para uma cidadania esclarecida.

A constância – ou o agravamento – do que tem sucedido ao longo destes 20 anos não deixa de ser incómoda. “Os telejornais deixaram de respeitar géneros jornalísticos: as notícias incluem tanto grandes reportagens, como crónicas mais próprias de revistas especializadas em temas de saúde. Frequentemente, repetem-se peças já apresentadas semanas ou mesmo antes, como se de novas notícias se tratasse”.

O retrato era e é confrangedor em relação à auscultação de populares. Escreve Katalin Muharay que, “nestes shows informativos, a ‘voz do povo’ ocupa cada vez mais espaço. A gente comum – tenha ou não alguma coisa relevante para dizer – tem ali uma tribuna para opinar sobre qualquer assunto”. Nota ainda a jornalista que se organizam inquéritos “sobre praticamente tudo, pondo um microfone na boca das pessoas. Mesmo que o resultado, geralmente, não tenha nada de relevante, trazer a público a opinião de gente comum, pelo menos, transmite a imagem de uma televisão próxima do povo”.

Se esta “vontade” de proximidade permanece, continuando a traduzir-se na inserção do povo nos noticiários da televisão, pode acrescentar-se hoje a presença, no horário nobre, de todos os lugarejos da nação e das respectivas curiosidades e festarolas – a festivais gastronómicos, a restaurantes e a alojamentos turísticos reservam-se longos minutos de nulo interesse jornalístico, mas isto ainda não era uma tendência no tempo do texto de Katalin Muharay.

O que havia dantes e há actualmente é uma duração aparentemente incompreensível dos noticiários televisivos, referindo a jornalista que demoravam entre uma hora e meia e duas horas. “A principal razão de tal dilatação é o facto de a Lei de Comunicação Social em Portugal não permitir interrupções publicitárias em programas que duram menos de 30 minutos, enquanto um programa de hora e meia pode conter dois ou três blocos de publicidade de 7 a 10 minutos de duração”, escreve a jornalista húngara, constatando que “não é fácil preencher um tempo de antena tão alargado, levando a que quase tudo sirva como material noticioso”. E tudo apresentado sem um fio condutor perceptível. “As notícias de abertura, quase obrigatoriamente, são acontecimentos sensacionalistas, de teor criminal ou sexual”, como reparava Katalin Muharay, acrescentando que, “mais precisamente, os telejornais abrem com o anúncio da notícia, mas sem a apresentarem. O anúncio repete-se várias vezes ao longo do programa, e só no fim nos é dada a conhecer toda a saborosa história”. A jornalista verifica que “este tem sido um dos recursos mais recorrentes para tentar manter os espectadores colados ao ecrã durante todo o telejornal, ao que se junta a ausência de uma estrutura profissional em termos de relevância jornalística”. Ontem, como hoje, “não existem blocos separados de notícias nacionais, internacionais, económicas ou desportivas. A sequência das temáticas torna-se completamente aleatória; a ordem de apresentação depende do fascínio que os elementos noticiosos podem exercer sobre os telespectadores”.

Há vinte anos que os noticiários televisivos da hora do jantar se apresentam como uma pobre imagem da nação ontem festejada.

 

 

 

[1] AAVV – Portugal na imprensa estrangeira. O olhar dos correspondentes. Organização Renato Mendes e Miguel Neto. ESCRIT’ORIO, 2013

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