Na última terça-feira (27), um motorista francês de 17 anos
de idade foi baleado e morto por um policial após uma perseguição de trânsito.
O jovem trabalhava como entregador e motorista de um aplicativo e se chamava
Nahel Merzouk. O primeiro relatório policial sobre a morte foi desmentido por
um vídeo postado online, servindo de estopim para intensos protestos que duram
dias e despertam diversas discussões sobre a sociedade francesa, como a sempre
presente questão da imigração.
Sobre o episódio da morte de Nahel Merzouk, o policial
Florian Messiha, de 38 anos de idade, responderá por homicídio. O incidente teve
início quando dois policiais em motocicletas notaram o carro dirigido por
Merzouk, com placa polonesa, dirigindo em alta velocidade, passando por uma
faixa exclusiva de ônibus e cruzando um sinal vermelho. Após sinais de alerta,
os policiais interceptaram o carro no congestionamento e, apontando suas armas
de fogo, ordenaram que o motorista desligasse o carro.
A primeira versão da polícia afirmava que o motorista teria
tentado atropelar os policiais e, por isso, um deles disparou e o matou. Foi
publicado um vídeo, entretanto, que mostrou que o carro se moveu, mas não em
direção aos policiais, que nunca estiveram em perigo em razão do veículo. Um
dos passageiros do aplicativo também afirmou que Merzouk sofreu coronhadas do
outro policial e que isso teria soltado o freio do carro. O policial Messiha
prestou primeiros socorros ao motorista, que faleceu.
A defesa do policial mudou sua versão, afirmando que ele não
pretendia atingir o motorista no peito, mas apenas incapacitá-lo e evitar que
pedestres fossem colocados em risco. Segundo a imprensa francesa, foram abertos
três inquéritos: por “recusa em cumprir determinação de pessoa em autoridade”, “tentativa
de homicídio voluntário contra pessoa em posição de autoridade” e “homicídio
voluntário por pessoa em posição de autoridade”. Surgiram também tentativas de
responsabilizar Merzouk pelo incidente.
Ele supostamente teria episódios anteriores com as
autoridades, embora não possua ficha criminal. Também é comentado que ele não
poderia estar dirigindo um veículo profissionalmente, pela sua idade, apenas
com uma licença provisória. De toda maneira, é importante frisar que o
incidente está em investigação e que nenhum episódio anterior justificaria o
ocorrido. Dirigir sem a documentação adequada, por exemplo, não é um crime
capital e certamente custaria a vida de muitas pessoas se fosse.
Protestos e mortes
A morte provocou uma série de protestos e distúrbios,
começando por Nanterre, na região metropolitana de Paris, cidade natal do
motorista. Os protestos se espalharam pela França, incluindo grandes cidades
como Toulouse e Marselha, além de seus territórios ultramarinos. Cerca de 40
mil policiais foram mobilizados, centenas de pessoas ficaram feridas, mais de 3
mil pessoas foram detidas e ao menos duas pessoas morreram. As fortes cenas de
violência e destruição correram pelas redes sociais.
As já habituais cenas francesas de carros queimados se
multiplicaram, também com destruição de propriedades, públicas e privadas. Um
dos mortos foi Dorian Damelincourt, um bombeiro de 24 anos, ao trabalhar no
combate a um incêndio em Saint-Denis, subúrbio da capital francesa. Outra morte
foi de um homem de 50 anos de idade, que estava na janela de sua casa no
subúrbio de Caiena, na Guiana Francesa, e foi atingido por uma “bala perdida” disparada
por uma arma de fogo.
Um dos mais deploráveis episódios foi o envolvendo a
principal biblioteca pública de Marselha, a Alcazar, localizada em um prédio do
século XIX e que hoje conta com mais de 18 quilômetros quadrados e quase 1
milhão de obras e documentos em seu acervo. Parte do prédio foi incendiado e
ainda não foi divulgado um balanço do eventual dano ao acervo. Outro episódio
foi o ataque incendiário à residência do prefeito de L’Hay-les-Roses, na região
metropolitana de Paris, que será investigado como tentativa de homicídio.
O que explica o tamanho dos protestos e a sua amplitude? A
morte do motorista Nahel Merzouk foi, como dissemos, o estopim, mas certamente
não é a única causa. Como estopim, a morte simboliza e catalisa uma série de
outros problemas na sociedade francesa. Primeiro, o fato de que parte da
sociedade francesa está descontente com alguns aspectos do seu modelo de
policiamento, acusando as forças da lei de abuso de poder e de força, uma
acusação que não é de hoje.
Por exemplo, no início do ano, durante os protestos contra a
reforma da previdência, unidades da polícia foram alvo de investigações por
suposto abuso da força. Em novembro de 2020, o produtor musical Michel Zecler
foi agredido e alvo de ofensas racistas por policiais ao ser detido por não
estar usando uma máscara durante a pandemia. Em 2019, durante os protestos dos
chamados Coletes Amarelos, as imagens das ações policiais na televisão
motivaram uma ordem para o uso de câmeras corporais por policiais.
Especialmente, chamou a atenção o número de pessoas naquela
ocasião que perderam a visão devido ao uso de balas de borracha pelas forças
policiais. A questão racial na França é um fator, certamente, que vamos
comentar mais adiante, mas, em 2019, os protestos dos Coletes Amarelos eram
integrados, majoritariamente, por franceses brancos. Ou seja, o
descontentamento com a violência policial perpassa diversos episódios com
características diferentes e em vários anos.
Claro que, mesmo em números relativos, a violência policial
na França é muito menor do que em países como EUA ou Brasil, assim como é um
assunto bastante sensível na sociedade francesa contemporânea. O segundo
aspecto é o descontentamento socioeconômico como um todo, especialmente entre
os mais jovens. A maior parte dos participantes dos protestos são jovens, com
muitos menores de idade, ao ponto do presidente Emmanuel Macron fazer um apelo
aos pais para manterem os filhos em casa.
Questão geracional, não migratória
A idade média das pessoas detidas é 17 anos. Um exemplo
desse descontentamento juvenil “antissistema” se dá pelo fato de que muitos dos
alvos de ataques e incêndios são prédios públicos, como escolas, prédios
administrativos e delegacias. A maioria dos detidos vive em bairros pobres e de
periferia, os mais afetados pelas recentes crises na França e pelo impacto da pandemia
de Covid-19. Jovens pobres, desamparados, que sentem que são alvo da polícia e
que não têm “nada a perder”.
O hoje principal jogador de futebol do país, Kylian Mbappé,
publicou uma nota em suas redes sociais afirmando que “desde este trágico
evento, testemunhamos a expressão de raiva popular que no fundo entendemos, mas
não podemos aceitar”. Mbappé nasceu em Paris, é cidadão francês e filho de
um pai camaronês com uma mãe berbere argelina, ambos países que foram parte do
império colonial francês. O craque do futebol, de certo modo, simboliza o
terceiro aspecto dos protestos.
Muitos dos manifestantes são jovens pobres que descendem
dessas comunidades, como argelinos, camaroneses ou senegaleses. Sentem que são
alvo preferencial da polícia. O Alto Comissariado da ONU para os Direitos
Humanos pediu ao governo francês que enfrente “as profundas questões de racismo
e discriminação no policiamento”, afirmação que foi rejeitada pelo governo
Macron. A mãe enlutada de Merzouk afirmou que o policial “viu um rosto de
árabe, um garotinho, e quis tirar a vida dele”.
Com os protestos, crescem a retórica e os movimentos políticos
anti-imigração na França. Isso é, entretanto, superficial. O leitor deve ter
notado que não usamos o termo imigrante até aqui. Merzouk e Mbappé, dentre
milhões de outros jovens franceses, são cidadãos franceses. Não são imigrantes,
não são recém-chegados. Pessoas nascidas nas antigas colônias francesas antes
da independência são cidadãos franceses, assim como seus filhos, se nascidos na
França.
Por exemplo, Smaïl Zidane, berbere, nasceu na Argélia em
1935, quando o território era parte da França. Ele é um cidadão francês. Seu
filho, Zidane, nasceu em Marselha, em 1972, após a independência da Argélia, e
também é um cidadão francês, assim como seu filho, Enzo, nascido em Bordeaux,
em 1995. Se um imigrante ou cidadão estrangeiro é detido cometendo um crime
como incendiar uma delegacia, ele pode simplesmente ser deportado. O que fazer
quando se trata de um cidadão francês?
O discurso anti-imigração acaba sendo populista, pois busca
uma solução fácil para um problema extremamente complexo: a profunda clivagem
racial e socioeconômica da sociedade francesa contemporânea, fruto de seu
império colonial e da falta de políticas adequadas. Achar também que um desses
indivíduos não é “francês de verdade” seria, além de hipocrisia por
conveniência, um ato ilegal. E a proposta de cassar a nacionalidade de alguém
baseado, por exemplo, na cor da pele tem nome. Racismo.
Usando uma expressão bastante brasileira, o ponto é que o “buraco” do problema francês é “muito mais embaixo” do que um mero problema migratório. Trata-se de um problema estrutural, que necessita de soluções profundas. A política francesa, além de dividida, sofreu um revés também no seu aspecto externo, com Macron cancelando uma visita de Estado à Alemanha, a primeira desde 2000. Tudo isso no ano véspera dos Jogos Olímpicos de Paris, com a imagem francesa em risco.
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