Rui Santos escreve sobre a presença do Papa Francisco em Portugal e diz que “a sua mensagem não devia ser para cinco dias, mas para uma uma forma de estar na vida”. E diz ainda que a sua mensagem devia ser interpretada e seguida pela comunidade do futebol
O Papa Francisco é, de facto, uma personalidade única. É a melhor versão do ser humano.
A parte visível da melhor versão do ser humano.
A sua passagem por Portugal e aquilo que disse ao qual se associa, em grande escala, o seu não verbal, é uma luz que ilumina as almas dos homens e das mulheres que têm esperança ou ainda não perderam a esperança.
A fé é algo que não se explica. É algo a que nos agarramos para justificar as nossas acções e também as nossas omissões.
Este Papa, o Papa Francisco, que tem características diferentes de outros Papas, mais perto das pessoas e dos seus defeitos, devia estar em cada cidade, em cada lugarejo, em cada casa.
Sabe bem ouvi-lo, mesmo percebendo-se que ele projecta a força de uma máquina de comunicação, da qual fazem parte os assessores que têm de preparar os discursos — para o Mundo — de acordo com a história e as realidades locais. Neste caso, a realidade e a história de Portugal, com os seus escritores, poetas e pensadores.
Se tivesse esse dom da omnipresença física e não apenas o da omnipresença espiritual, partilhada por biliões de católicos, talvez não conseguisse manter a dose de tolerância e perdão.
Apenas porque, sendo Papa, é um ser humano. E todos os seres humanos têm os seus graus de compaixão e misericórdia. O Papa não é excepção e não deve ser olhado como excepção, a partir do momento em que ele não observa a vida e as diferenças entre pessoas através de imposições dogmáticas.
Este Papa é o anti-dogma e talvez seja na história dos Papas e da Igreja Católica aquele que se coloca mais perto das pessoas e das suas inquietações, sobretudo quando os jovens pretendem encontrar respostas para essas inquietações.
Entre quarta-feira e esta segunda, Portugal foi uma espécie de ‘sétimo céu’, um paraíso iluminado pelos sorrisos e pelas lágrimas de alegria de jovens (e menos jovens) de todo o Mundo.
Quer o Papa que “cada fiel tenha um nome e que não esconda a identidade nas redes sociais”.
Quer o Papa que “haja lugar para todos e, quando não houver, por favor façamos com que haja, mesmo para quem erra, para quem cai, para quem sente dificuldade”.
Quer o Papa que saibamos viver com as imperfeições e esse talvez seja o maior chamamento que podemos atrair para nós: “Não existe família perfeita. Não temos pais perfeitos, não somos perfeitos, não nos casamos com uma pessoa perfeita nem temos filhos perfeitos.
(…)Temos queixas uns dos outros. Decepcionamos uns aos outros. Por isso, não há casamento saudável nem família saudável sem o exercício do perdão (…).
(…)A mágoa é um veneno que intoxica e mata. Guardar mágoa no coração é um gesto autodestrutivo. É autofagia. Quem não perdoa adoece física, emocional e espiritualmente. É por isso que a família precisa ser lugar de vida e não de morte; território de cura e não de doença; palco de perdão e não de culpa. O perdão traz alegria onde a mágoa produziu tristeza; cura, onde a mágoa causou doença”.
O perdão.
O Papa deixa-nos no começo de uma semana que vai ser quente no futebol em Portugal. Vem aí um Benfica-FC Porto, da Supertaça.
Faz-se crer que o sétimo céu do futebol é aquele que faz coexistir deuses e demónios, sendo que uns e outros são aquilo que cada qual entende conforme a sua nomenclatura. Diz-se, às vezes, que é uma questão de fé, seja lá o que isso for em futebolês.
Este Papa Francisco, Jorge Bergoglio, é confesso adepto do futebol e tem clube, na Argentina: o San Lorenzo de Almagro.
Para o Papa Francisco, “o futebol deve ser um instrumento de paz”. E acentua: “O mais importante não é ganhar ou perder, é evoluir”.
Sim, há outra forma de ver o futebol. Nos antípodas das dinâmicas instaladas em Portugal. O futebol pode ser amado, mesmo nas suas imperfeições. Mas, para isso, é preciso que alguns dos protagonistas do futebol em Portugal percebam a força da sua mensagem e dos seus gestos. E não se achem seres superiores só porque ganham milhões e são capazes de mobilizar as forças que semeiam o ódio.
Não, não é romantismo. O Papa também pediu espaço e tempo para se fazerem perguntas, algo que a comunidade do futebol em Portugal não aceita com naturalidade.
A mensagem do Papa Francisco não devia ser para cinco dias, mas para uma forma de estar na vida.
O Papa, este Papa Francisco, que gosta de futebol e teve no Parque Eduardo VII, centenas de milhares de fiéis a idolatrá-lo, faz falta a muitos balneários. A muitas tribunas. A muitas bancadas. Precisamos reencontrar o caminho da coexistência na diferença. O caminho da paz na diferença. Sim, de todos para todos. Explicando porque convergimos. Explicando porque divergimos. Sem medos. Sabendo também utilizar o silêncio quando não encontramos na palavra, às vezes na confissão da indignação, a forma mais eficaz de aproximar.
Às vezes, escutamos Francisco e pensamos: o Papa não vive na Terra. Mas depois ouvimo-lo na sua humildade anti-dogmática e reformulamos: sim, o Papa vive na Terra. Porque a Terra é de todos-e- para-todos e temos de ser todos a encontrar o caminho da remissão, mesmo quando nos parece estarmos, ufanos, na arena de todas as competições.
Vem aí o Benfica-FC Porto e o começo do campeonato. Lembremo- nos da mensagem papal: não temos de ser perfeitos, mas talvez não seja necessário um grande esforço para sabermos respeitar, em paz, as diferenças. É preciso tornar claro que não há nenhuma forma de violência que possa ser tolerada. No futebol e na vida.
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