Novo livro de Elsa Fontes “ilumina” as sombras da Esquizofrenia

Elsa Fontes regressa à escrita e ao tema da saúde mental com Sombras Diversas, uma obra sobre a Esquizofrenia. O livro, que cruza análise sociológica e ficção, apresenta um caso de estudo com uma raiz biográfica e é uma homenagem ao irmão da autora que padecia desta doença.

Através de vários episódios que acontecem com Samuel, personagem do caso de estudo desta obra, vamos conhecendo a pessoa desde a infância até à manifestação da doença e até ao final da sua vida.

Não se trata, porém, de um romance, mas de uma obra que alterna a ficção com a análise sociológica, como salienta Elsa Fontes, socióloga de formação.

“Há um enquadramento sociológico, a questão da família, da sociedade, da educação…” e, em específico, uma análise do impacto na sociedade e na forma como esta vê a doença, explica.

Assim, mais do que contar uma estória, este livro que sucede a Sinfonia em Claro-Escuro, onde a autora aborda o transtorno bipolar, pretende trazer para a luz uma doença do foro da Saúde Mental, neste caso a Esquizofrenia. Uma condição, como se sabe, por muitos enfrentada em silêncio, escondida, sobre a qual a autora pretende quebrar estigmas.

“Dei o título Sombras Diversas porque é uma sombra que eu tento iluminar com os meus objectivos”, conta Elsa Fontes. “Os objectivos talvez sejam uma voz do grito de socorro de outros que não podem fazer”.

 Sombras Diversas conta com o patrocínio da Caixa Económica de Cabo Verde e o seu lançamento  terá lugar na cidade da Praia, em data ainda a definir. 

Samuel, caso de estudo

O livro, como referido, mostra o caso de Samuel e acompanha em pinceladas rápidas a vida de um homem “fechado em si”.

Depois de uma infância relativamente normal, sem manifestação da doença, aos 20 anos Samuel sofre um desmaio. Num primeiro momento pensou-se que seria epilepsia, mas logo o diagnóstico veio: era esquizofrenia.

A família não quis acreditar. Isso era daquelas coisas que “só acontece aos outros”. Nenhuma família, ninguém, aceita facilmente um diagnóstico de disfunção mental destes, observa a autora.

Os gatilhos para a manifestação da doença, acredita, terão sido a abismal mudança cultural e de vida que sofreu ao mudar-se de África para Portugal e a sua dificuldade em integrar-se. Um desgosto amoroso também terá contribuído.

Estávamos na década de 80, a medicina era muito menos evoluída do que hoje. Entre internamentos e ver o doente deambular pelas ruas, mesmo contra vontade da família, pouco havia a fazer. “Não havia muita solução.”

Samuel começou a frequentar um centro de dia. Depois, como era cada vez mais difícil para a família tomar conta dele acabou por ser internado numa instituição de saúde. Aí faleceu.

Luzia, a personagem de Sinfonia em Claro-Escuro, entra também aqui, cuidando de Samuel e lembrando-se de “um irmão que sofreu muito”.

Sinfonia em Claro-Escuro

Sombras Diversas sucede, como referido, a Sinfonia em Claro Escuro, editado em 2020, e onde a autora relata, através da sua própria experiência, uma outra condição da saúde mental: o transtorno bipolar.

Esse livro, que demorou sete anos a ser escrito, partiu de um desafio de dois amigos, que a exortaram a falar da sua vida como bipolar. Elsa Fontes, que até então só escrevera livros e artigos científicos, aceitou o desafio.

“Meti as mãos no papel e comecei a falar de mim, com uma abordagem familiar. Estreei-me aqui com sucesso”, lembra.

Sinfonia em Claro-Escuro começa por ter como protagonista Luzia, alter-ego da autora. “Depois tiro a máscara”, e é já a Elsa que assume a estória. Ou o “estudo de caso”, como também aqui prefere designar.

Luzia/Elsa foi uma adolescente “normal”, de feitio meigo e foi já a entrar na idade adulta, que o transtorno bipolar, com que tem de lidar para o resto da vida, se manifestou.

O gatilho, aqui, terá sido a morte do pai. “Tive um desgaste emocional muito grande”.

Começou a ter episódios de depressão, alternados com euforia. Estava já a estudar Sociologia quando o diagnóstico foi feito: transtorno bipolar.

Foi em 1992 e, um dia, de repente, acordou na sala de enfermagem de uma estrutura de saúde. Não se lembrava de como aí tinha ido parar. Contaram-lhe depois que tinha “surtado” na universidade, ficado “acelerada”. Chamaram uma ambulância. Até hoje não tem memória desse episódio, “foi como um desmaio”.

Além de ter levado a vida do doente bipolar para livro, também no dia a dia Elsa Fontes fala sobre a sua experiência e condição abertamente.

Aliás, desde que assumiu plena e publicamente a doença sente-se livre. “Antes havia uma sensação de estar presa aos juízos do valor que faziam para mim”, mas com a “rotulagem” veio também essa libertação.

Ao mesmo tempo, embora ainda note o estigma e falta de conhecimento que a sociedade em geral tem sobre as questões da saúde mental, considera que esta tem ganhado cada vez mais espaço para consciencialização na esfera pública. A COVID, recorda, veio dar uma maior atenção à problemática, e a própria OMS tem destacado a saúde mental como algo que merece uma maior atenção.

“Já se vai fazendo alguma coisa” e a própria sociedade cabo-verdiana já “começa a estar mais sensibilizada” para estas questões, mas ainda falta muita informação e sensibilização em Cabo Verde.

“As famílias ainda escondem os filhos”, lamenta.

Elsa, avalia, faz a sua parte, aquele que é o seu objectivo, contando a sua experiência com as doenças mentais, dando a cara e a voz e a sua própria estória. Criar uma Associação de Bipolares em Cabo Vede é outro dos seus objectivos.

Mas, sublinha, é preciso também que o Estado e parceiros não esqueçam o seu papel, nomeadamente a nível terapêutico, redução do preço dos medicamentos, ou na realização de fóruns e outros eventos que coloquem o foco sobre a saúde mental.

Hoje Elsa vive com a doença controlada a maior parte do tempo e vai levando a sua vida normal, desmistificando a doença. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1138 de 20 de Setembro de 2023.

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