MS nunca foi Paraguai – O Progresso

A historiografia sobre a Guerra do Paraguai (1864-1870) tem três fases distintas: a primeira, tradicional, é aquela que se aprende nos livros escolares; a segunda, revisionista, escrita por esquerdistas latino-americanos, que desconstrói a primeira; e a terceira e atual fase, na qual os historiadores procuram dar contornos mais realistas a este importante fato histórico.

A partir dos anos 1970, diversos historiadores –  entre os quais J[úlio José Chiavenato em “Genocício Americano: A Guerra do Paraguai” -, quiseram subverter a história da guerra, de maneira que tudo que se sabia até então parecesse inverdade. Inclusive, muito se falou na época que Mato Grosso do Sul teria sido parte do território paraguaio antes da guerra. Isto não é verdade, como se verá adiante, assim como outras bobagens que, de tanto repetidas, acabam embaralhando a verdade histórica – como a tentativa de transformar Solano Lopez  e o Paraguai de agressores em vítimas da guerra.

 Vamos aos fatos (e não simples argumentos): quando as forças paraguaias invadiram o sul de Mato Grosso, atacaram logo a “Colônia Militar dos Dourados”, localizada no atual município de Antônio João, na divisa entre os dois países, cujo episódio ficou conhecido pelo ato de heroísmo do tenente Antônio João Ribeiro, que foi morto junto com outros 15 praças. Ato contínuo, o coronel Vicente Barrios, comandante da invasão ao então sul de Mato Grosso, subiu o rio Paraguai e tomou Miranda, Corumbá e o Forte Coimbra. A força invasora que destruiu o Destacamento Militar dos Dourados passou por Nioaque e chegou até Coxim, sempre massacrando a população civil local.

 Ora, se os paraguaios passaram por todos esses locais já habitados, como poderia reivindicar para si tal território?

A discussão toda começa com o Tratado de Tordesilhas, pelo qual as coroas portuguesa e espanhola pretenderam dividir o continente americano. Tal tratado fora reformulado por tratados posteriores (Tratados de Madrid, de 1750, e de Santo Ildefonso, de 1777), nos quais o princípio do “uti possidetis” (posse efetiva da terra), defendido pelo luso-brasileiro Alexandre de Gusmão, prevaleceu. Com base nisso, o marquês de Pombal (secretário de Estado no reinado de D. José I) mandou construir, entre 1775 e 1776, os fortes de Nova Coimbra (ou Forte Coimbra) e o Real Forte Príncipe da Beira, no atual Estado de Rondônia (cujas ruínas foram redescobertas pelo Marechal Rondon em 1914). Portanto, quase 100 anos antes da guerra, tal território já pertencia ao reino de Portugal e, depois da Independência, ao Império do Brasil.

 Outro besteirol que os escritores de esquerda espalharam com seus livros tendenciosos foi a minimização dos feitos do Exército brasileiro e a “vitimização” do Paraguai e do seu ditador, o “mariscal” Francisco Solano Lopez. Não foi nada disso. Este deveria ser um lunático, que destruiu seu país e seu povo, ao iniciar uma guerra inútil e sem motivo. E se não fosse a atuação firme e decidida de homens como o almirante Tamandaré, o general Osório e o duque de Caxias, talvez falássemos hoje outra língua por aqui.

 Outra questão polêmica é relativa a um possível genocídio, que teria sido cometido contra o povo paraguaio. Vamos lá: quando o duque de Caxias chegou a Assunção, em janeiro de 1869, à frente do exército aliado, deu por encerradas as operações militares e retornou ao Rio de Janeiro, recusando-se a perseguir Lopez e seu exército mambembe, que tinha se embrenhado nas florestas do norte do Paraguai. Assumiu o comando das operações o genro de dom Pedro II, conde D’Eu, o único membro da família imperial que tinha instrução militar.

 A guerra tinha acabado, mas Solano Lopez continuava no poder, recusando-se a depor as armas. Caso o exército brasileiro não fosse em seu encalço, este retornaria ao poder, quando as forças aliadas tivessem se retirado. Para não se render ao inimigo, Lopez obrigou a população civil, inclusive mulheres e adolescentes, a pegar em armas e continuar a luta. Foi assim que alguns massacres ocorreram em campo de batalha. Diante deste fato, ficam as perguntas: de quem foi a culpa de mandar tais civis para a frente de combate? Por acaso, durante uma batalha, alguém pede certidão de nascimento ou carteira de identidade, para checar uma eventual maioridade? O Exército russo também massacrou a juventude hitlerista na invasão ao território alemão, no fim da II Guerra Mundial. Entretanto, ninguém fala em genocídio – que houve, mas por culpa de Hitler, que decidiu sacrificar a população civil até o fim, assim como Solano Lopez.

 Com a morte de Lopez, em Cerro Corá, e o fim da guerra, em março de 1870, as forças da Tríplice Aliança se retiraram e fizeram acordos de paz em separado. Em seguida, Brasil e Paraguai constituíram uma comissão, que determinou os mesmos limites territoriais de antes da guerra entre os dois países. O mais estranho é que, depois de muito tempo execrado pelos próprios paraguaios, em meados do século XX políticos daquele país, por interesses pessoais e econômicos, revisaram a história e transformaram o homem que destruiu o Paraguai em herói nacional. Seus restos mortais estão sepultados no Panteão dos Heróis da Pátria, em Assunção.

 


A QUESTÃO LYNCH

 Como dizia a personagem de um quadro humorístico da TV nos anos 1970, “brasileiro é tão bonzinho…!” Pois é isso mesmo: com o fim da Guerra do Paraguai, a companheira (não eram casados) de Solano Lopez, Elisa Alicia Lynch, voltou para a Europa e, tempos depois, mandou um representante ao Brasil para reivindicar, para si e seus herdeiros, quase todo o sul de Mato Grosso, a partir das barrancas dos rios Ivinhema e Miranda.

 Ocorre que, quando da tomada de Corumbá, em 1865, fora registrada no cartório da cidade, por ordem expressa de Solano Lopez, uma escritura pública fajuta, na qual o governo paraguaio teria vendido tal extensão de terras a Elisa Lynch – coisa que nunca aconteceu, até porque tais terras não eram do governo paraguaio e, sim, do império brasileiro, ou melhor, da então Província de Mato Grosso.

 Pois o Supremo Tribunal Federal aceitou a causa absurda, cujos interesses de Elisa Lynch e seus filhos foram defendidos por Ruy Barbosa. O senador por Mato Grosso, Antônio Azeredo, conseguiu transferir o processo para o juízo de Cuiabá, que negou o direito reivindicado por Elisa Lynch, em 1900, sendo tal decisão referendada dois anos depois pelo próprio STF.

 Sobre Elisa Lynch, consta que era uma mulher muito bonita, experiente e ambiciosa. Nascida na Irlanda, em 1835, casou-se muito jovem com um oficial médico francês e foi viver na Argélia. Por ser muito assediada, acabou sendo abandonada pelo marido em Paris, onde passou a frequentar o “rendez-vouz” de madame Dumont, que recebia os poderosos parisienses da época. Entre eles, certo herdeiro do presidente de um desconhecido país sul-americano. Seu nome: Francisco Solano Lopez. Tempos depois, desembarcaram em Assunção, já com o filho Panchito (tiveram seis) a tiracolo. Mas o pai de Francisco, Carlos Antônio Lopez, não aceitou o relacionamento e nem que ambos morassem na residência oficial. Com a morte do pai, em 1862, Solano Lopez e sua companheira (pra usar um termo politicamente correto), Elisa Alicia Lynch, finalmente assumiram os destinos do Paraguai – e o conduziram, apenas dois anos depois, para a tragédia de uma guerra, tão sem sentido quanto inútil.

Pobre e doente, Elisa Lynch morreu em Paris, em 1886, aos 51 anos, sem ter seus “direitos” reconhecidos – nem no Brasil, nem no Paraguai.

 

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