As futebolistas do Haiti, apesar da 53.ª posição no ranking FIFA, são tudo menos banais. A maioria joga em França, duas delas nos Estados Unidos e outra na Rússia. Ainda assim, quando a bola chega aos pés de Melchie Dumornay parece enroscar-se alegremente numas botas de veludo. Esta noite, no Suncorp Stadium, em Brisbane, ela e as companheiras tinham do outro lado a poderosa Inglaterra, com seis jogadoras que foram titulares e felizes na final do Euro 2022.
Mas, para Dumornay, a cantiga não mudou muito desde os seus tempos em Mirebalais, a cerca de 55 quilómetros de Port-au-Prince, a capital do Haiti, um país muitíssimo castigado pelos desastres naturais e pela pobreza. “Eu jogava com rapazes que eram muito mais velhos do que eu, mas eu não queria saber porque me sentia bem”, contou, em declarações ao “The Guardian”, a fera do Stade de Reims que agora se vai mudar para o Lyon, talvez a equipa mais importante do continente. “O futebol era o que me fazia feliz.”
E só assim, desenvolvendo uma paixão platónica e depois de cumplicidade com a bola, é que uma rapariga pode transformar-se em Melchie Dumornay, a corajosa e habilidosa haitiana que não vamos querer que abandone o Campeonato do Mundo. Aos 19 anos, é a líder espiritual do grupo, mantendo as veias solidária e criadora de momentos ameaçadores para as adversárias.
O sonho vem lá de longe, tem origem na tal pequena terra de Mirabalais, onde cresceu com a mãe e irmãos e se espreguiçam “muitos rios, natureza e montanhas”, o cenário idílico para a imaginação e os sentidos ganharem outra fineza e consciência. A singularidade e jeito com a bola de Melchie, que começou a jogar com os pés descalços, levaram-na, com apenas 10 anos, para um centro nacional de excelência, uma academia nos subúrbios de Port-au-Prince. Foi aí que aprendeu “a jogar com botas”, reconheceu ao “The Telegraph”. E a sua história começou assim.
Paul Kane – FIFA
Contra a Inglaterra deixou algumas rivais ultrapassadas, a pensar na vida, queimou as luvas de Mary Earps, a senhora guarda-redes do Manchester United, e lutou por bolas com a energia de uma rookie desconhecida. O arrojo coletivo, e sobretudo o talento e fome da camisola 6, esbarrou numa asneira de uma companheira que esticou os braços e cometeu uma grande penalidade. Kerly Thénus ainda defendeu a primeira tentativa, mas a árbitra mandou repetir, pois o posicionamento da guarda-redes não era o adequado. Na segunda chance para as britânicas, aos 29’, Georgia Stanway quebrou finalmente a defesa haitiana.
Esta é a primeira participação do Haiti num Mundial do futebol jogado por mulheres. E Corventina, uma alcunha dada pelo irmão e que foi adotada pelo país inteiro, foi decisiva, como nos contos de fadas, marcando os dois golos contra o Chile, no play-off internacional. “Eu sabia que tinha muita responsabilidade, mesmo sendo tão jovem. Fiz a diferença dentro do campo. Queria ajudar as minhas companheiras nos momentos mais difíceis e, felizmente, consegui”, revelou depois dessa façanha histórica, exibindo um caráter tão competitivo e humano que é quase desumano.
Antes de chegar a França, a craque haitiana jogou no clube AS Tigresses-Tigers, onde foi campeã nacional, ajudando com a módica quantia de 25 golos em nove jogos. Tinha apenas 15 anos. O fenómeno que alguém cozinhou nos místicos caldeirões futeboleiros não era um rumor distante, era o mais belo dos presentes do presente.
Foi aí, e sobretudo depois de uma aparição angelical no Mundial sub-20 de 2018, que o telefone do agente não parou de tocar. “Tivemos o mundo inteiro a chamá-la”, confirmou ao “Goal” Takumi Jeannin. “Clubes da Ásia, metade dos clubes da NWSL [liga norte-americana], até mesmo clubes do leste europeu. Acho que tínhamos uns 50 clubes a contactarem-nos por causa da Melchie.” Na mesma entrevista, Jeannin confessou ter notado algo especial nela: “O que se destacou, para nós, foi ela ter sido inteligente durante o processo. Não pensou uma única vez em dinheiro, mas sim no melhor clube para a ajudar a desenvolver-se como jogadora.”
Justin Setterfield
Et voilà, depois de uma temporada e meia de caso sério no Stade de Reims, o telefone de Takumi Jeannin voltou a dar música. Desta vez era o Lyon, o clube dos sonhos de Dumornay. “Foi sempre o meu sonho vestir a camisola do Olympique Lyonnais. Eu sei que este clube pode permitir-me progredir e ganhar troféus”, admitiu em janeiro, quando a transferência foi anunciada, embora a mudança só aconteça depois do torneio que está a decorrer na Austrália e Nova Zelândia. A aquecer-lhe o coração estava também a ideia de jogar ao lado de Wendie Renard. “Ela é um exemplo para muitas jogadoras jovens e espero um dia ser como ela.”
As futebolistas do Haiti querem certamente dar uma alegria, mesmo que branda, às suas gentes, pois é essa muitas vezes a finalidade do desporto – encher o jarro da representatividade e do orgulho e tentar algo inesperado ou que permita inspirar outros. O país, já se sabe, sofreu em 2010 um terremoto catastrófico, onde terão morrido 230 mil pessoas, sendo que mais de um milhão ficaram desalojadas. A pobreza castiga 70% da população.
“O apoio do povo haitiano, relativamente à equipa feminina, é enorme e qualificar-nos [para o Mundial] seria muito bom para o país, apesar das circunstâncias em que estamos agora”, reconheceu, antes do apuramento histórico, a jogadora na qual muitos especialistas metem todas as fichas, garantindo que esta vai marcar uma era no futebol mundial. “Queremos escrever história para o Haiti e participar neste Mundial. Queremos mostrar ao mundo que o Haiti tem grandes jogadoras e que elas dão algo às pessoas.”
Com o apuramento no bolso, Corventina afirmou: “Vamos viver algo lindo no Campeonato do Mundo”. O futuro já não é futuro e a realidade, apesar de ter começado com uma derrota quase com sabor a outra coisa que não é derrota, trouxe a beleza do jogo de Melchie Dumornay e a coragem das companheiras. E isso não é pouco.
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