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Marcelino da Mata, o militar mais condecorado de sempre do Exército, foi um herói ou um traidor? As opiniões dividem-se e tudo depende a quem se pergunte.
O tenente-coronel na reforma Marcelino da Mata, um dos militares da guerra colonial mais condecorados, morreu vítima de covid-19, em fevereiro do ano passado.
Marcelino da Mata, natural da Guiné-Bissau, tinha 80 anos e foi um dos fundadores da tropa de elite “Comandos”, sendo conhecido nos meios militares como um dos mais “bravos e heroicos” combatentes lusos, especificamente nas então colónias ultramarinas.
Após a Revolução do 25 de Abril e do fim da Guerra Colonial foi proibido de voltar à sua terra natal, entretanto independente país de origem, e viu-se obrigado ao exílio, em Espanha, até ao contra-golpe do 25 de Novembro (que terminou com o Processo Revolucionário Em Curso).
Foi o militar mais condecorado de sempre do Exército, segundo o ramo. Em 1969, foi armado cavaleiro da “Antiga e Muito Nobre Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito”, após ter subido sucessivamente de patente, desde soldado a major.
Entre as mais de 2.000 missões de combate em que participou, naquele que é considerado dos teatros de operações mais difíceis da Guerra Colonial, contam-se as emblemáticas: Operação Tridente, o resgate de mais de uma centena de militares lusos no Senegal e a Operação Mar Verde.
A morte de Marcelino da Mata causou uma fratura entre pessoas de direita e de esquerda numa polémica que trouxe à tona as feridas que ficaram da guerra colonial. Afinal, Marcelino da Mata era um herói ou um traidor? Tudo depende a qual dos lados se pergunte.
“Marcelino da Mata foi envolvido numa discussão de esquerda versus direita, quando o que deve ser discutido é a guerra, que é extremamente complexa“, disse Ramalho Eanes, pouco tempo depois da morte do tenente-coronel.
O controverso militar nascido na Guiné é considerado um “herói” da guerra colonial por uns e, ao mesmo tempo, um “criminoso de guerra” por outros.
As suas missões envolveram com frequência atos de crueldade desnecessária que constituem crimes de guerra, lembra o Expresso.
“Apanhámos o gajo, despimos-lhe a farda, fizemos-lhe a mesma coisa que ele fez ao outro: cortámos-lhe a piça, metemos-lha na boca. A mesma coisa que ele fez aos tais soldados brancos”, conta Marcelino da Mata num vídeo que se encontro público no YouTube.
Esta é a história que abre o livro “O Fenómeno Marcelino da Mata”, de Nuno Gonçalo Poças. A obra assume uma posição equidistante quanto ao militar luso-guineense.
“A própria Guerra Colonial é uma guerra de crimes, de ambos os lados”, diz Poças ao semanário. “Não se pode pôr o peso de todos esses crimes em cima dos ombros de uma só pessoa. O Marcelino não era um mercenário. Era um militar inserido numa estrutura. Os atos dele eram validados, ou não”.
À data da sua morte, não foi declarado luto nacional, mas Marcelo Rebelo de Sousa esteve no funeral.
“É uma posição política que consigo compreender. O Estado português fez o mais equilibrado, tendo em conta todos os fatores em causa”, atira o autor do livro, argumentando que não é responsabilidade do Estado aferir a admissibilidade ou não de crimes de guerra.
“Passaram quarenta e tal anos. Ninguém retirou as condecorações a Marcelino da Mata. Nenhum Presidente retirou, o exército não retirou. O homem morre. Para todos os efeitos, ele tinha as condecorações”, resume Poças em entrevista ao Expresso.
ZAP //
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