O último concerto de Cesária no Luxemburgo aconteceu no Rockhal em 2009, dois anos antes da sua morte. Mas muito antes de se tornar conhecida no planeta inteiro como diva dos pés descalços, a cantora já tinha andado por estas bandas. “Houve uma altura em que Djô da Silva, o produtor que a descobriu e a mostrou ao mundo, andou a viajar com ela por vários países do centro da Europa”, conta agora a realizadora Ana Sofia Fonseca ao Contacto. “Andaram pela Bélgica, pelos Países Baixos, pela Alemanha e em lugares onde havia comunidades cabo-verdianas, a cantar em pequenas festas ou restaurantes com noites de música ao vivo.” Nalgumas dessas vezes, passou pelo Grão-Ducado e cantou a saudade que todos tinham de um arquipélago no meio do Atlântico.
Este sábado, 14 de outubro, volta ao país, sim, mas em formato cinematográfico. Às sete da tarde é apresentado o documentário ‘Cesária Évora’, que estreou em março do ano passado no festival South by Southwest, nos Estados Unidos. A obra foi apresentada em salas de cinema nos cinco continentes, venceu prémios em festivais como o Indie Lisboa, os Caminhos do Cinema Português, Valenciennes, em França, ou Cracóvia, no Polónia. Esteve ainda nomeado para os IDA – International Documentary Awards, um dos mais prestigiados prémios mundiais do género.
O filme, que somou semanas de exibição nos cinemas de Portugal e dos Países Baixos, vai estrear nas salas francesas a 29 de novembro. Por cá, vai passar hoje e é uma exibição única. Acontece no Kinepolis, em Kirchberg, em formato de homenagem, com música, comes e bebes – não fosse essa a maneira crioula de fazer as coisas. E a maneira de Cesária Évora, também.
O filme é baseado numa pesquisa minuciosa e imagens de arquivo inéditas. E é aí que se percebe a autenticidade de uma diva que nunca o quis ser. Depois de ganhar um Grammy e ter o mundo aos pés, há este dia em que vai cantar ao Hollywood Bowl, um dos mais reputados palcos do planeta. Na véspera, tinha arranjado maneira de encomendar uma cachupa. E de levá-la para o camarim do espetáculo.
Se virmos bem as coisas, Cesária é uma enorme improbabilidade. “Era mulher, negra, pobre, sem a beleza própria das revistas e tinha mais de 50 anos quando conquistou o mundo”, diz Ana Sofia Fonseca. “E não só triunfou como se tornou no orgulho de um país que tem mais população na diáspora do que nas ilhas. Ela simboliza tudo isso. Falar de Cesária Évora é falar de Cabo Verde. É aquele mar, é aquele vento, aquele sentido de humor. E aquela liberdade que ela tinha, de fazer o que queria, da maneira que entendia.”
Então passa hoje pelo Luxemburgo esse cheiro de mulher livre, dos seus dilemas e triunfos, altos e baixos. Bem pode passar uma dúzia de anos desde a sua morte que ela ainda é capaz de ir a Kirchberg pôr meio mundo a rir e a chorar, a deixar-se embalar nas mornas e querer dançar de alegria. Esta noite, sobe ao palco a sôdade.
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