Uma expedição do Projecto ResilienSEA realizada ao longo da costa marítima, entre a praia da Gambôa e o ilhéu de Santa Maria, identificou um extenso e saudável prado de uma espécie rara de erva marinha chamada Holodule wrightii. A bióloga marinha, Edita Magileviciute, sublinha que a descoberta é uma arma eficiente no combate às mudanças climáticas.
Um programa de descoberta de ervas marinhas, financiado pela Fundação MAVA, umaassociação suíça filantrópica que tem financiado projectos de conservação da biodiversidade e desenvolvimento durável, e que está presente em Cabo Verde desde o ano 2000, apoiou actividades de investigação e capacitação para o levantamento e a monitorização de ervas marinhas em sete países-piloto da África Ocidental: Cabo Verde, Gâmbia, Guiné-Conacri, Guiné-Bissau, Mauritânia, Senegal e Serra Leoa.
O programa lançou o projecto ResilienSEA (Ervas Marinhas Resilientes, 2018-2022) com o intuito de melhorar o conhecimento científico e criar capacidade para melhorar a protecção das ervas marinhas nesses países.
Em 2021 foi identificado um grande prado de ervas marinhas na praia da Gambôa, uma área estimada em 6.243 m2. O sedimento sob esse prado é composto por uma mistura de lodo e areia onde existe uma presença notável de algas castanhas (Phaeophyceae). A cobertura média das ervas marinhas em todo o sítio de monitorização da Gambôa é superior a 60%, com a altura média do dossel a atingir 9,5 cm. Entre 2016 e 2021, parâmetros como a cobertura total, a biomassa, o rizoma e a altura do dossel da espécie Holodule wrightiiaumentaram, ao passo que a densidade dos rebentos diminuiu para um quinto.
“As ervas marinhas da Gambôa parecem flutuar em função das estações ou das perturbações. No entanto, a extensão da acumulação e da agregação de sedimentos em todo o prado indica que as ervas marinhas têm estado presentes e imperturbáveis desde há muito tempo. Como tal, esse prado tem um potencial elevado para o sequestro de carbono e alberga fauna marinha importante, como as tartarugas marinhas”, explica Edita Magileviciute, uma bióloga marinha envolvida no Projecto ResilienSEA.
O que é “carbono azul”?
O termo “carbono azul” refere-se ao dióxido de carbono (CO2) que é capturado pelos oceanos e pelos ecossistemas próximos da costa, como manguezais e prados de ervas marinhas. Essas áreas especiais conseguem manter o carbono nas plantas e no solo. O carbono capturado é uma forma muito eficiente de retirar e armazenar o CO2 por um longo tempo.
“Temos dois tipos de carbono azul, carbono azul oceânico e carbono azul costeiro. Carbono azul oceânico é toda a megafauna marinha incluindo peixes grandes como atum e serra, e mamíferos marinhos como baleia, golfinhos e tartarugas. São carbono azul oceânico porque ficam a maior parte do tempo afastado da costa marinha. Melhor, é toda a espécie que existe perto da costa marinha, ou mesmo na zona da maré, como ervas marinhas, florestas de mangais, algumas plantas nas salinas”, esclarece.
Cabo Verde
No âmbito do Projecto ResilienSEA foi descoberto que em Cabo Verde, “em principio”, o principal “carbono azul” são as ervas marinhas. Edita Magileviciute explica que durante o processo da fotossíntese as ervas marinhas absorvem o dióxido-de-carbono da água do mar, que depois é depositado nas raízes e ali fica armazenado por milhares de anos.
Em países com grandes zonas de ervas marinhas, essas ervas servem para a protecção costeira, regulam a química das águas com a absorção do dióxido de carbono, depois com a libertação do oxigénio. A bióloga marinha apontou que na Gambôa, por ser uma praia muito rasa, a temperatura pode aumentar bastante e ter o oxigênio reduzido pelo que as ervas marinhas ajudam a manter o equilíbrio e criar um habitat para as outras espécies.
“As Ervas Marinhas contribuem entre 15 a 18% da captação de dióxido de carbono da água, uma contribuição superior à da floresta Amazónia que ajuda a combater o aquecimento global e as mudanças climáticas provocados pela acumulação de gases de efeito de estufa, como o dióxido de carbono, metano, entre outros. As Ervas Marinhas funcionam como um regulador natural, não pagamos nem investimos para as ter, a nossa obrigação é somente protegê-las”.
Desafios
Um grande desafio identificado pela equipa nacional de implementação do Projecto ResilenSEA em Cabo Verde é a dificuldade em estabelecer parcerias sustentáveis para a protecção e monitorização a longo prazo das ervas marinhas a nível nacional. Isso é particularmente relevante para a aplicação da Cabo Verde Nationally Determined Contribution (NDC), (Documento das Contribuições Nacionalmente Determinados, aprovado no âmbito do Acordo de Paris e da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas), onde a governança intersectorial é necessária para atingir as metas de mitigação e adaptação. Além disso, a zona da Gambôa não faz parte de uma área protegida. Isso representa uma oportunidade para o país aumentar o status de protecção das ervas marinhas conhecidas no entorno da Gambôa.
“Ervas Marinhas é um habitat muito frágil, pelo que, na nossa opinião, os principais impactos negativos é a construção na zona costeira que contribui para pouca visibilidade e muitos sedimentos nas águas do mar quando elas precisam da luz do sol para o processo da fotossíntese, se alimentarem, entre outros processos. Uma outra preocupação é a poluição com muitos plásticos a virem do mar com as ondas e as correntes marinhas, mas também plástico vindo da terra. Na zona perto do Hotel Trópico pode-se encontrar inúmeras garrafas de plásticos e outros lixos que contribuem para essa degradação”.
A pesca também foi identificada como uma das ameaças às ervas marinhas. As redes de pesca podem causar grande prejuízo no rendimento das ervas marinhas. Edita Magileviciute destaca que a fiscalização é fraca em muitas áreas.
Um dos objectivos do projecto ResilenSEA é identificar as zonas e fazer recomendações ao Ministério da Agricultura e Ambiente sobre o que pode ser feito.
“Na Gambôa, por exemplo, uma das recomendações é referente à regulamentação da construção civil nessa zona que tem de ser melhor organizado para minimizar o impacto. Em outras zonas, onde o problema é o aquecimento das águas, não podemos fazer nada porque é um fenómeno global. O que podemos fazer é reduzir a quantidade do lixo em todas as baías em que trabalhamos. A imensa quantidade de lixo mostrou ser um problema de grande proporção. Já temos um grande problema que é o aquecimento global pelo que temos que ajudar as espécies de ervas marinhas e os corais para aumentarmos a resistência e diminuir os impactos negativos”, reforçou.
Investir no carbono azul traz benefícios importantes para a natureza e ajuda a combater as mudanças climáticas. Além de ajudar a diminuir a quantidade de CO2 na atmosfera, o carbono azul também traz inúmeras vantagens. Os ecossistemas costeiros ajudam a proteger as praias contra a flora, diminui o impacto dos desastres naturais, fornecem moradia para muitos animais marinhos e ajudam a manter a diversidade das espécies.
“Esses ecossistemas ajudam a lidar com os efeitos das mudanças climáticas, como a elevação do nível do mar e fortes tempestades. Portanto, quando investimos no carbono azul não só estamos a combater as mudanças climáticas como também estamos a proteger as comunidades próximas do mar e a garantir um futuro melhor para todos. É importante proteger e cuidar do carbono azul, conservando e restaurando esses ecossistemas costeiros. Assim, aproveitamos os benefícios de retirar o carbono da atmosfera e protegemos os lugares onde vivem muitas plantas e animais importantes para o nosso planeta”.
A bióloga afirma que as ervas marinhas Holodule wrightii de Gambôa, é um habitat único e o maior prado conhecido desta flora marinha em Cabo Verde. São plantas produtoras de flores que formam prados em áreas rasas ao longo da costa. Representam 10% da capacidade do oceano de armazenar carbono, o chamado carbono azul, e podem capturar carbono da atmosfera até 35 vezes mais rápido do que as florestas tropicais.
Baías de Cabo Verde
As ervas marinhas em Cabo Verde são uma espécie muito rara e foram confirmadas na Gambôa em 2015. Em Cabo Verde foram identificadas duas espécies de Ervas Marinhas, Holodule wrightii, que é considerada a verdadeira erva marinha, e a Ruppia marítima que também é considerada erva marinha, mas que precisa de um pouco de água fresca.
A Ruppia marítima foi constatada somente em Santa Cruz, nas salinas e ribeiras. A descoberta da Holodule wrightii foi em 2015, por cientistas de Moçambique, Brasil e de Cabo Verde que encontraram essa espécie na Gambôa, que durante um tempo foi considerada o único local destas ervas marinhas no país.
“No ano de 2022, recebemos financiamento do Ministério da Agricultura e Ambiente para uma continuação do Projecto ResilenciaSEA para continuar a monitorização das ervas marinhas na Gambôa e também para investigar se há vestígios destas ervas marinhas em outras baías. No âmbito do Projecto Resilencia SEA foi descoberto um prado muito pequeno na Baía de São Francisco, depois, na baía de Nossa Senhora da Luz, com pouca visibilidade, e também em Porto Lobo (imediações do Porto de Rinção) onde foi descoberto um prado muito grande, que pode ser maior do que o encontrado na Gambôa”, avançou.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1133 de 16 de Agosto de 2023.
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