“Faltam cinco minutos para as 23 horas”. João Paulo Diniz fala sobre a senha que mudou o país, a democracia e o jornalismo – Atualidade
João Paulo Diniz explica logo no início da nossa conversa: “A senha não era a música, era a frase: ‘faltam cinco minutos para as 23 horas’” e conta que quando foi à discoteca da rádio buscar o disco do Paulo de Carvalho, trouxe também o de Beatles e mais outra meia dúzia de discos que marcavam a década de 70. “Para não dar nas vistas”, conta.
Quando o Major Costa Martins foi ter com ele à Rádio no dia 2 de abril de 1974 desconfiou que pudesse ser um esquema da PIDE. Só mais tarde, com Otelo Saraiva de Carvalho, que já conhecia desde os tempos da Guiné, percebeu que o movimento era sério. Otelo pedia confiança e que o ajudasse a enviar um sinal para todo o país. Assim, foi, e a cinco minutos das 23 horas, João Paulo Diniz lançava a primeira senha. Aos 25 minutos do dia 25, a Rádio Renascença confirmava a revolução com a segunda senha: a Grândola Vila Morena.
Para João Paulo Diniz não houve dúvidas. Se corresse mal “era um azar terrível, uma chatice em todos os aspetos”, mas o radialista confiava no movimento, tinha um desejo profundo que acabasse a guerra em África e que pudesse viver num país sem ditadura e com eleições livres. Fez a tropa com 21 anos e poucos meses depois foi mandado para a Guiné. Esteve dois anos em Bissau na rádio das Forças Armadas: “Tive sorte, mas vi coisas que preferia não ter visto”, afirma.
“Eu tinha de confiar que ia correr bem e ter fé”
Confidencia que, quando aceitou a missão de lançar a senha, contou à mãe o que ia fazer e que, naturalmente, ela demonstrou muita preocupação e pediu cuidado – o pai de João Paulo Diniz já tinha estado preso dois anos em Cabo Verde. João tentou descansar a preocupação da mãe e explica: “A fazer uma coisa destas eu tinha de confiar que ia correr bem e ter fé.”
A escolha da música também não foi consensual e se para muitos de nós a voz de Zeca é inconfundível, antes de 1974 não era bem assim. “Estava proibidíssimo pela censura, logo não tocava nas rádios e podia haver confusão entre os militares porque podiam não identificar a voz”. O radialista explica ainda que havia pessoas que conheciam o cantor e tinham os discos em casa, mas que preferia uma mensagem mais clara, uma música que todos conhecessem: a música que representou Portugal na Eurovisão: E Depois do Adeus, com a música de José Calvário, letra de José Niza e interpretação de Paulo de Carvalho.
O Festival da Eurovisão desse ano realizou-se no dia 6 de abril em Brighton, no Reino Unido, e a música que é hoje um dos marcos da Revolução ficou em último lugar.
No ano anterior, no Festival da Canção no Luxemburgo, Fernando Tordo driblava a censura no tema Tourada, com os versos de Ary dos Santos: “Com bandarilhas de esperança / Afugentamos a fera / Estamos na praça da primavera / Nós vamos pegar o mundo /Pelos cornos da desgraça / E fazermos da tristeza graça”
João Paulo Diniz estava no Luxemburgo para cobrir o evento e deslocações como esta faziam-no questionar e desejar por uma vida democrática também em Portugal.
Cresceu em tempo de ditadura e viveu com censura até aos seus 25 anos. Diz que é “uma coisa sinistra, uma dominação do pensamento das pessoas, uma desconsideração do ser humano”.
“No dia seguinte, apresentei-me ao trabalho. Foi um dia muito especial”
No dia em que lançou a música de Paulo de Carvalho continuou a trabalhar até às 2h e foi para casa dormir. Mas acordaram-no poucas horas depois com a informação de que o Rádio Clube Português estava a transmitir marchas militares. “Já sabia o que estava a acontecer e fiquei acordadíssimo”, conta. E depois? “Depois apresentei-me ao trabalho, estava de serviço e fui trabalhar. A programação estava toda alterada, foi um dia muito especial.”
O Capitão Salgueiro Maia no interior de um blindado durante a Revolução dos Cravos
créditos: Lusa
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Depois desse dia, para o locutor foi como se tivesse mudado de país, “não a nível geográfico, mas houve uma alteração profunda da sociedade”, conta. “Deixamos de viver sempre a falar baixinho e a desconfiar que o outro poderia ser da PIDE.”
Na redação, e mesmo passados alguns meses sobre a revolução, pensava muitas vezes ao ler as notícias: “Isto há uns meses era impensável. Não é que fosse nada de transcendente, mas agora podíamos dizer à vontade. Deu-me um gozo espantoso”, relembra.
Meio século de diferenças entre troca de pesetas e o imediatismo da informação
Comemorou 50 anos de carreira em 2015. Este ano, em março, a Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu-lhe o Prémio Igrejas Caeiro. O interesse pela rádio começou bem cedo e aos 13 já tentava fazer audições, aos 16 começou a trabalhar na Rádio Peninsular. Depois trabalhou no Rádio Clube e foi para Londres, onde esteve seis anos na BBC: “Foi das melhores experiências da minha vida”, recorda. Trabalhou cerca de 30 anos na Antena 1, passou pela RTP, SIC e TVI e dirigiu a Rádio Alfa, em Paris.
Ao longo destes anos, entrevistou nomes que ficam para sempre na história, como Salvador Dali, Fidel Castro e por cá Ruy de Carvalho ou Eunice Muñoz. Destaca o encontro com Nelson Mandela: “Vê-lo é um momento daqueles em que uma pessoa quase que se belisca. Ele era espantoso, um homem inteligentíssimo, eu estava ali com muito respeito por ele”, conta.
João Paulo Diniz em entrevista a Nelson Mandela
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Meio século depois, trabalhar em televisão e rádio é completamente diferente. “Tudo se transformou. Há uma agressividade muito grande, mas no bom sentido: quando acontece algo, em instantes está lá um repórter”, aprecia e recorda o tempo em que foi cobrir o assalto ao Banco Central de Espanha, em Barcelona. Em maio de 1981, sob a direção de Adelino Gomes, João Paulo Dinis foi enviado para a Catalunha: “Tínhamos de ir à agência de viagens para marcar a viagem e tive de ir por Madrid para o nosso correspondente me ir levar pesetas.”
Elogia a rapidez com que hoje se chega ao local e a facilidade com a que a informação é transmitida mas deixa também críticas a um culto da imagem em detrimento da credibilidade.
“Acho que é ótimo haver cursos de comunicação social e haver estágios nas rádios, jornais e televisões, pois isto dá uma pequena tarimba aos jovens”, conta. O primeiro curso de jornalismo em Portugal surgiu apenas em 1979, na Universidade Nova de Lisboa, e a profissão aprendia-se e afinava-se nas redações com os mais velhos. “Hoje, tenho a sensação de que atiram a gente nova aos crocodilos, percebe-se que ainda não estão em condições para enfrentar uma câmara de televisão e mostrar credibilidade, acho isso uma péssima ideia. É preciso começar devagarinho para depois se poder levantar voo”.
João Paulo Diniz no início da sua carreira
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Comparando a informação em Portugal com a de outros meios anglo-saxónicos, afirma que tem pena de por cá não se ver locutores “de cabelos brancos” e que “há muitas carinhas larocas”. “A televisão não é uma passagem de modelos, é essencial transmitir credibilidade”, afirma.
“A democracia é uma coisa muito séria”
Quando questionado sobre as expectativas que se tinham naquela época para a democracia e como avalia o seu estado na atualidade, João Paulo Diniz é perentório: “A democracia é uma coisa muito séria. Pela democracia, houve milhares de portugueses que foram presos, que foram torturados, que foram mortos. É uma coisa muito séria.”
O locutor, hoje com 73 anos, desenvolve: “Acho que a democracia se traduz numa expressão que ouço há muito tempo: a máxima liberdade. Concordo muito, mas é importante referir que isto traz a máxima responsabilidade. E eu acho eu a democracia é isso: a máxima liberdade com a máxima responsabilidade.”
Um dos homens que deu início a um dos dias mais importantes da história do país, afirma que fica muito desiludido com os níveis de abstenção a que se vão assistindo nas várias eleições. “A democracia somos nós que a construímos e quando há eleições e as pessoas ficam a dormir ou vão dar uma volta e não votam, acho que depois não deviam fazer críticas”, ao mesmo tempo, delega responsabilidade sobre o descontentamento com a classe política aos governos e que têm obrigação de se perguntar o que estão a fazer de errado para as pessoas não se interessarem pela participação democrática.
João Paulo Diniz acrescenta ainda: “Há atitudes de certos deputados na Assembleia da República que me chateiam solenemente, há comportamentos que são anedóticos, fazem show-off, gracejam, mandam bitaites e, para mim, isto é brincar com coisas muito sérias.” “Acho a negação do espírito democrático, os senhores deputados têm uma missão fantástica, mas o país espera mais”, sentencia.
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