Envio de força internacional para combater gangues no Haiti divide opiniões no país | Mundo

Mulher caminha com mala e bacia na cabeça em vilarejo perto de Porto Príncipe, no Haiti, de onde milhares fogem da ação de gangues locais, em setembro de 2023. — Foto: Odelyn Joseph/ AP

Estrangeiros armados são recebidos com hostilidade na maioria dos países do mundo.

As notícias da votação — que autorizou o destacamento de uma força liderada pelo Quênia pelo prazo de um ano para ajudar a reprimir as gangues violentas — dominou as conversas e os programas de rádio e televisão.

″É como se Deus tivesse ouvido as orações dos haitianos, e estivesse enviando ajuda”, diz Wensley Johnson, de 40 anos.

Johnson precisou fugir de sua casa este ano depois que as gangues saquearam a comunidade onde vivia, construída por pessoas que sobreviveram ao devastador terremoto de 2010 no Haiti.

Preocupado com a interminável violência das gangues, Johnson mandou o filho e a enteada irem morar com a mãe na região rural, mas o trabalhador da construção civil luta para conseguir cuidar deles.

Obras foram interrompidas em vários locais porque as gangues tomaram o controle dessas áreas, e Johnson não está conseguindo encontrar trabalho.

“A estabilidade seria fundamental para todos voltarem às atividades normais”, diz ele, acrescentando que está aliviado com o envio de uma força armada internacional. “Nossas forças não têm efetivo para combater as gangues com as armas que possuem”, diz.

A Polícia Nacional do Haiti já lançou várias operações contra as gangues, mas o departamento não tem recursos, nem pessoal, com cerca de 10.000 agentes da ativa em um país com mais de 11 milhões de pessoas.

A missão comandada pelo Quênia representará a primeira vez em quase 20 anos que forças seriam enviadas ao Haiti. A missão da ONU de 2004 se encerrou em 2017.

A próxima missão deve ser liderada pelo Quênia, mas Jamaica, Bahamas, e Antígua e Barbuda também se comprometeram a enviar efetivo.

A missão, não vinculada à ONU, seria reavaliada após nove meses, e financiada com contribuições voluntárias — os EUA prometeram até US$200 milhões (cerca de R$ 1 bilhão). O ministro das Relações Exteriores do Quênia disse que o envio poderia acontecer no começo de janeiro.

“Eles deveriam chegar antes de janeiro”, reclama Peter John, um carpinteiro de 49 anos que ouviu as notícias em um pequeno rádio preto e branco em sua oficina, onde fabrica camas, mesas e armários.

Ele teme que a violência de gangues continue aumentando.

“Numa manhã você ouve falar de caras tomando uma área, matando e estuprando crianças, deixando todos sem casa, isso é assustador”, diz. “Uma força enviada ao nosso país teria condições de resistir.”

Enquanto isso, diz, os haitianos lidarão com as gangues da única forma que sabem: por meio de um levante violento conhecido como ”bwa kale ″, que matou cerca de 350 pessoas desde que começou, em abril.

A população vai acabar com as vidas deles. Eles fizeram as pessoas sofrerem demais”, diz ele sobre as gangues.

Haitianos carregam o corpo de um homem morto por gangues que atuam em Porto Príncipe, capital do Haiti — Foto: REUTERS

Mais de 2.400 pessoas foram mortas entre janeiro e meados de agosto deste ano por episódios violentos. Cerca de 950 foram sequestradas, e outras 902 foram feridas, pelas estatísticas da ONU. A violência contra mulheres e crianças, em especial, aumentou.

Entre as pessoas sequestradas e torturadas estavam amigos de Jannette Boucher, uma lojista de 37 anos que vende roupas femininas e infantis. Ela mesma escapou de um ataque de gangues no começo deste ano enquanto dirigia sozinha. As gangues atiraram em seu carro, quebrando uma janela, e ela pisou no acelerador e fugiu.

“Sim, estou animada”, diz ela sobre o envio da força internacional. “Já está na hora de o Haiti receber algum apoio real.”

Mais de 200 mil haitianos perderam suas casas para as gangues, que colocam fogo nas comunidades e estupram e matam os moradores na tentativa de conquistar o território de gangues rivais.

As intervenções internacionais anteriores no Haiti deixaram muitas pessoas desconfiadas e raivosas.

A missão de estabilização da ONU lançada em 2004 foi marcada por um escândalo de abuso sexual e pela introdução do cólera, que matou quase 10 mil pessoas.

“Eles deixaram lembranças ruins no Haiti”, diz Jean-Pierre Elie, um professor particular de 60 anos de idade, sobre as intervenções anteriores.

Ele diz que apoia o envio das forças armadas porque “está insuportável viver no Haiti”, mas teme que o passado se repita.

“Os soldados às vezes saem do controle”, conta. ”É como se não se reportassem a ninguém. Fazem o que querem.”

Johan Lefebvre Chevallier, diretor para o Haiti da organização sem fins lucrativos Mercy Corps, diz ter esperança de que a força armada internacional respeite os direitos humanos e restaure alguma estabilidade.

“O pior resultado seria que essa nova intervenção aumentasse ainda mais a violência e oprimisse aqueles que enfrentam o peso desta crise humanitária e de segurança”, diz.

Críticos da nova missão também alertaram sobre os abusos cometidos no passado pelas forças policiais quenianas, mas os apoiadores dizem que a resolução que autorizou o envio da força tem disposições rígidas para prevenir os abusos, e exige uma gestão adequada das águas residuais.

O Conselho de Segurança da ONU aprovou a resolução quase um ano depois da solicitação, feita pelo primeiro-ministro haitiano, Ariel Henry, de envio imediato de uma força armada internacional para combater as gangues que dominam o país.

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