Raras serão as biografias que arrancam com o biografado a descrever, “com a leveza e a serenidade de quem já viu e viveu muito”, como tomou parte na castração de um combatente inimigo, cujo cadáver foi profanado com os mesmos requintes de malvadez com que aquele dias antes supliciara dois dos seus camaradas de armas. Mas também raras são as figuras como Marcelino da Mata, o comando nascido na Guiné-Bissau que foi o militar mais condecorado da história de Portugal, e que aquando da sua morte, a 11 de Fevereiro de 2021, vítima de covid-19, foi considerado herói nacional por alguns e criminoso de guerra por outros.
Em “O Fenómeno Marcelino da Mata – O Herói, o Vilão e a História”, livro escrito por Nuno Gonçalo Poças e editado pela Casa das Letras, acompanha-se o percurso do homem que ao longo de 80 anos combateu de forma impiedosa os guerrilheiros do Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC), teve participação decisiva na Operação “Mar Verde”, que resgatou soldados portugueses mantidos prisioneiros na Guiné-Conacri, escapou ao extermínio dos africanos que lutaram por Portugal após a independência das províncias ultramarinas, foi torturado em Lisboa depois do 25 de Abril, foi a salto para Espanha antes do 25 de Novembro, lutou pela readmissão nas Forças Armadas, deu formação e comandou tropas angolanas no combate à UNITA e ainda criou quase duas dezenas de filhos.
Para o advogado Nuno Gonçalo Poças, autor de um dos fenómenos editoriais de 2021 ao investigar a organização terrorista de extrema-esquerda FP-25 de Abril no livro “Presos por Um Fio”, a curiosidade pela figura de Marcelino da Mata vinha de longe, sendo a pedra-de-toque a notícia da sua morte. Mas o projecto sofreu uma grande transformação ao testemunhar o debate público que durante algumas semanas resgatou o ex-combatente do esquecimento.
“À medida que escrevia fui chegando à conclusão de que a biografia não era assim tão necessária, até porque, sendo ele importante para a história militar, não é assim tão relevante para a história de Portugal”, admite ao NOVO o autor do livro, ontem apresentado em Lisboa pelos deputados Cecília Meireles e Diogo Leão. Aquilo que o moveu foi “lançar as bases” para que seja possível “fazer um debate mais equilibrado e menos apaixonado sobre a Guerra Colonial, sobre a descolonização e sobre o processo revolucionário”.
Acusado depois da morte de ser um traidor ao povo guineense e um criminoso de guerra pela deputada Joacine Katar Moreira e pelo activista Mamadou Ba, também nascidos em África, Marcelino da Mata chegou a receber condecorações de Salazar, que com ele conversou sobre os combates.
“A questão racial neste caso é muito interessante porque, passe a expressão, não é a preto-e-branco”, ressalva Nuno Gonçalo Poças, defendendo que o comando “tinha toda a legitimidade para se sentir português”, pelo que estaria a defender a pátria ao combater o PAIGC. “Hoje em dia não pomos em causa que um imigrante africano que chegue a Portugal e adquira a nacionalidade seja tratado como português e com a decência com que são tratados todos os portugueses”, diz, apontando “visão racista” a quem, como o historiador Fernando Rosas, rotulou Marcelino da Mata de “traidor à sua causa.”
Fruto das circunstâncias
Quanto ao homem em si, tão capaz de matar inimigos a sangue-frio como de voltar de uma operação no mato a carregar uma criança, pois “alguém tinha de tomar conta do menino”, Nuno Gonçalo Poças concorda que Marcelino da Mata é um enigma. “Acho que sim e que ele se esforçou por criar esse enigma”, refere, reconhecendo a tendência que – tal como outros ex-combatentes – tinha para pôr “um zero a mais” no que descrevia, mesmo que fosse o número de mortos. “Acaba por ser vítima dele próprio nesse sentido. Se calhar, não foi assim tão bom nem assim tão mau. A radicalização das opiniões quanto à sua figura foi provocada por si próprio e pelas coisas que disse”, acrescenta.
Mas mesmo a confissão da castração do guerrilheiro do PAIGC admitida por Marcelino da Mata leva Nuno Gonçalo Poças a notar o enviesamento na avaliação das atrocidades durante a Guerra Colonial. “A primeira vez que vi aquele vídeo foi em partilhas nas redes sociais, mas só com o excerto do que ele dizia ter feito”, recorda, tendo de seguida procurado o resto. “A questão é que aquilo tinha um contexto”, ressalva, sendo esse contexto o facto de o comando ter encontrado o guerrilheiro, negro como ele, com a farda e haveres de dois soldados brancos, seus camaradas de armas, que tinham sido barbaramente assassinados.
“Com o passar dos anos foi-se ganhando algum tipo de respeito ao ex-combatente. No fundo, temos a capacidade de olhar para eles todos como vítimas do tempo em que viveram. Acho estranho que não se tenha feito exactamente o mesmo com Marcelino da Mata quando ele morreu”, diz.
O factor da cor da pele do militar mais condecorado da história de Portugal fica bem patente num dos capítulos do livro. A 18 de Maio de 1975, numa ofensiva contra “perigosos fascistas”, Marcelino foi submetido a tortura no Regimento de Artilharia de Lisboa (RALIS). Aquilo que começou por ser um interrogatório acerca do alegado envolvimento no Exército de Libertação de Portugal (ELP) não demorou a descambar em sucessivos espancamentos. Depois de ouvir o tenente-coronel Leal de Almeida, a quem teria presenciado momentos de fraqueza na Guiné-Bissau, dizer “que os pretos só falavam quando levavam porrada e eram torturados”, foi agredido nas costas com uma cadeira de ferro e o cinturão de outro dos interrogadores, todos ligados ao partido de extrema-esquerda MRPP, bem como choques eléctricos nos genitais, nariz e ouvidos. Levado para Caxias, onde ficou detido 150 dias, descobriu ter fracturado duas costelas e a coluna, num relato confirmado pelo Relatório da Comissão de Averiguação de Violências sobre Presos Sujeitos às Autoridades Militares, nomeada pelo Conselho da Revolução.
Só mais um retalho da vida de alguém que, segundo o autor do livro, “quebrava todos os estereótipos e a arrumação política que se fez depois do 25 de Abril”.
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