Duas ou três coisas sobre África: riqueza, cultura e poder

Centro logístico e comercial na Tanzânia (foto de Herman Emmanuel, Xinhua)

Ainda hoje, há formalmente territórios europeus em águas africanas

 

Basil Davidson: “A História é uma viagem. Ao explorarem o passado, os historiadores procuram as razões pelas quais o Mundo chegou ao que é agora”. “A filosofia política ocupa-se principalmente de como os homens devem viver e que forma de governo devem ter, mais do que saber quais são os seus hábitos políticos e as suas instituições”. (B. Davidson, À descoberta do passado de África, tradução de José Maia Alexandre para Sá da Costa Editora, do original de 1978, Lisboa, Luanda, 1981).

Pathé Diagne: “A oposição entre idealismo e materialismo é uma alienação própria do pensamento europeu, da mesma maneira que a angústia da morte ou a fatalidade divina. Estes conceitos não traduzem necessariamente as preocupações do asiático ou do negro africano” (P. Diagne, “Renascimento e Problemas Culturais em África”, em Meyer Fortes e Edward Evans-Pritchard, African Political Systems, 1940, traduzido por Teresa Brandão para Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1981).

Xi Jinping: “A consciência política persiste ao aumentar a perspicácia e a capacidade de distinção; manter a lucidez e determinação política, aumentar o estudo e pensar com critérios políticos são nossos deveres” (Xi Jin Ping, extratos do discurso, em 29 de janeiro de 2016, ao Birô Político do Comitê Central do Partido Comunista da China, em Palavras-chave para conhecer a China, edição bilíngue, FGV Editora, RJ, 2019).

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Nos próximos 50 anos a África, provavelmente, se transformará no continente mais populoso do planeta. Este fato provocará, por si só, imensa transformação no poder mundial. O continente, que abriga povos árabes e descendentes dos primeiros homens na Terra, necessitará muito mais energia e áreas cultiváveis do que hoje. E, para que isso seja satisfatório, os africanos se libertarão dos resíduos coloniais europeus e de seus sucessores estadunidenses. Esta deverá ser a nova realidade geopolítica: a emergência africana.

Do ponto de vista organizacional, as instituições, comuns aos sistemas atuais de poder – a financeira-administrativa, a judicial e a militar – terão novas estruturações. Elas possivelmente estarão sob a mesma autoridade, parental ou étnica ou política, isto é, pela união que mantenha algum acordo para o exercício do poder.

Meyer e Evans-Pritchard, já citados, chamam a atenção para o fator demográfico e o ambiente físico, fatores territoriais que condicionam a ordem econômica e os modos de vida. No correr deste artigo submeteremos alguns elementos da geografia, da história e da contemporaneidade africana, com os adequados confrontos, à inteligência dos leitores.

 

África e Brasil – Aspectos geográficos

Nosso País possui muitas identidades com a África, sendo aquele continente quase quatro vezes maior do que o Brasil. Temos 8.514.876 km²; a África, com as ilhas oceânicas, 31.440.319 km². Se constituímos um único país, no espaço africano se encontram 55 Estados, continentais e insulares.

A África Continental é dividida por faixa de 5.400 km de extensão por 500 a 700 km de largura, próxima ao Trópico de Câncer, atravessando 16 países: o Sahel.

Acima, também tocando o Sahel, encontra-se o Deserto de Saara, com 9.200.000 km², verdadeiro divisor de duas Áfricas. Atravessando o Deserto e ao seu norte tem-se oito países, com maioria da população de língua árabe e religião islâmica: Argélia, Egito, Líbia, Marrocos, Mauritânia, Saara Ocidental, Sudão e Tunísia, congregando quase nove milhões de km².

Ao sul do Saara está a África Subsaariana, ou Sul saariana, com 47 países e 22 milhões de km². É dessa África Subsaariana que vieram os povos que fizeram do Brasil o país miscigenado, em termos de mistura de etnias e de culturas. Portanto, conhecer a África faz parte do conhecimento do próprio Brasil.

Na África do Norte encontram-se cerca de 262 milhões de pessoas, conforme as estimativas oficiais dos países para 2022. Considerando que se estima em 930 milhões a população do continente, na África Subsaariana têm-se 668 milhões de habitantes, que se comparariam com os 207,8 milhões, da estimativa do IBGE, para o mesmo ano, no Brasil.

Os minerais existentes na Terra são classificados em três grupos: os energéticos, os metálicos e os não metálicos. A civilização humana precisa de todos eles para sua existência e conforto.

Na África estão 25% das reservas mundiais de urânio. Esse material é de fundamental importância para a produção de energia nuclear. Os maiores produtores são a África do Sul e o Gabão. A África do Sul também possui grandes reservas de antimônio, diamante, ouro (maior produtor mundial), manganês, platina, cromo, carvão mineral, ilmenita, rutilo, zircônio, terras raras, entre outros minerais.

Dentre os países da África Subsaariana que detém importantes reservas mundiais de minerais estão: Zâmbia (cobre), Zimbábue (ouro e lítio), Guiné (bauxita e ferro), Gabão (manganês, petróleo e ferro), Namíbia (urânio), Uganda (cobre e cobalto), Sudão (ouro, prata, zinco, ferro), Gana (diamante) e Moçambique (carvão mineral).

O Congo, 4° maior país da África, é conhecido no meio científico como “aberração geológica”. Por ter “absolutamente tudo” no que se refere a riquezas minerais dentro de seu território, disse o diplomata André Luiz Azevedo dos Santos durante sabatina no Senado brasileiro. E, acrescentou: “Além de lítio e cobalto, lá tem terras raras, ouro e diamantes em quantidades admiráveis, além de minério de ferro, que é mais comum. Mas acima de tudo eles têm urânio e metais nobres e raros, fundamentais no mundo de hoje no que se refere à produção de energia elétrica, medicina nuclear e também para questões de segurança.” (Fonte: Agência Senado).

As reservas de petróleo (óleo e gás) na Líbia levaram os Estados Unidos da América (EUA) a inventar pretexto para invadir aquele país da África do Norte. Mas há petróleo em outros países como Nigéria, Angola, Gabão e Guiné Bissau. Os pouco menos de 10% das reservas mundiais de petróleo, apontadas pelas estatísticas internacionais para África, ocultam a falta de investimentos, para manutenção dos preços, como se vê, claramente neste século, na Guiné Bissau.

A riqueza mineral africana, como ocorre com a brasileira, não tem servido para a população dos países onde elas se encontram. É sobretudo uma questão colonizadora que será a seguir tratada.

 

Continentes colonizados

Berço da humanidade, a história da África começa em torno do 8º milênio antes da Era Cristã. Gamal Mokhtar, arqueólogo nascido em Alexandria, em 1918, autor de diversas publicações sobre a história do antigo Egito, na “Introdução Geral”, Volume II, da História Geral da África (“A África Antiga”), trabalho patrocinado pela Unesco, em português pela Editora Ática, divide em quatro zonas geográficas a história do período que vai de 8.000 a.C. a 700 d.C.:

1 – O corredor do Nilo, Egito e Núbia

2 – A zona montanhosa da Etiópia

3 – O Magreb e o interior saariano

4 – O restante da África, incluindo as ilhas oceânicas do Índico

Na explicação do critério para esta narrativa histórica, Mokhtar aponta a diferença das pesquisas arqueológicas, a ordenação dos dados, refletindo o passado dos povos nos limites arbitrários, introduzidos pelos interesses e acordos colonizadores, e estes 9 mil anos “mais de suposições do que de dados”, que resultam em “zonas nebulosas nas quais (os europeus) escondem a evolução da civilização africana”.

Como exemplo, desconhecem-se as densidades populacionais deste passado africano, responsável pelas culturas que mais tarde se diferenciariam. “A originalidade do antigo Egito, em relação a outras áreas da África, talvez resida na alta densidade populacional ao longo das margens do rio Nilo, entre a Primeira Catarata e a porção meridional do Delta, tornando necessário o uso da escrita, para coordenação e sobrevivência dos povos ali fixados.”

Não muito diferente é a História do Brasil e dos primitivos povos que habitaram as Américas, inclusive com teorias de continentes desparecidos, migrações de diversas etnias e até origem autóctone.

O médico e antropólogo alagoano Arthur Ramos (1903–1949), na Introdução à Antropologia Brasileira, volume II, “As culturas indígenas” (Editora da Casa do Estudante do Brasil, RJ, s/data), escreve: “Embora o Homem Americano não seja autóctone e tenha provindo de troncos mongoloides, as suas culturas apresentam características tão afastadas das culturas asiáticas que se podem considerar na realidade como autóctones”. E acrescenta: “Suas línguas, sua cultura material, suas instituições foram experiências acumuladas ao sol do Novo Mundo”. Para dar alguma sustentação a esta tese, cita José Imbelloni (1885–1967), italiano que ensinou na Argentina (Universidade de Buenos Aires) e levantou a hipótese de migrações sucessivas, sem, contudo, delimitar uma cronologia.

Tornou-se fundamental, para a apropriação europeia das riquezas africanas e americanas, retirar as bases das suas identidades culturais, tanto dos povos africanos quanto dos americanos. A exceção está nos EUA, que se transformaram num europeu colonizador, com os mesmos espíritos supremacistas e bélicos, associando-se na pilhagem globalizada.

Se restasse qualquer dúvida desta colonização profunda, que não admitisse qualquer libertação, os idiomas falados na África e nas Américas são europeus, e o falar faz parte do pensar.

O líder político beninense Albert Tévoédjrè (1929–2019) inicia seu livro L’Áfrique Révoltée (Presénce Africaine, Paris, 1958) com a seguinte estrofe de balada de autor desconhecido:

“Si tu es blanc, tu es parfait,

Si tu es métis, on pourrait te supporter,

Mais si tu es noir, va-t-en! va-t-en!”

Em tradução livre:

“Se você é branco, você é perfeito,

Se você é mestiço, podemos aguentá-lo,

Mas se você é negro, volte! vá embora!”.

A África teve mais cedo a presença europeia, quando o Mar Mediterrâneo se transformou, com a destruição de Cartago, no “mare nostrum” romano. Porém foi na transição da Idade Média para a Moderna, com o fim daquele sistema econômico e a adoção do capitalismo (séculos 14/15), que a África e, logo a seguir, a América caíram sob domínio dos impérios europeus e assim se mantiveram até o século 20.

Em 1911 e 1912, com a partilha franco-espanhola do Marrocos e, quase simultaneamente, a anexação da Líbia pela Itália, restou apenas a Etiópia como nação não ocupada pelas europeias, na África.

Ainda hoje, século 21, as Ilhas Canárias (Espanha), Tristão da Cunha (Reino Unido), Açores (Portugal) são formalmente territórios europeus em águas africanas. O mesmo ocorre nas Américas e, especialmente, no Caribe, onde Reino Unido, Países Baixos e França têm territórios.

No próximo artigo serão tratadas as contemporaneidades africana e brasileira e os movimentos para as efetivas independências, ou seja, para a soberania dos Estados Nacionais na África e do Brasil.

 

Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado, ex-professor universitário e membro do Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra (ESG), atualmente é presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet).

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