Chegada da Covid-19
Durante a pandemia, Judith optou por ficar em Cabo Verde. Ambos aproveitaram para criar uma maior ligação com as famílias que normalmente acolhem os turistas. Apostaram também nos passeios e tours com turistas nacionais. “Criamos uma conexão muito forte com as famílias nessa época”. Visitavam regularmente o Bitori Nha Bibinha. “Até fizemos aulas de gaita com ele”, recorda Judith.
“Queremos promover o turismo mais sustentável onde o povo sai a ganhar. Queremos mostrar às pessoas a cultura, a morabeza e a realidade de Cabo Verde”, explica Jair Se-medo, de 28 anos, que cresceu nas Aldeias SOS. Uma das ambições do Terra Terra Tours é também criar oportunidades de emprego para os jovens das comunidades rurais e das Aldeias SOS.
Habitualmente trabalham com cinco famílias do interior de Santiago estando as mesmas localizadas em São Jorge (Longueira), no Tarrafal, Porto Rincão, Ribeira da Prata, “Pico Riba” (São Salvador do Mundo) e Ribeira Principal. “Estas são as principais famílias onde levamos as pessoas. Almoçamos, jantamos juntos (…) Quando fazemos um tour cerca de 70 por cento (do montante pago) vai para os locais”, explica Judith e explica que alguns tours têm de ter um número mínimo de pessoas.
A retoma aconteceu gradualmente em 2022, segundo conta o casal que quer “ajudar as famílias a realizar os seus sonhos”. Seguiu-se então a mudança do casal da Fazenda para Lém-Ferreira, onde tinham dois quartos para receber turistas.
“O nosso modelo de turismo é muito intimista. Às vezes temos turistas que ficam uma semana connosco e nós mostramos um pouco de cada sítio (…) Cada pessoa que faz um tour até hoje mantemos como contacto. É como se fosse uma família”. diz Judith.
Atualmente, com o aumento da família, tiveram uma filha em dezembro de 2022, já não recebem pessoas em casa e passaram a trabalhar com espaços Bed & Breakfast, até porque a atual moradia no Palmarejo não oferece muita privacidade aos turistas.
Durante a ausência de Judith que foi para a Holanda para o nascimento da filha, o Terra Terra Tours continuou no ativo em parceria com outros cabo-verdianos, é o caso de Gelson Monteiro e Cláudia Santos.
Segundo Judith, o casal tem apostado na sensibilização das famílias que recebem visitantes para a comida vegana (dieta que exclui qualquer alimento de origem animal) ou vegetariana. “Temos muitas famílias que só comem comida vegetariana”, dizem e segundo o casal esta é uma forma de apostar nos produtos locais produzidos na terra.
Filhos de cabo-verdianos querem conhecer terra dos pais
Normalmente são contactados online nas redes sociais e via o website da Terra Terra Tours. Entre os que mais procuram os seus serviços estão filhos de cabo-verdianos nascidos na Holanda, mas também em França, Alemanha e Suíça. “Por a Judith ser holandesa as pessoas sentem mais confiança por ela falar a língua deles. É uma vantagem grande principalmente para a diáspora”, diz Jair.
Muitos dos visitantes acabam por voltar, afirma Judith e acrescenta que estes aprendem muito com Cabo Verde. “Não é só a morabeza, as pessoas de Cabo Verde são muito especiais (…) com o Terra Terra queremos mostrar às pessoas o básico da vida (…) Cabo Verde ensinou-me muitas coisas”.
Muitos visitantes ficam surpreendidos com os recantos da cidade e da ilha de Santiago, diz o casal, mesmo tratando-se de cabo-verdianos que residem na capital. “Há pessoas que não se deslocam para outros bairros e não conhecem a sua cidade”, dizem e citam que há santiaguenses e praienses que, infelizmente, não conhecem o mar. “A ilha de Santiago é forte e cheia de história”, complementa Jair.
Perspetivas futuras
Para esta época de verão, a ambição é fazer um tour por semana bem como um tour por més com grupos grandes. Jair e Judith querem investir numa viatura e fazer a carta con-dução para fazer as excursões de forma independente.
Além de apostar no transporte próprio, Judith diz que gostariam de incentivar o emprego jovem, bem como criar maior conexão com África.
Quando se conheceram Jair ainda não conhecia as outras ilhas, agora conhece sete, diz Judith que aconselha os jovens cabo-verdianos a conhecer mais o seu país antes de viajar para o estrangeiro bem como a viajar para o continente africano antes de ir para os destinos mais populares entre os cabo-verdianos. “Toda a gente vai para a Europa e a América”, lamenta.
Mas tudo é ‘na passo baca’, segundo Judith, que aprendeu em Cabo Verde a fazer as coisas de forma mais devagar. “Às vezes as coisas levam tempo. Quando fazes as coisas devagar, com amor, sai melhor. Vim viver cá para viver o dia a dia para saber o que é estar viva, ao contrário do que acontece na Europa”, afirma a holandesa.
Apesar de reconhecer o potencial turístico de Cabo Verde, Jair diz que há muitas coisas que precisam ser melhoradas no país. O acesso aos cuidados de saúde, a irregularidade nos transportes marítimos e os preços das passagens aéreas são algumas das principais queixas dos turistas, explica.
“Os maiores investimentos no turismo também são de estrangeiros já que os nacionais não conseguem fazer de igual forma”, lamentar Jair.
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