Djô da Silva desvaloriza declarações de Paulino Vieira e contrapõe que a música de Cabo Verde está de “boa saúde e melhor do que antes”
Instado a comentar as recentes declarações do músico e multi-instrumentista cabo-verdiano, Paulino Vieira, a propósito do estado atual da música em Cabo Verde, o dire-tor artístico e produtor da Harmonia, José (Djô) da Silva, apesar de reconhecer o talento do artista, argumenta que Paulino Vieira “ficou bloqueado no tempo” e que basta ir aos números para ver que a música cabo-verdiana está de boa saúde.
Recentemente, o músico Paulino Vieira afirmou que o sucesso de Cesária condenou a música de Cabo Verde ao extermínio. Poderia comentar?
– Eu devolvo a pergunta: Acredita que a nossa música foi condenada ao extermínio?
Não estou aqui para opinar sobre isso…
– Mas é jornalista e tem direito a opinar. Alguém diz uma banalidade e vocês jornalistas aceitam? Essa afirmação não tem resposta. Aliás a resposta é só ver os resultados do nosso trabalho. (…) A Cesária arrancou a carreira comigo em 1987, consideramos que o comboio arrancou nesse ano, e o Paulino subiu neste comboio em 1990. Ele desceu do comboio em 1996. Porquê? Porque eu o fiz descer do comboio e há razões para tal. Quando ele quiser poderá falar sobre isso, ele sabe quais são as razões.
Na sua entrevista à Lusa, Paulino Vieira diz que a música de Cabo Verde ficou reduzida à morna. Não partilha desta visão, portanto?
– Basta eu apanhar o meu catálogo para se ver quantas músicas e quantos artistas produzi, por isso que eu digo, enquanto jornalista é só pesquisar que vocês vão ver que não há nexo (no que disse o Paulino). É uma pessoa que fala à toa. Então a Lura não existe? A Elida Almeida não existe? O (grupo) Bulimundo não existe? E os novos músicos de hoje em dia? Para mim, o Paulino está ultrapassado.
Quando fala de outros artistas refere-se também aos que estão fora da Harmonia & Lusáfrica …
– Claro, o Khaly, e não sei quantos músicos bons da nova geração. Todos se focaram (agora) no Paulino. A música em Cabo Verde, então é o Paulino? E os outros não existem? Todos os dias há artistas a fazer sucesso com a música de Cabo Verde pelo mundo. A Mayra, então, não existe?
A música de Cabo Verde continua de boa saúde?
– De boa saúde e melhor do que antes. Não passa uma semana sem que um artista cabo-verdiano não esteja a atuar num palco qualquer no mundo, sem que a música de Cabo Verde não esteja a tocar numa rádio no mundo. Quer dizer é preciso ser amnésico para esquecer tudo isso. É só ir no Spotify e ver quantos milhões de pessoas estão a ouvir a música cabo-verdiana todos os dias. Hoje em dia estamos num outro mundo que ele (Paulino) não conhece, os números estão disponíveis, eu não preciso falar sobre isso, é só ver os números.
Então, acredita que o Paulino Vieira foi ultrapassado e tem uma visão que não corresponde ao panorama real?
– Completamente. É um bom músico, todos reconhecem, mas não conhece como o sis-tema mundial da música funciona. Ele ficou bloqueado no tempo do Bana e de outros que não existem mais …
Estas portas para o mundo foram abertas pela Cesária?
– Claro que foi a Cesária, todos estes artistas o reconhecem, todos eles sabem disso. Onde quer que vão, eles são recebidos porque a Cesária já lá passou. E não é só a Cesária, mundialmente a música da Jamaica é reconhecida por causa de quem? Do Bob Marley, ele abriu as portas e depois entraram vários artistas jamaicanos. Com os senegaleses foi igual. O Youssou N’Dour abriu as portas e depois entraram muitos artistas. E nós em Cabo Verde somos diferentes, é? É tudo igual, o sistema é igual para todos. Muitos co-mentam sem saber de nada, não sabem como as coisas funcionam …
Esta entrevista dividiu as opiniões com uns a defender que de facto esta grande produtora focou-se apenas na Cesária …
– São pessoas que não procuram saber mais. No início, tinha de ser a Cesária, mas depois da Cesária vieram muitos artistas. Tenho 270 álbuns gravados, mais de metade é de artistas cabo-verdianos (…),
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