Campeonato do Mundo em Portugal? Ver o copo meio cheio ou meio vazio… – Escrevem os Leitores





No dia 4 de outubro ficamos a conhecer que seis países vão acolher o Campeonato Mundial de Futebol Masculino em 2030. À frente das bandeiras da Argentina, Paraguai, Uruguai, Marrocos, de Espanha e Portugal, Gianni Infantino, explicou os planos da FIFA para comemorar os 100 anos do megaevento. Uma decisão inusitada que levanta o véu a várias questões, como por exemplo: Foi cumprido o objetivo da candidatura conjunta de Espanha e Portugal? A decisão satisfaz os interesses de todos os candidatos? Estamos todos de acordo com a decisão da FIFA? Devo lembrar que a candidatura de Portugal e Espanha foi anunciada pela primeira vez pelas federações nacionais em 7 de outubro de 2020. Depois, a Ucrânia juntou-se ao processo em 5 de outubro de 2022 e, mais recentemente, Marrocos aderiu a este acordo de múltiplas cidades-sede em 14 de março de 2023. Tendo fracassado no processo de candidatura às edições de 2018 e 2022 dos Campeonatos do Mundo da FIFA, Espanha e Portugal tinham como objetivo propor uma candidatura transcontinental como forma de projetar uma mensagem de unidade, solidariedade e união com comunidades de diferentes países.

Considerando esse propósito podemos refletir e aceitar tal decisão. Recentemente, um estudo publicado na Faculdade de Motricidade Humana em parceria com a Universidade de Castilla-la -Mancha, revela que os portugueses e espanhóis aceitam a candidatura conjunta de Portugal e Espanha ao Mundial 2030, mas ignoram ou desprezam a presença da Ucrania e de Marrocos, respetivamente. Será que se trata de medo ou receio por consequências futuras na economia? Ou simplesmente um estado de orgulho nacional?

Somos portugueses e gostamos de honrar os nossos compromissos internacionais, mas não podemos ignorar as nossas limitações infraestruturais, económicas, turísticas e sociais. Está na hora de aceitarmos esta candidatura, apoiá-la e participar nos seus desafios sociais. Se o problema reside na organização do evento, levantando duvidas sobre o papel de Portugal na receção das equipas, acolhimento de finais/semifinais ou até número de infraestruturas envolvidas. Atualmente, não temos capacidade de ambicionar um evento desta dimensão – sozinhos – cujos impactos são profundos na economia, sociedade e ambiente. Embora sejamos um país ambicioso e apaixonado pelo Futebol, não podemos organizar de forma isolada de um Campeonato do Mundo quando não temos instalações desportivas para o efeito (e não precisamos), temos uma capacidade hoteleira limitada (e com alta lotação), uma economia pequena para suportar os custos diretos e, além disso somos um país sem cultura desportiva. Portanto, somos o que somos e temos que aceitar!
Apesar de 3 jogos estarem previstos para a América do Sul, as sedes principais do Mundial são Espanha, Marrocos e Portugal – onde cerca de 101 jogos de futebol vão acontecer. A licitação por acolher os eventos com maior visibilidade já começou, e nós esperamos que a
Federação Portuguesa de Futebol (FPF) esteja na linha da frente. A definição dos espaços públicos e infraestruturas de apoio deve ser articulada com as autarquias locais e envolvendo as associações de moradores locais. Estudos de impacto social, económico e social cabem às Universidades Portuguesas, e a FPF deve estabelecer essas parcerias.

Postos de trabalho serão criados, novos negócios surgirão e o orgulho nacional em torno do evento vai crescer à medida que o evento se aproxima. Cabe à FPF apresentar publicamente o caderno de encargos, criar programas de envolvimento nas populações locais (p.e.

programas escolares, sociais e ambientais), campanhas de consciencialização social (explicando os benefícios e riscos do evento) e participar de debates públicos junto da população portuguesa (debate no canal 11 e noutros canais de televisão). Ouvir os

Portugueses e gerar novos debates em parceria com Espanhóis e Marroquinos deve ser uma iniciativa da FPF – mais diálogo, mais informação e mais sinergias. Não importa se o copo está meio cheio ou meio vazio, mas como se vai encher. Nós, Portugueses, devemos estar unidos na organização deste evento, vamos deixar um legado positivo em Portugal.

Tiago Miguel Ribeiro

Faculdade de Motricidade Humana

Universidade de Lisboa




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