Campeão em 93 volta ao Botafogo e sonha com a Sul-Americana: “Esperança de dias melhores” | botafogo

A conquista do Botafogo da Conmebol 93 completa 30 anos em 2023, e o clube recentemente contratou um dos representantes daquela conquista, o zagueiro André Silva, que atualmente atua na captação de talentos para a base.

Campeão em 93, André Silva voltou ao Botafogo para trabalhar na captação de talentos — Foto: Fred Huber

Autor do último gol de pênalti na final contra o Peñarol, ele relembrou em entrevista ao ge as histórias da conquista de um grupo que ninguém acreditava. Sobre o time do Botafogo que inicia nesta quinta-feira o sonho de reconquistar um título sul-americano, André Silva acredita que é preciso ter uma mentalidade vencedora.

– Além do trabalho da SAF, precisamos de pensamento positivo e de entrar com gana, muita vontade. Fazer como fez a equipe de 93, que era desacreditada. Hoje o cenário é diferente, e tenho esperança de dias melhores para o Botafogo. O clube está voltando aos dias de glória – disse André Silva.

O Botafogo enfrenta o Magallanes nesta quinta-feira, às 21h (de Brasília), no Chile.

Em 1993, Botafogo vence o Peñarol nos pênaltis e é campeão da Conmebol

Confira a entrevista com André Silva:

ge: Qual é o seu cargo hoje no Botafogo e como foi esse reencontro com o clube?

André Silva: É uma alegria estar de volta ao Botafogo depois de 25 anos. Comecei a jogar aqui com 13 anos, em 1983. Saí com 24 anos, formado como homem. Antes da minha saída, tive a alegria de conquistar a América pelo clube, como todos os jornais disseram na época. Hoje estou feliz por voltar e ser um representante daquela equipe.

A grande maioria daquele grupo era de jovens que estavam começando. Pelo momento que o clube passava, talvez muitos não tivessem perspectiva, mas por ser uma época de crise também deu muitas oportunidades para o pessoal da base. Eu era uma dos mais velhos (23), e depois chegaram Suélio, Eliel, Sinval…

Depois que saí do Botafogo, joguei em outros lugares, conheci outros países… E receber o convite para trabalhar no Botafogo na área de captação foi muito especial. Fui treinador depois que parei de jogar, e agora me identifiquei com a captação desde o primeiro dia. Comecei a me ver naqueles meninos que sonham ser jogadores. Quero ver neles o mesmo anseio que eu tinha. O que me trouxe de volta foi o meu histórico, a passagem limpa que eu tive.

Réplica da taça da Conmebol 93, já que a original desapareceu — Foto: Thiago Lima

Você foi um dos jogadores que esteve presente em todas as oito partidas daquela Conmebol 93. Qual era a expectativa do time antes de começar a competição?

Ela aconteceu em um momento chave. Eram tempos ruins, e não tínhamos perspectiva de nada. O time era muito jovem. Jogamos contra equipes mais fortes e experientes. Não fazíamos um bom Brasileiro, e chegou o momento em que nos reunimos e combinamos que tínhamos que dar uma resposta boa para torcida. Eram oito jogos para chegar ao título.

Naquele contexto tinha o Carlos Alberto Torres, um tricampeão mundial, e foi um técnico que abraçou o projeto. Para mim era um sonho, porque quando eu nasci ele conquistou a Copa de 70. Estar com ele era muito importante.

A torcida do Botafogo comprou a ideia na Conmebol desde o início ou foi se empolgando com o passar da competição? Como era o clima nos jogos que foram disputados no Caio Martins?

O Caio Martins estava lotado. O jogo marcante para mim e para a maioria foi contra o Atlético-MG. Tínhamos perdido por 3 a 1 o jogo em Minas, e quando acabou o jogo lá no Mineirão o Carlos Alberto Torres abraçou o Sinval e disse que aquele seria o gol da classificação. Disse que nós venceríamos de 3 a 0 em casa, e assim foi.

Em 1993, melhores momentos de Botafogo 3 x 0 Atlético-MG pela Copa Conmebol

Como era a relação do Carlos Alberto Torres com o elenco no dia a dia? Verdade que ele dava auxílio aos jogadores e chegou até a comprar bolas para treinamentos?

A contratação dele já foi muito interessante. Há pouco tempo tive com o Antônio Rodrigues (vice de futebol) e ele me contou a história. o Emil Pinheiro levou os jogadores e o Botafogo não tinha nada. Surgiu a ideia de contratar o Carlos Alberto, mas não havia dinheiro. Foram até a casa dele e conversaram, explicaram que não tinha dinheiro.

Então, o Carlos Alberto pegou o telefone e armou dois jogos amistosos fora do Brasil, na Martinica e Guadalupe. Não lembro o valor da cota, mas o Botafogo ficou com uma parte e ele ficou com uma outra, que seria o salário dele.

No dia a dia era muito interessante, ele não parecia ser o capitão do tri. Ele era nosso. Qualquer problema ele resolvia. Dava um jeito.

Jogadores do Botafogo erguem a taça da Copa Conmebol de 1993 — Foto: Julio Cesar Guimarães / O Globo

E o esquema tático 4-2-4? Como ele trabalhou isso na prática?

Era um esquema suicida (risos). O Marcelo Carioca jogava como atacante ou meia, tinha muita qualidade. O Eliel e o Sinval eram centroavantes fixos. Não sei o que deu na cabeça do Carlos Alberto. Na véspera da final, tínhamos um treino de finalização, e com dez minutos ele terminou a atividade.

O Perivaldo vai ficar chateado comigo de novo (risos), mas ele cruzou duas bolas por trás do gol, aí o Carlos Alberto resolveu encerrar o treino. Achamos que ele estava brincando, mas ele disse que o treino estava ruim demais e nos mandou para nossas casas. Foi mais uma sacada dele.

Era matar ou morrer. O jogo que fizemos lá no Uruguai foi muito duro. Ele colocou mais um jogador no meio de campo para brigar com os caras.

Homenagem aos campeões de 93 — Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo

Como que foi fazer a dupla de zaga com o Rogério Pinheiro? Se completavam bem?

Foi a competição praticamente toda nós dois juntos. O Rogério era um jogador desde a base muito técnico e corajoso. Jogou em alto nível.

E quais são as memórias mais marcantes da final no Maracanã?

Foi um jogo interessante, porque sabíamos o que encontraríamos no Maracanã: muita catimba e disposição. Eu entrei convicto de fazer um bom jogo. Eu até assisto a esse jogo de vez em quando. Nós começamos bem, mas eles fizeram o gol. Não baixamos a guarda. Depois do empate, deu o alívio e o Maracanã foi enchendo cada vez mais.

No gol de empate, o Eliel e o Sinval discutem, mas ninguém se deu conta disso. Era uma jogada ensaiada, mas o Sinval sai da bola. O Eliel bateu direto e fez. Depois, no gol da virada, eles fizeram a jogada ensaiada na falta e saiu o gol do Sinval depois do desvio no uruguaio. Depois, em uma bola marota já nos acréscimos, o tal do Otero faz o gol. Foi uma ducha de água fria.

E aí, pênaltis… Você foi o reponsável por fazer o último gol. Tornou a conquista ainda mais especial?

Fomos para os pênaltis, e nosso grande artilheiro (Sinval) perdeu a primeira cobrança. Aí você imagina. Sempre me perguntam como foi a caminhada até o pênalti. Não foi tão ruim, mas quando o Sinval perdeu deu uma gelada. Eu tinha que fazer. Fui e terceiro e último.

Tínhamos que dar força para o Sinval, que foi quem nos levou até ali. Quando fui para a bola, não escutei absolutamente nada. Estava já com a meia arriada, com caneleira para fora. Estava com trava alta porque também queria bater nos caras (risos). Tinha apanhado bastante.

Eu estava pronto para fazer a cobrança, repetir o que fazia nos treinos. Eu era o segundo batedor do time, atrás apenas do Sinval, que era muito fominha (risos). Um fator importante foi o William Bacana, nosso goleiro. O titular era o Carlão. O William já tinha fechado o gol no Uruguai, nos salvou. E no Maracanã pegou dois pênaltis, e um foi para fora.

Ainda roubaram a taça… sumiu. Recebemos o troféu no Maracanã e depois ele sumiu. Parece que levaram embora, ninguém sabe. Só tem a réplica agora.

Heróis da Conmebol se juntam aos torcedores do Botafogo contra o Bahia pela Sul-americana

O atual Botafogo inicia nesta quinta a disputa da Sul-Americana. A situação do clube atualmente é outra, existe uma reestruturação em curso. Qual sua expectativa? Acha que o time pode repetir o feito do grupo de 93?

O que eu digo para os torcedores nos grupos que participo é que precisamos ter esperança. Vivi dias ruins, que ficaram para trás. Sempre penso positivo. O que me trouxe de volta ao Botafogo foi essa minha maneira de pensar, além do meu trabalho. Queria ir para um time grande, e calhou de ser o Botafogo.

Além do trabalho da SAF, precisamos deste pensamento positivo e de entrar com gana, muita vontade. Fazer como fez a equipe de 93, que era desacreditada. Hoje o cenário é diferente, e tenho esperança de dias melhores para o Botafogo. O clube está voltando aos dias de glória. Quando comecei, tínhamos convites para a Europa. Agora estamos resgatando o verdadeiro Botafogo. Acredito muito no trabalho do Castro e nesses jogadores.

Jornal O Globo sobre a conquista do Botafogo em 93 — Foto: Reprodução

A campanha vitoriosa do Botafogo em 1993

  • Botafogo 3 x 1 Bragantino – estádio Caio Martins
  • Bragantino 2 x 3 Bragantino – estádio Marcelo Stefani
  • Caracas 0 x 1 Botafogo – estádio Brígido Iriarte
  • Botafogo 3 x 0 Caracas – estádio Caio Martins
  • Atlético-MG 3 x 1 Botafogo – estádio Mineirão
  • Botafogo 3 x 0 Atlético-MG – estádio Caio Martins
  • Peñarol 1 x 1 Botafogo – estádio Centenário
  • Botafogo 2 x 2 Peñarol – Maracanã

O time da final:

Botafogo: William Bacana, Perivaldo, André Silva, Cláudio Henrique e Clei (Eliomar); Nelson, Suélio e Eliel, Aléssio (Marcos Paulo), Sinval e Marcelo Costa. Técnico: Carlos Alberto Torres

Gols do Botafogo: Sinval e Eliel

Nos pênaltis: Sinval perdeu; Suélio, Perivaldo e André Silva marcaram gol.

Jornal O Globo da época destaca a conquista do Botafogo da Taça Conmebol — Foto: Reprodução

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