Cabo Delgado: Porque a Total investiu em Moçambique? | Moçambique | DW

A galinha dos ovos de ouro foi-se embora de Cabo Delgado sem dar certezas sobre o seu retorno. Agora, o Governo, que apostou tudo nela para sair da bancarrota e até para começar a sonhar, está na corda bamba. Maputo relativiza a retirada temporária da petrolífera francesa Total, confiante no seu regresso, afinal as reservas infindáveis de gás do norte são um chamariz irresistível.

Para o especialista em assuntos africanos Fernando Cardoso, “este investimento que a Total faz em Moçambique é mais por decisão política do Governo francês em querer assegurar fontes de aprovisionamento de uma zona considerada segura, porque a França tem uma base naval em Mayote, a 500 km de Pemba e Palma. Tem unidades militares ao longo do canal de Moçambique e tem várias ilhas da qual é proprietária”.

Porém, “o essencial das suas forças militares, a chamada legião estrangeira, [está] consumida pelas guerras no Sahel e preocupada com o que se passa no mar Vermelho, no mar de Acaba e com o trânsito exatamente, e é por isso que o essencial dos franceses está no Djibuti. A mesma coisa se passa com os americanos”, explica Cardoso.  

O investigador português repisa: “Na verdade, não é fazer uma especulação dizermos que a decisão da Total de uma decisão final de investimento em Afungi foi uma decisão do Governo. É uma decisão por motivos políticos, por motivos geoeconómicos e não exatamente por motivos de ‘businesses’ propriamente ditos”.

Para fundamentar a sua análise, compara: “Se não a decisão final de investimento seria a mesma que a da Exxon Mobil, que é ‘vamos esperar para ver’, que a economia mundial retome e volte a um aumento do consumo de energias, particularmente de combustíveis fósseis”.

Campo de gás natural liquefeito da Total em Afungi, Cabo Delgado

Depender de inconstâncias?

Ou seja, mais uma vez Maputo depende de uma variável instável com todos os seus riscos, nomeadamente o de ter de lidar permanentemente com um parceiro com um pé em Cabo Delgado e outro fora, pronto para sair mediante uma ameaça como o terrorismo ou mudança de interesses.

Para a ativista política e social Quitéria Guirengane, esta é “claramente uma situação problemática. Cabo Delgado encerra uma série de interesses do grande capital internacional e de uma série de Estados em relação não só aos recursos, mas também interesses políticos e geoestratégicos”. 

Deve um Estado soberano e em busca de desenvolvimento apostar o seu “Ás” em jogadas tão arriscadas? Enquanto a resposta não chega, Moçambique está condenado a viver com medo de ver a galinha dos ovos de ouro transferir ganhos de Cabo Delgado para o seu quintal do Índico, como aventa a moçambicana Guirengane: “Estamos a dizer que a França tem as suas ilhas na região. E isto tudo faz com que até haja debate sobre uma possível mudança da base logística para o território francês.”

Tudo devido ao terrorismo que só é uma ameaça para Moçambique há pouco mais de três anos, enquanto que para as potências mundiais como os EUA e a França é uma realidade de barbas brancas, tanto nos seus territórios, como para outros de sua influência ou interesse.

Mas Quitéria Guirengane também mostra o outro lado da moeda: “Por exemplo, se olharmos para a França e EUA, que sempre quiseram criar a sua base de Nacala, estamos a dizer que, apesar da Total falar em suspensão, a Air France nos últimos tempos aumentou o número de voos para Maputo”.

Afrika Mosambik Quitéria Guirengane, Aktivistin

Quitéria Guirengane, ativista política e social

É em África que os terroristas vão derrotar o ocidente?

Diz-se que, quando os elefantes lutam, o capim é que paga, um provérbio que se pode aplicar a Moçambique se considerarmos a abordagem “extensionista” da ativista política Quitéria Guirengane.

“É preciso olhar que houve até algumas abordagens segundo as quais o ISIS [Estado Islâmico] disse que o campo no qual vão derrotar o ocidente, referindo aos EUA, seria África”, lembra. 

Guirengane recomenda: “Isto não pode ser olhado de ânimo leve, mas pode ser uma analogia de que se está a preparar Cabo Delgado, Moçambique e a região como campo de disputa para a resolução de interesses que não foram suficientemente resolvidos na Síria ou no Iraque. Então, isto vem resvalar para países como Moçambique, um conflito que não é necessariamente apenas de Moçambique.”

E como o mel não vem só… Cabe agora a Moçambique a pior parte: espantar as moscas sem meios enquanto o mel ameaça fugir-lhe da boca.


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