AIMÉ CÉSAIRE: IMAGENS ONÍRICAS DE UMA TRAGÉDIA

Existe um interesse crescente do mercado editorial pela produção de autores negros. Agora encontramos os textos de Lélia Gonzalez reunidos em uma antologia de seu pensamento, assim como textos de revolucionários africanos. Também temos acesso à pesquisa de Neusa de Sousa Santos sobre os efeitos psíquicos da ascensão de classe em pessoas negras, um texto esgotado há décadas. O ensaio de Frantz Fanon, Pele Negra, Máscaras Brancas, recusado pela academia francesa, agora conta com duas edições brasileiras.

Encontrei uma edição de 2022 da peça Uma Temporada no Congo, escrita pelo autor martinicano Aimé Césaire em 1966, em parceria com Jean-Marie Serreau (que também dirigiu a primeira montagem, em 1967). Ao final do livro, uma nota da Temporal Editora anuncia a publicação de outras peças do autor, e assim teremos toda a obra dramatúrgica de Césaire publicada no Brasil.

Discurso Sobre o Colonialismo é um encontro com ideais radicais sobre a prática e os efeitos da colonização. A proposta de Césaire era produzir uma crítica do colonialismo demonstrando como a Europa iluminada, autodeterminada civilizada, compactuava com a violência produzida na África. O autor inclui depoimentos, publicados em grandes veículos de imprensa franceses no século 19, de generais que descrevem os horrores cometidos nos empreendimentos coloniais. Comentários não permeados de horror, mas de prazer: um gozo pelo odor do sangue, pelos campos de cadáveres.

A violência é uma marca da produção de Césaire e é tema recorrente na produção surrealista, como a historiadora e crítica de arte Rosalind Krauss lembra: “A maioria das ficções provocadas e sustentadas pela escultura surrealista é de natureza ligeiramente pornográfica e sádica”. Listando artistas e obras, ela aponta “a série de Hans Bellmer de bonecas dos anos 30”, reconhecidas por uma manipulação de símbolos fálicos e sexuais, aliados ao corpo feminino mutilado. Essa ambiguidade da violência produtora de gozo, que parece ser restrita ao inconsciente, é parte do cotidiano colonial – gozo do colonizador e sofrimento do colonizado – e aparece com certa naturalidade na narrativa histórica.

A leitura de Césaire sobre o colonialismo me motivou a estudar suas implicações e a entender como se deu o vínculo orgânico entre o desenvolvimento das vanguardas artísticas do século 20 e seu contexto histórico. Foi sempre explícito como as experiências do inconsciente, deliciando-se em uma narrativa primitivista, tomavam os povos não europeus como fetiche: com os cubistas e os museus etnográficos franceses, os surrealistas e um colecionismo escuso de máscaras, ferramentas e outras produções saqueadas.

André Breton, grande poeta surrealista, mantinha uma volumosa coleção de arte indígena de América, Oceania e África. Certa vez, em entrevista ao artista brasileiro Flávio de Carvalho, declarou interesse pela arte de negros, crianças, loucos e modernos, por carregarem uma atitude liberta de censura (tendo em mente sua equivalência com “civilização”). Breton classificou Aimé Césaire como um dos maiores poetas surrealistas e prefaciou a edição francesa de seu Diário do Retorno ao País Natal.

Césaire reconhecia a influência que o surrealismo teve sobre si. Em 1939, Breton foi à Martinica, em trânsito para os Estados Unidos, onde fixou moradia por um tempo. Na ilha caribenha encontrou em uma mercearia a revista Tropiques, editada por Aimé e sua esposa Suzanne Césaire. Breton percebeu naqueles poetas martinicanos uma radicalidade desafiadora da linguagem, assim como um refinamento e uma perspectiva política transgressora.

UMA TEMPORADA NO CONGO
A peça foi escrita em francês, língua imposta à população da Martinica pela colonização francesa. Ao longo do texto, o autor escreve algumas palavras em línguas regionais, como o suaíli, seguido de uma tradução francesa desses trechos.

Expondo eventos que se desenvolvem ao longo de um ano, iniciando-se na temporada das chuvas à qual o título da peça faz referência, a história narra a ascensão de Patrice Lumumba a primeiro-ministro da República Democrática do Congo (RDC) e sua trágica trajetória, que culminou em seu assassinato por mercenários, depois que Mokutu, um de seus generais de confiança, entrega a seus inimigos.

A personagem Mokutu faz alusão à figura histórica de Joseph-Désiré Mobutu, que destituiu Patrice Lumumba do governo da RDC com um golpe de Estado apoiado pela Bélgica, pelos Estados Unidos e outras nações. Como apontado por Kabengele Munanga no posfácio, o primeiro-ministro foi morto por Moïse Tshombe e Godefroy Munongo, líderes do movimento separatista da província de Catanga, e diz-se que seu corpo foi dissolvido em ácido sulfúrico nas usinas de uma mineradora belga.

Mas quais aspectos do surrealismo poderiam se manifestar em uma peça histórica? Esse gênero não seria marcado por uma fidelidade ao real?

SONHO DE LUMUMBA
O Tocador de kalimba, uma figura cômica que incomoda aqueles que estão contra Lumumba, aparece, em uma cena ou outra, cantando e construindo imagens que carregam uma previsão enigmática. A aproximação de Césaire à História ganha um sentido de construção, de imaginação. Há algo que permanece enigmático, como os efeitos desses atos revolucionários. As revoluções africanas surgem hoje como experiências de sucesso, insurreições de povos oprimidos contra o colonialismo.

Ao fim da primeira cena do segundo ato, o Tocador de kalimba canta o seguinte poema: Pólen de fogo/ ébrio tempo de semeaduras/ passarinho que vai e vem/ esquecido passarinho/ do grude e da zarabatana/ que avoado, diz a armadilha/ o pássaro se esqueceu da armadilha/ a armadilha se lembra do pássaro. Lumumba é, várias vezes, referido como um grou coroado e colocado no alto, por sobre todos, como um líder. Em um momento da peça, Lumumba tem um pesadelo no qual é perseguido por seus inimigos: “Ah! Esse sonho! Eu estava sendo atacado de todos os lados por aves de rapina e me defendia com grandes gestos alucinados! Foi assustador!” A vida onírica retém seu mistério – ao menos para as personagens, que não anteveem a traição e o golpe de Estado. A luta contra as aves de rapina é uma experiência que pode trazer sabedoria, que deve ser mantida na memória, mas não é compreensível ainda. Em seu sobrevoo, o pássaro pode ser um caçador feroz, mas também uma presa distraída, à vista daqueles que olham para o alto. Por cima de todos, o pássaro pode parecer autônomo, apartado do movimento das lutas e das urgências políticas.

Vale lembrar a que tudo isso se refere: a tentativa revolucionária de africanizar a administração do Congo e construir um Estado socialista. Por isso também é retomada várias vezes a proximidade de Lumumba à URSS, onde vai buscar apoio depois de encarar as omissões da ONU diante das ameaças de seus detratores. Gosto de lembrar a definição de Alain Badiou para o comunismo, quando questionado sobre por que continua a insistir sobre uma ideia morta. Para o filósofo francês, o comunismo é uma utopia que deve permanecer como uma ideia a ser perseguida, incitando o movimento. É como um sonho a ser realizado.


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