África à procura de soluções para escrever a sua própria história

A história de África tem sido escrita por outros. Nós precisamos de ter os nossos problemas e soluções e escrever a nossa história”, disse certa vez o presidente do Ruanda Paul Kagame – e que ressoa com atualidade, tendo em conta a influência cada vez maior de países como a China, Rússia e Turquia. E é uma frase apropriada para o dia de África, que hoje se assinala. Já se chamou dia da libertação de África ou da liberdade de África. Designações que celebravam a independência dos países em relação aos colonos, mas que, perante a atualidade no continente, do Cairo ao Cabo, de Conacri a Mogadíscio, os africanos não têm muito para festejar.

À crise económica e social trazida pela pandemia da covid-19 anuncia-se outra, na sequência da invasão da Ucrânia pela Rússia, em especial o aumento dos preços de bens essenciais, pondo em risco a segurança alimentar de milhões de pessoas. No meio de instabilidade e de uma história de golpes militares recentes, houve eleições adiadas. Outros sufrágios importantes estão na agenda da África subsaariana, enquanto a norte os ventos democráticos teimam em não soprar.

Na Tunísia, em julho do ano passado o presidente Kais Saied declarou o estado de emergência, demitiu o primeiro-ministro e suspendeu o parlamento, no que foi visto como uma tomada de poder e o primeiro passo para um retrocesso democrático. Saied, que classifica a classe política de corrupta, promete um referendo sobre a reforma constitucional em julho e eleições legislativas até ao final do ano. Segundo as sondagens, Saied mantém-se muito popular, mas na mais recente as intenções de voto caíram 19 pontos percentuais.

Entre os 56 territórios e países africanos analisados pela Freedom House só oito são considerados livres. Cabo Verde está no topo, seguido de São Tomé e Príncipe

A vizinha Líbia é outro país adiado. Depois de as eleições presidenciais, marcadas primeiro para dezembro e depois para janeiro, terem sido adiadas, nova crise estalou há dias. O parlamento, que está sediado em Tobruk, nomeara Fathi Bashagha primeiro-ministro em fevereiro, tendo alegado que o mandato do chefe de governo interino, Abdulhamid Dbeibah, tinha terminado. Mas este alegou que só iria passar a pasta depois de novas eleições. No dia 17, Bashagha perdeu a paciência e dirigiu-se a Trípoli para tomar o governo à força. Depois de um tiroteio entre as diferentes fações, Bashagha acabou por se retirar. Mas o imbróglio está para durar. “É provável que este seja apenas o primeiro ato”, comentou à AFP Anas El Gomati, diretor do think tank líbio Sadeq Institute.

A sul da Líbia, o Chade vive num regime hereditário em alegada transição. O regime autoritário de Idriss Déby ia para um sexto mandato em maio do ano passado, mas o líder morreu no dia seguinte ao anúncio do resultado das eleições. O seu filho Mahamat Idriss Déby tomou de imediato as rédeas do poder sob a designação de conselho militar transitório. Estão prometidas eleições parlamentares e presidenciais entre julho e setembro, mas a junta militar havia avisado que o período de transição de 18 meses poderia ser renovado por igual período, abrindo caminho à eternização no poder de Idriss Deby filho. O papel dos militares chadianos na região no combate aos grupos islamistas e o apoio de França poderão falar mais alto do que as aspirações da oposição.

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