As movimentações na selva amazônica num território ainda sem nome, mas rico em produtos que interessavam ao mercado internacional da época, pele de animais e a borracha – onde se formaria o Estado do Acre -, começou pelo menos uma década antes do movimento que poria fim ao Império luso/brasileiro e instituiria a República, batizada inicialmente de Estados Unidos do Brasil, que comemora 134 anos nesta quarta-feira (15) de feriado nacional.
A história conta que as incursões dos exploradores do território começou em 1877, 12 anos antes de a República ser instituída, Os primeiros habitantes da região eram os índios, até 1877, quando imigrantes nordestinos arregimentados por seringalistas para trabalhar na extração do látex, devido aos altos preços da borracha no mercado internacional, iniciaram a abertura de seringais.
Proclamação da República é comemorada nesta quarta-feira (15). Foto: Benedito Calixto – 1893/Reprodução
O Acre, como o conhecemos hoje, nem sonhava existir. Era ainda selva em estado puro, habitada por povos indígenas de diversas etnias, cuja região constava dos mapas e da geografia política como parte de “Tierras Non Descobiertas”.
A relação do Império com a Amazônia alcançava no máximo a Cidade do Pará, a atual Belém, e a Vila da Barra do Rio Negro, a atual Manaus, que viria a ser a capital do Amazonas, estado que também não existia e que era parte da Província do Grão Pará nos tempos do Império, mostram documentos do acervo da biblioteca do Senado Federal.
Mas, se a Coroa Portuguesa dava pouca importância à região Amazônica, nações estrangeiras já estavam de olho na exuberância da região e prontas para ocupá-la. Tanto é que, temendo invasões, em 1843, o senador Carneiro Leão (MG) discursou sobre os planos do governo imperial de importar frades capuchinhos da Itália para catequizar indígenas na Floresta Amazônica:
“No Pará, conviria que se fixasse o centro das missões na Cidade do Pará [atual Belém] ou na Vila da Barra do Rio Negro [atual Manaus] e que daí se mudassem esses religiosos [para o interior]”, propôs o senador.
A Floresta Amazônica brasileira, já naquela época, corria o risco de ser invadida pela Inglaterra e pela França. As maiores potências militares da época sonhavam com expandir as colônias da Guiana Inglesa e da Guiana Francesa até as margens do Rio Amazonas, tomando terras do Brasil. Na época, o traçado das fronteiras amazônicas ainda era nebuloso.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos, que já mostravam inclinação ao imperialismo, pressionavam para que a navegação no Rio Amazonas fosse liberada para navios estrangeiros, o que o governo brasileiro não aceitava. Temia-se que os americanos, insatisfeitos, acabassem invadindo a Amazônia. Era preciso então dividir a Província do Pará, cindindo-a de seu gigantismo. Começava a ser gestada a província do Amazonas.
O nome Acre, como o conhecemos, não existia. O que é chamado hoje de Acre seria uma corruptela de como os povos originais das florestas/Reprodução
O governo imperial entendia que a criação da província do Amazonas iria, por um lado, estimular o povoamento dessa parte da Amazônia e, por outro, levar o poder público e as forças de segurança para perto das fronteiras. Na esfera doméstica, pesou na decisão de dividir o Pará, o trauma da Cabanagem, a maior revolta social da história do Brasil, que explodiu em Belém em 1835 e só acabou em 1840, com um saldo estimado de 40 mil mortos, algo em torno de 25% da população da Amazônia na época.
Atribui-se a longa duração da Cabanagem à vastidão territorial do Pará. Grande parte dos insurgentes fugiu para o interior da província, de onde continuou conspirando contra o governo. As autoridades paraenses não dispunham de meios para alcançar os rebeldes embrenhados nos confins da Amazônia.
Na época, o atual Amazonas correspondia à comarca do Rio Negro. Os defensores da emancipação no Senado argumentaram que a comarca, incrustada na floresta, ficava afastada demais da capital do Pará e só deixaria de ser um vazio demográfico e econômico quando passasse a contar com um governo provincial próprio.
Um desses defensores foi o senador Paula Souza (SP), que afirmou: “É certo que a comarca do Rio Negro existe muito longe da capital da província e por isso lhe podem faltar recursos, mormente não havendo ainda navegação por vapor. A comunicação da capital do Pará a esse lugar é demasiadamente retardada. Creio que é de muitos meses”.
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Quando algum colega afirmou que criar instituições provinciais e contratar servidores públicos custaria demais aos cofres imperiais, o senador Saturnino da Costa Pereira (MT) pediu a palavra para rebater o argumento. Ele garantiu que os gastos com a emancipação se pagariam em pouco tempo:
“Quem não semeia não pode colher. Será mais um suprimento que tenha de fazer o Império enquanto as rendas do Rio Negro não crescerem. Portugal avançou grossas capitais para engrandecer e povoar o Brasil, que lhe era totalmente desconhecido. Portugal e nós, seus descendentes, vemos o lucro que apareceu desse avanço de despesas. Sem essa criação nova [a província do Amazonas], perder-se-á para sempre aquele precioso território, para ser habitado por homens selvagens e feras das matas”, propôs.
Mas já havia, embora de forma tímida, a exploração das seringueiras na Amazônia. Aliás, aos portugueses e ao Império se deve a descoberta da hevea brasiliensis na Amazônia. O historiador gaúcho Eduardo Bueno diz que até mesmo o nome popular do vegetal de cuja seiva poder-se-ia fabricar borracha, a seringueira, foi batizada pelos portugueses. A origem do nome está associada à embalagem de injeções, chamada de seringa. Como a borracha daquele vegetal, uma vez manipulada, se assemelhava às seringas, veio o batismo com este nome numa época em que muitas palavras e muitas outras coisas ainda estavam sendo inventadas.
É a partir da criação da Província do Amazonas, recepcionada pelos ideólogos da República como parte do que seria os Estados Unidos do Brasil, que o Acre começa a existir – pelo menos no imaginário daqueles que buscavam novas aventuras e também ainda inventavam palavras. O nome Acre, como o conhecemos, não existia. O que é chamado hoje de Acre seria uma corruptela de como os povos originais das florestas se referiam ao que seria o principal rio da região. O nome, diz a História, surgiu de “Aquiri”, que significa “rio dos jacarés” na língua nativa dos índios Apurinãs, os habitantes originais da região. Os exploradores da região transcreveram o nome do dialeto indígena, dando origem ao nome Acre.
Mesmo já sob uma República, a Amazônia continuou sendo cobiçada por nações estrangeiras. Na época, o destaque era um território praticamente plano, sem grandes áreas alagadas e rico em seringueiras. Por isso, o interesse dos Estados Unidos em alugar, através da Bolívia, o território através do Bolivian Syndicate, uma companhia organizada em Londres em 1901 para estabelecer a colonização boliviana no território do Alto Acre. Foi a última cartada da Bolívia para efetivamente incorporar a seu território a região do Alto Acre, que se tornaria parte do território brasileiro por força do Tratado de Petrópolis e que a República, através do presidente Rodrigues Alves, o 5º mandatário do país após o golpe no império liderado pelos marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Mas isso é outra história.
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