Há uma doença neurológica a intrigar os médicos no Canadá desde pelo menos 2018. Os sintomas podem começar com alterações comportamentais – como ansiedade, depressão e irritabilidade -, a que se juntam depois dores inexplicáveis, muitas delas musculares, e espasmos súbitos em indivíduos até então saudáveis. Os pacientes também relatam dificuldades relacionadas com o sono – insónia grave ou hipersonia – e problemas de memória.
Em muitos casos a doença evolui rapidamente, com queixas mais graves, que incluem dificuldades de linguagem, descoordenação motora, alucinações e declínio cognitivo, num quadro que a muitos conduziu à necessidade de usarem cadeiras de rodas. Vários pacientes apresentam ainda a Síndrome de Capgras, um distúrbio psiquiátrico em que uma pessoa acredita que alguém próximo foi substituído por um impostor.
Os casos têm aparecido na península Acadian e na região de New Brunswick sem que até hoje fosse possível explicar a sua origem. Uma das hipóteses avançada pelos especialistas é a de que exista uma qualquer fonte de contaminação local, mas, numa reviravolta mais ou menos inesperada, a ministra da Saúde de New Brunswick, Dorothy Shephard, anunciou no final de outubro os resultados de um relatório epidemiológico no qual se concluiu não existir qualquer prova significativa quanto a um possível alimento alterado ou exposição ambiental de risco.
Não há sequer certezas quanto ao número de pessoas afetadas. As autoridades de saúde regionais referem 48 doentes mas uma fonte próxima dos processos, citada pelo “Guardian”, adiantou que a suspeita é a de que possam estar em causa mais de 100 casos.
O caso de Roger Ellis
Roger Ellis é um deles. O primeiro sinal da doença surgiu inesperadamente, primeiro com aquilo que parecia um ataque cardíaco e depois uma convulsão no dia em que comemorava 40 anos de casamento. Foi há cerca de dois anos e o seu quadro clínico agravou-se muito rapidamente.
Nas semanas seguintes aos primeiros sintomas, este mecânico industrial reformado, de 64 anos, residente na cidade de Bathurst, New Brunswick, ficou progressivamente mais ansioso, desorientado, e a família começou a perceber alterações no seu discurso – repetia-se com frequência (outros doentes começam a gaguejar).
Acabou hospitalizado. Em três meses perdeu 30 quilos, começou a ser alimentado através de uma sonda, deixou de andar e por mais de uma vez esteve próximo de morrer. Um ano depois, com todas as hipóteses de diagnóstico descartadas – os médicos investigaram como causas epilepsia, derrame, doença de Creutzfeldt-Jakob, encefalite autoimune e cancro -, Roger foi transferido para um asilo, onde se mantém.
Por causa de situações como esta, os familiares dos doentes desesperam. Criticam as autoridades de saúde federais, alegando que estas não demonstram interesse em investigar o problema, exigem mais da ministra da Saúde de New Brunswick, e já antes do relatório por ela mencionado insurgiram-se contra um estudo apresentado à Associação Canadiana de Neuropatologistas, onde oito mortes atribuídas à estranha doença foram considerados casos de “diagnósticos incorretos”. Seriam doentes com Alzheimer e cancro, concluíram os investigadores..
A ideia de que as muitas dezenas de casos podem não ter relação entre si passou a ser aceite entre as próprias instituições de saúde de New Brunswick, o que as famílias das vítimas interpretam como uma vontade de dar o assunto por encerrado, isto depois de ter chegado ao conhecimento público um memorando enviado aos médicos da região em que se alertava para os casos detetados da estranha doença neurológica degenerativa, recomendando-se atenção ao tipo de sintomas.
Doentes são homens e mulheres de várias idades
Do que é possível avaliar, os casos afetam de forma semelhante homens e mulheres com idades que vão dos 18 aos 85 anos.
Luc LeBlanc, de 41 anos, recebeu em março um telefonema do médico de família a informá-lo de que sofria da estranha doença e que estava em fase terminal. Ao canal CBC contou que não se conformou com o diagnóstico e viajou para Toronto para procurar uma segunda opinião. Após três dias de exames num instituto especializado foi-lhe dito que não sofre de doença neurodegenerativa rapidamente progressiva, Os sintomas neurológicos de que sofre estarão provavelmente relacionados com uma concussão sofrida em 2018 e com sequelas da ansiedade com que tem lidado toda a vida.
Os médicos sublinharam que apenas analisaram o caso de LeBlanc mas a conclusão dá força à hipótese dos que acreditam que os diferentes casos não estão relacionados.
Mas, por outro lado, há cada vez mais especialistas a acreditar que os sintomas podem ser explicados pela ação da BMA, uma neurotoxina encontrada nas algas verde-azuladas que proliferam na região. Uma investtigação encontrou altas concentrações de BMAA em lagostas, cuja pesca é um dos sectores económicos de New Brunswick, o que alimenta a especulação de que os esforços para negar a estranha doença tenham uma motivação política.
Certo é que, para os doentes, não há tratamento disponível, apenas é possível tenta aliviar a gravidade da maior parte dos sintomas. Há também a convicção de que a doença é adquirida, não genética.
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