A Copa Libertadores da América é uma espécie de obsessão para todos os clubes do continente. Conquistá-la demanda tempo, suor e até um pouco de sorte, especialmente no formato atual, com cada vez mais clubes de alto escalão. Para quem consegue, a glória. Para quem fica pelo caminho, a vontade de retornar no próximo ano. São só algumas nuances deste patrimônio histórico.
Apesar de mais do maior número de vagas do formato atual, a Libertadores nem sempre foi assim. No início, há 63 anos, a competição mais importante do continente contava apenas com os sete campeões nacionais, um para cada país. A Trivela explica cada detalhe desse torneio fascinante: as fases de dominância, as mudanças no regulamento, os grandes times e o cenário atual, principalmente.
Dos primórdios à primeira Libertadores
Ainda que a Libertadores tenha começado apenas em 1960, a ideia de uma competição com os melhores da América vem desde 1948, quando o chileno Luis Valenzuela teve a ideia e o torneio acabou sendo realizado em Santiago, com vitória do Vasco da Gama, no já eternizado Expresso da Vitória. Foram 11 de luta a partir daí, até que em 1959, um congresso em Caracas determinou a criação da Copa dos Campeões, com apenas o Uruguai votando contra.
Na época, o tamanho do passo foi considerado muito grande para a Confederação Sul-Americana de Futebol (CSF). As federações compactuavam com a ideia de que o continente precisava de uma competição nos formatos da UEFA Champions League, que já estava em vigor na Europa e tinha o Real Madrid, de Di Stéfano e Puskas, hegemônico.
Diferentes nomes
A primeira edição da competição foi disputada no ano seguinte ao congresso em Caracas e contava apenas com os campeões de cada país. O nome inicial, de Copa dos Campeões da América, deixou rapidamente de ser o oficial, já que se tratava apenas de uma cópia do torneio europeu. Cinco anos depois, ela finalmente recebeu a alcunha de Copa Libertadores da América, em homenagem aos líderes do movimento de libertação do continente.
É importante destacar, ainda, que os nomes da Copa Libertadores mudaram novamente a partir de 1997, mas todas as mudanças foram realizadas por conta de patrocinadores. Toyota, Brigdestone e Santander entraram na mistura. Desde 2018, a Conmebol não vendeu o naming rights do torneio, a fim de deixá-lo mais limpo e cômodo ao espectador.
- 1960 a 1964: Copa Campeões da América
- 1965 a 1997: Copa Libertadores da América
- 1998 a 2007: Copa Toyota Libertadores
- 2008 a 2012: Copa Santander Libertadores
- 2013 a 2016: Copa Bridgestone Libertadores
- 2017: Conmebol Libertadores Bridgestone
Número de times aumenta de maneira exponencial
Como mencionado, a primeira Libertadores contava apenas com os campeões de cada país, ou seja, esses sete times: Bahia (BRA), Jorge Wilstermann (BOL), Millonarios (COL), Olimpia (PAR), Peñarol (URU), San Lorenzo (ARG) e Universidad de Chile, todos vencedores de ligas nacionais no ano anterior. A mudança para mais equipes só aconteceu em 1966, quando os vice-campeões também começaram a ser chamados.
A partir desse momento, a Libertadores começou a variar bastante no número de times, entre 17 e 20 equipes presentes na Copa. 1974 foi outro ano importante para os aumentos, consumando o 21 como número mágico até 1997, com exceção do período entre 1986 e 1990, que contava com dois clubes a menos. A variante, contudo, não estava preparada para o próximo salto.
1998 foi a primeira a ganhar a fase prévia, mais conhecida como “Pré-Libertadores”. No formato inicial, quatro equipes se enfrentavam em turno e returno, e os dois melhores se classificavam para a fase de grupos. Os anos 2000 também foram marcados por mudanças e, até 2009, o número de times alternou entre 32 e 38. Apenas 2010 teve 40 clubes, mas a Conmebol mudou novamente para 38 e permaneceu até 2016.
Neste ano, a Conmebol fez sua última grande mudança no formato. A Pré-Libertadores, que teve seu esquema mantido desde a criação, passou a contar com três fases eliminatórias até a chegada da fase de grupos, ou seja, a competição ganhou mais nove equipes. Atualmente, participam o atual campeão, o vencedor da Copa Sul-Americana e os campeão nacionais dos países participantes. As outras equipes classificadas são definidas por meio dos critérios determinados pelas confederações de cada país.
- Brasil – 7 vagas
- Argentina – 6 vagas
- Bolívia – 4 vagas
- Chile – 4 vagas
- Colômbia – 4 vagas
- Equador – 4 vagas
- Paraguai – 4 vagas
- Peru – 4 vagas
- Uruguai – 4 vagas
- Venezuela – 4 vagas
Situação dos mexicanos
Ainda que fosse uma competição focada na América do Sul, a chegada da Toyota, primeiro patrocinador de expressão, aumentou o interesse de clubes, de olho nos valores de premiação e direitos de transmissão. Por isso, a partir de 1998, times mexicanos eram convidados para participarem do torneio. A passagem do México pela Libertadores durou até 2016, quando a Conmebol fez implementações que não foram aceitas pela federação local.

Uma das principais razões pela saída dos clubes mexicanos foram a redistribuição de vagas, no qual o México teria apenas três representantes, contra cinco de Brasil e Argentina, por exemplo. Conciliar os calendários também foi um problema, já que o futebol mexicano funciona de maneira independente à Libertadores, enquanto as outras federações estão sempre pensando em prol do torneio.
Ao longo de quase 20 anos, 18 clubes mexicanos participaram da Libertadores, mas nenhum deles foi campeão. Cruz Azul, Chivas Guadalajara e Tigres foram as equipes que chegaram mais longe, inclusive, até a decisão, mas acabaram vice-campeões para Boca Juniors, Internacional e River Plate. Mesmo que conseguissem o caneco, não teriam direito à vaga no Mundial de Clubes, já que não são filiados à Conmebol.
Guiana, Guiana Francesa e Suriname, embora estejam localizadas na América do Sul, não participam da Libertadores. As equipes destes países porque filiadas à Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf).
Os formatos de disputa
A disputa da Libertadores já foi realizada de maneiras muito diferentes. Nos primeiros dez anos, com exceção de 1966 e 1967, que contavam com apenas dois grupos, a competição foi fechada em grupos onde dois de cada avançavam à semifinal e, a partir daí, se definia o finalista. É importante frisar que o campeão do ano anterior entrava direto na semifinal, ou seja, a chance de repetir a dose era grande.
A partir de 1971, o formato mudou um pouco, com as fases iniciais divididas entre países, onde o melhor avançava para as semifinais. Na última fase antes da decisão, dois grupos de três se formavam, e o mais bem colocado avançava à decisão. Foi assim até 2017, quando a fase de grupos ganhou uma montagem mais parecida com a que conhecemos atualmente. Pouquíssimas mudanças foram realizadas no mata-mata desde então.
Atualmente, a fase preliminar conta com 22 times e apenas quatro se classificam para os grupos. Da letra “A” até o “H”, a Conmebol divide as chaves com quatro participantes: os dois primeiros avançam, o terceiro ganha uma vaga na Sul-Americana e o último sai com as mãos abanando. Vale destacar que não é possível que times do mesmo país estejam no mesmo grupo, a menos que tenham vindo da pré-Libertadores.
São 16 classificados para o mata-mata, com o chaveamento sendo definido por sorteio na sede da Conmebol. Os times de melhor campanha ganham a vantagem de decidir a vaga na próxima fase em casa. Os times vão sendo divididos, até que os dois vencedores de cada lado da chave se encontram na grande decisão.
Formato da final também já foi alterado
Por mais que seja uma decisão, ou seja, dois times se enfrentando pelo título, a final da Libertadores já recebeu algumas mudanças. Nos primeiros anos do torneio, até 1987, as finais eram disputadas em duas partidas, ida e volta, mas o campeão não era definido no agregado. Se cada um vencesse um jogo, um terceiro compromisso era marcado em campo neutro, para confirmar o vencedor.
A partir de 1988, a final passou a ser disputada no formato mais tradicional da Libertadores: em jogos de ida e volta, com o time de melhor campanha tendo a possibilidade de decidir o título em casa. Tal decisão foi amplamente aceita e perdurou até 2019, quando a Conmebol decidiu aderir ao que é visto na Europa: a final única, em campo neutro.

A entidade máxima do futebol sul-americano sofre até hoje com problemas para marcar os jogos, ter praças variadas e disponíveis, mas os jogos compensaram. Todos os anos tiveram emoção até o fim e, curiosamente, terminaram com títulos de brasileiro. O monopólio de Flamengo, campeão em 2019 e 2022, e Palmeiras, vencedor em 2020 e 2021, tem a cara da final única.
As fases dominantes de Brasil, Argentina e Uruguai
Únicos países sul-americanos a conquistarem a Copa do Mundo, Argentina, Brasil e Uruguai dominam totalmente a lista de campeões. Os argentinos já levantaram a Libertadores 25 vezes, os brasileiros 23, e os uruguaios oito. Da Celeste Olímpica, apenas Peñarol e Nacional computam na lista e tiveram períodos de dominância nas décadas de 1960 e 1980.
A Argentina, maior campeã, conseguiu ser hegemônica com Independiente e Estudiantes entre os anos de 1964 e 1974. O Rojo, inclusive, é o time com mais títulos da história da Libertadores, com sete. O Boca Juniors também teve a sua grande fase, com quatro títulos entre 2000 e 2007. O River veio a emplacar boas sequências no fim da última década, quando conquistou dois canecos, em 2015 e 2018.
No Brasil, os títulos sempre foram mais espalhados, mas a grande hegemonia depois do Santos, de Pelé, veio com o São Paulo na década de 1990, com três finais consecutivas. Tal período ainda contou com títulos inéditos de Vasco e Palmeiras, além do bicampeonato de Grêmio e Cruzeiro. A principal fase dos brasileiros, contudo, veio mesmo na última década.
Devagar e sempre, o Brasil está alcançando a Argentina em número de títulos. De 2010 até agora, clubes brasileiros conquistaram nove títulos, com Palmeiras e Flamengo liderando o caminho. As partes, curiosamente, terão um embate na próxima final: o Fluminense enfrentará o Boca Juniors no próximo sábado, 04 de novembro, no Maracanã.
Paraguai e Equador são intrusos
Além do trio citado, apenas dois outros países conseguiram conquistar títulos e manter a tradição. Apoiado pelos três canecos do Olimpia, o Paraguai também teve o Nacional como finalista e vê o Cerro Porteño com muita tradição. Pelo lado equatoriano, Barcelona de Guayaquil e Independiente Del Valle já chegaram na decisão, mas somente a LDU conseguiu levantar a sonhada taça.

A Libertadores atual: monopólio dos gigantes?
Com o atual formato, e cada vez mais vagas para brasileiros e argentinos, que já têm poder aquisitivo maior do que o restante, fazem com que a Libertadores esteja sendo totalmente dominada pelos dois países. Desde 2018, ano do título da LDU sobre o Fluminense, apenas um outro time fora de Brasil e Argentina conseguiu vencer a Libertadores: o predestinado Atlético Nacional de Medellín, em 2016.
Cada vez mais as fases mais agudas são formadas apenas por brasileiros e argentinos. Uma competição que começou com a homenagem aos libertadores do continente sul-americano falta com a democracia e tende a piorar. Com o futebol sendo visto cada vez mais como um produto, esse é o cenário atual da Libertadores, que não perdeu a essência de imprevisibilidade, mas que apenas poucos conseguem ter a chance de buscar o épico.
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