NouN e T2i. Foto: Nailana Thiely.
A época dos “pós”, de pós-verdade até pós-internet, carrega consigo a periculosidade do esquecimento identitário em favor de uma normalização dos demais caracteres que compõem a experiência da diversidade: esse sintoma afeta tanto as manifestações da vida cotidiana quanto as produções culturais, incluindo as artes visuais até – inúmeras vezes – lançá-las no buraco da homologação dos estilos e da linguagem para elas aderirem às leis do mercado global.
A primeira edição da Bienal das Amazônias, patente até o dia 5 de novembro, em Belém do Pará, driblou essa problemática de uma forma excelente: com mais de 120 artistas reunidos no espaço de uma antiga loja na área do comércio da capital paraense, a bienal é uma fotografia esplêndida das vivências do corpo artístico amazônico, esculpido pela multiplicidade de visões, tradições, situações.
Artistas indígenas, negros, afro-indígenas, caboclos, ribeirinhos, além de mulheres, quilombolas, LGBT+ e outras figuras compõem esse mosaico especial que leva o título de “Bubuia”, palavra cravada na cultura local conforme os estudos do poeta João de Jesus Paes Loureiro, defensor do conceito do “dibubuísmo”.
O que significa? Responde-nos Vânia Leal, do grupo curatorial da Bienal: “‘Bubuiar” não é propriamente ‘estar à toa’. É um estado mental, a ideia profunda de um pensamento conectado com a natureza, com o ciclo das marés e, ao mesmo tempo, é um ditado popular: na área da Amazônia, as pessoas estão ‘de bubuia’, boiando nos pensamentos, naqueles devaneios que permitem ver as coisas com clareza. Trata-se de outra versão da flânerie, em francês”.
A Bienal das águas como imaginações e desejos chega após dois anos de estudos, viagens, encontros e conversas com os artistas dos países pan-amazônicos da área norte da América do Sul: Colômbia, Peru, Guiana Francesa, Venezuela, Bolívia, Suriname, além do Brasil, nos Estados abrangentes da floresta mais famosa e importante do mundo: Pará, Amapá, Rondônia, Acre, Mato Grosso e, obviamente, Amazonas.
Contudo, o projeto geral demorou quase dez anos para vir à tona, sendo realizado graças à lei de incentivo à cultura, ao patrocínio de Mercado Livre a aos apoios do Goethe Institute, da Embaixada de França no Brasil, do Instituto Inclusartiz e o do Instituto Francês.
“Deixo muito claro que não tencionamos dar conta de tudo: essa mostra é o resultado do nosso eixo curatorial, mesmo porque utilizamos o termo ‘Amazônias’ para indicar a coletividade, a diversidade das vozes compreendidas nessa geografia”, ressalta Vânia, relembrando também como a água alinha confins e, contemporaneamente, quebra as fronteiras.
Esse dualismo nos leva imediatamente a reparar em várias participações de artistas cujos trabalhos sempre trouxeram à luz questões conectadas aos atravessamentos, às hibridações e às miscigenações.
Adriana Varejão, a exemplo, é presente com a instalação Em segredo (2003): uma folha de bananeira acolhe uma escultura vermelha representando um recém-nascido, correspondida pela oração “Ya pihi irakema”, em língua tupi: “A tua existência me atravessa, a tua presença me afeta”.
Adriana Varejão, Em segredo, 2003. Foto: Nailana Thiely.
O simbolismo da folha como um embrulho, como abrigo para o sol e para as chuvas, e, também, como prato, é um atravessamento mesmo a providenciar fertilidade e cuidado.
A presença feminina na Bienal é alta, partindo mesmo pela curadoria composta – além de Vania – por Keyna Eleison, Flavya Mutran e Sandra Benites, e chegando ao número de artistas mulheres na mostra, compreendendo a linda homenagem à fotografa paraense Elza Lima e aos seus 40 anos de carreira documentando o Brasil inteiro e as áreas do Norte e Nordeste em específico.
Uma ocasião a mais para refletir sobre a sociedade matriarcal que sempre fez parte da comunidade amazônica, uma referência à relação estética e cultural entre as águas e os corpos que habitam esse território.
De qualquer forma, Bubuia fala ao mundo de um jeito bem claro, evitando se encarquilhar em políticas autorreferenciais – muito pelo contrário, construindo uma linguagem universal que perpassa as cores da pele, os estados, as origens: a maravilha dessa Bienal é oferecida por essa pluralidade extremamente visível que não para na sua autoafirmação; procuram-se diálogos, abrem-se perspectivas de compreensão à paisagem, até com pegadas irônicas – como acontece no trabalho de Mariano Klautau Filho.
Na série Amazonische Visualiteit (2019-2023), o autor paraense espalha a paisagem dessa região brincando com as identificações que lhes reservamos: as fotos “amazônicas” de Mariano foram tiradas de Viena até a Baixa Califórnia, em lugares cuja identidade visual tem um apego com os da bacia florestal.
Elza Lima, Água Boa (Marajó), 2021. Foto: Nailana Thiely
Keyla Sobral. Foto: Nailana Thiely
“As Amazonas se encontram em muitos lugares: são festas, rios, árvores, isolamento. Percebe-se uma visualização amazônica também nas cidades; vale lembrar Belém como ponto de passagem de vários grupos e etnias, os mesmos que trouxeram por aqui os ritmos da cúmbia, o merengue, a salsa. A história da Amazônia é a de intersecções: para além da imagem da mata intocada existe também uma Amazônia de influências, trasbordes em outros territórios, saberes partilhados”, salienta o artista.
Francelino Mesquita trabalha com a típica madeira paraense de miriti, construindo arquiteturas de barcos vítimas de naufrágios, tornando-as esculturas suspensas no ar, vivenciando o contraste entre a leveza da madeira e a severidade da ideia que reservamos às grandes empresas, tanto a fragilidade humana, quanto a dos nossos eternamente incertos recursos tecnológicos.
Bonikta, kurumin panankuera. Foto: Nailana Thiel
Marinaldo Santos nos oferece a possibilidade de descobrir a Máquina para fazer chuva (2022), levando-nos a pensar no imenso céu da América do Sul como uma engenhoca divertida; Keila Sankofa, com sua instalação Cabeças de cabaças (2022-2023), mistura o artesanato com a imagem de uma nova deusa; Paulo Mufarrej pinta uma Livre interpretação para o nascimento de ilhas (2022-2023); o Azougue, (2023), de Denilson Baniwa, é uma parede de iscas artificiais que remete ao imaginário da pesca e ao fascínio que carregam consigo as armadilhas; Noemí Pérez com o seu Bosque em chamas (2023), foca na questão do desmatamento por meio de lindíssimos bordados sobre telas pintadas com carvão; Xadalu Tupã Jekupé formaliza os problemas da violência infantil pendurando roupas de crianças de aldeias em cercas de arame farpado na instalação Alegrete TERRA À VISTA – Limpeza Espiritual Colônia (2017-2019).
Enfim, dois trabalhos pictóricos pondo a atenção sobre inúmeras questões que tudo tem a ver com a esfera política: nas pinturas de Rafael Prado, visualiza-se um retrato dos garimpeiros que buscaram o ouro na região da Serra Pelada-PA, compreendendo o hábito de tirar os próprios dentes para colocar dentadura de ouro. O garimpeiro de hoje, porém, tem os contornos de um divo do cinema, de uma personagem da TV: mais uma advertência em prestar atenção às imagens promulgadas pelas mídias.
Rafael Prado. Foto: Nailana Thiely.
Éder Oliveira multiplica a mesma personagem a interpretar papéis diferentes na mesma pintura: Quintino se torna fazendeiro, bandido, jogador, ativista, botando na mesa as multifacetadas questões que interessam as áreas rurais e as matas da Pan-Amazônia.
A existência, mais uma vez, ultrapassa os territórios seguindo – como relata a curadora, Vânia – “Infindáveis narrativas que visibilizam o potencial político e cultural sem enrijecimentos dos modos de vida. As narrativas não são fantasiosas, são reais”.
Matteo Bergamini é jornalista, crítico e escritor
especializado em Arte Contemporânea.
Colabora com a revista italiana ArtsLife e com
a portuguesa Umbigo Magazine.
BUBUIA: BIENAL DAS AMAZÔNIAS •
BELÉM • PARÁ • 5/8 A 5/11/2023
Crédito: Link de origem



Comentários estão fechados.