Associação Guinendadi lança “I love Guiné-Bissau”

Nunca esperou conseguir tantos votos nas eleições comunais. Liudumila Vanira Branca foi a candidata mais votada de todos os partidos no bairro de Kirchberg. Lusófona, de origem guineense, explica este resultado, em parte, por estar muito envolvida na defesa da integração dos alunos na escola do bairro.

Liudumila considera “injusto” o facto de muitos lusófonos não terem tomado posse, apesar de terem sido os candidatos mais votados.

Este ano estreou-se nas comunais, mas acha que o voto dos migrantes não deve ficar por aqui. Os estrangeiros também deviam poder votar nas legislativas, defende.

Mas, para que os migrantes votem para escolher os deputados há ainda um longo caminho a percorrer. “Os estrangeiros não se implicam nas autárquicas. As pessoas deveriam interessar-se mais pela vida política do país”, sublinha.

A fundadora e líder da associação Guinendadi estabelece como projeto para breve criar o evento “I Love Guiné”.

Um evento a realizar na primavera do próximo ano e que deverá contar com atuações de artistas guineenses e espaços onde se poderão demonstrar a produção artística e gastronómica da Guiné-Bissau.

Para já, em colaboração com o Comité para a Ligação das Associações de Estrangeiros (CLAE), vão oferecer cursos de informática. “Para conseguir um trabalho melhor é tão importante dominar a língua francesa, como a informática”, sublinha Liudumila.

Outros dos projetos que tem, a longo prazo, é a criação de uma casa da Guiné-Bissau no Luxemburgo.

Nascida na Guiné, aos 14 anos mudou-se com a mãe para Portugal. Foi em Lisboa que estudou e se licenciou em Gestão de Marketing. Depois foi trabalhar para a Irlanda do Norte, onde se casou e teve a primeira filha. Esteve ainda cerca de um ano e meio em Viena de Áustria.

“Decidimos vir viver para o Luxemburgo porque é um país de grandes oportunidades e também porque tem uma comunidade portuguesa muito importante. Assim sendo, era mais fácil para mim em termos linguísticos, porque estava a ser muito difícil conseguir um emprego na Áustria por causa do alemão”, relata. Agora, com 43 anos, vive no Luxemburgo desde 2011.

A adaptação no início não foi fácil, porque o Luxemburgo é um país muito acolhedor, mas onde a informação não circula. Um imigrante quando chega não sabe onde obter a informação”, diz Liudmila, mãe de três filhas, com 15, 12 e quatro anos. “Quando chegaram cá eram muito pequeninas e a adaptação foi fácil. O Luxemburgo é o país delas”, salienta.

Liudumila Vanira Branca é fundadora da associação Guinendadi. © Créditos: Sandra Packard

É assistente executiva na consultora AON, mas o bichinho da política sempre esteve presente. “Sou uma pessoa curiosa que gosta de se informar e vê os jornais da RTL e da televisão portuguesa, também acompanho as informações sobre a emigração e as políticas de integração no resto do mundo”, sublinha. Percebe luxemburguês, fala francês e alemão e também crioulo da Guiné-Bissau, a sua língua materna. E sim, reconhece que o “luxemburguês é difícil”.

O seu lema é integrar-se, e onde quer que vá gosta de saber o que se passa no país que agora também é o seu. Mas “tem amigos e familiares cujos filhos, quando chegaram [ao Grão-Ducado], passaram por muitas dificuldades, porque o sistema escolar no país é completamente diferente de Portugal, e os pais sentiam-se perdidos”, conta.

Por isso, considera que “há muita coisa a fazer no sistema escolar, como começar o acompanhamento logo quando o imigrante se vai registar para que não se sinta perdido”.

Outro ponto que a preocupa é a habitação. “Quando cheguei estive a viver dez anos numa casa em que pagava 1.400 euros por mês. Depois inscrevi-me na Société Nationale des Habitations à Bon Marché, mas tive que esperar oito anos para conseguir uma casa”, revela.

“A força motora do Luxemburgo são os imigrantes”

Até porque “o Luxemburgo é um país que quer ver as pessoas integrarem-se, porque é um país pequeno, mas com mais de 180 nacionalidades e precisa das pessoas”, afirma. E considera por isso que “a força motora do Luxemburgo são os imigrantes”. Os dados comprovam-no: só na Cidade do Luxemburgo, cerca de 70% da população é imigrante.

O que é que se pode fazer para aumentar a mobilização política dos estrangeiros? “Esse é um trabalho dos dois lados, porque os partidos políticos devem fazer um trabalho de sensibilização contínuo até às próximas eleições que se realizam daqui a seis anos.” Por outro lado, é necessário que as pessoas se integrem. “Porque a nossa vida é aqui, não estamos cá só para trabalhar”, complementa.

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A primeira barreira que um imigrante encontra quando chega a um novo país é a língua. “Eu recomendaria aprender o francês em primeiro lugar, mas se quisermos ter um trabalho mais bem remunerado temos que saber o alemão e o luxemburguês”, recomenda. A juntar a isto há um grande leque de oportunidades de cursos que se pode frequentar.

Para além da participação ativa na política, Liudmila Branca tem uma associação – Guinendadi –, que significa Amor à Guiné em crioulo, e que tem como objetivo ser um agente de integração entra a cultura luxemburguesa e a guineense.

A candidata quer também fazer projetos de apoio à Guiné-Bissau para que a cooperação com o Luxemburgo seja reforçada. Defende, por exemplo, que sejam criados voos de ligação entre o Grão-Ducado e o país africano.

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