Como as imaginações católicas informam os ativismos socioambientais

“Muita contradição dizer que ama o Criador e desrespeita a criação, dizer que ama o Criador e destrói a criação, dizer que ama o Criador e está mais preocupado em ganhar dinheiro com a criação do que cuidar desse jardim, que Ele nos colocou para cultivar e guardar”: foram essas as palavras de Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, no dia 22 de maio de 2023 em Brasília. O discurso, amplamente noticiado pela imprensa, foi interpretado politicamente como uma posição da ministra contrária aos recém revelados planos da Petrobrás de explorar economicamente a foz do rio Amazonas. Indo além dessa intepretação, interessa nesse texto explorar o contexto e o imaginário religioso usados politicamente pela ministra. Não por acaso, seu discurso foi feito na sede da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) durante a mesa de abertura da “Semana Laudato Si”.

O contexto: da Laudato Si ao Sínodo Pan-Amazônico

“Laudato Si: sobre o cuidado da casa comum” é o título da primeira encíclica de autoria exclusiva do Papa Francisco. Nesse texto, uma carta em que buscava indicar os anseios para o seu pontificado que se iniciava, o papa conclama os católicos de todo mundo a se engajarem na causa ambiental a partir da categoria teológica da “ecologia integral”. Nesse texto, o pontífice argentino argumenta que o planeta Terra seria uma “casa comum” criada por Deus. Logo, seria tarefa primordial dos seres humanos agirem como seus “guardiões”, sobretudo frente às mudanças climáticas e a pobreza. São duas significativas inovações que o texto implica, tanto para as tradições católicas como para o seu ativismo ambiental: por um lado, o reconhecimento teológico da Terra enquanto um ecossistema capaz de sofrer danos e, por outro, a ligação intrínseca entre ecologia e justiça social.

Diferentemente das encíclicas de seus antecessores, o Papa Francisco fez um clamor, em forma de manifesto socioambiental, porém sem traçar normas ou diretrizes a respeito do que seria uma “conversão ecológica”. Assim, o Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica buscou, justamente, traçar quais seriam os planos de ação a partir deste clamor inicial da encíclica. O evento – uma forma de assembleia consultiva – ocorreu em outubro de 2019 no Vaticano e teve como lema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Na ocasião, foi promovido um encontro de bispos atuantes na região amazônica, com eventos reunindo missionários e representantes dos povos indígenas do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa.

Houve naquele sínodo, de maneira mais específica, um esforço para adaptar as diretrizes teológicas latino-americanas, mais voltados para as questões da terra e das desigualdades sociais, às especificidades do contexto amazônico e se posicionar politicamente frente a elas. Ao mesmo tempo, como uma reação católica frente a expansão das religiões evangélicas naquela região. Esta acomodação religiosa foi realizada reorientando a agenda pastoral de modo a responder às demandas ecológicas que nas últimas décadas têm ganhado protagonismo público em grande parte do globo. Nesse sentido, uma das inovações teológicas daquele evento foi a instauração do “pecado ecológico” definido como uma “ação ou omissão contra a comunidade o ambiente”.

Como noticiado pela imprensa, o sínodo foi mal-recebido pelas autoridades do governo Bolsonaro que, inclusive, acionou a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) para monitorar tal evento: alegou-se que ele “atentaria contra a soberania nacional” e que se tratava de “uma agenda política de esquerda”. Assim, se os governos são contínua e progressivamente cobrados – interna e externamente – para que desenvolvam ações que visem proteger esse bioma, também a Igreja Católica tem se tornado protagonista nessa questão, elaborando um modelo de ativismo próprio. Como se sabe, no caso da América do Sul, o ativismo socioambiental tornou-se uma das grandes pautas das relações internacionais, sobretudo no Brasil, pelo fato de seu território comportar a maior parte da floresta amazônica.

O imaginário: da querida Amazônia aos movimentos eclesiais

O ativismo socioambiental não é uma novidade no catolicismo sul-americano: existe há décadas uma afinidade entre as pautas ecológicas e as pautas da teologia da libertação. O que se pode observar com o pontificado de Francisco é que essa ecologia católica deixa as especificidades do seu regionalismo para ser propagada universalmente pelo Vaticano.

Parte da estratégia de propagação está na criação de um imaginário católico que tem justamente a Amazônia como protagonista. Em um livro escrito após o sínodo – Querida Amazônia – o papa argentino traça esse imaginário ao defender que a floresta amazônica seria “um jardim” fruto da “criação divina”. Nessa imaginação, caberia aos seres humanos, sobretudo os indígenas e cristãos, serem os “guardiões da criação” ao “cultivar o jardim” que seria a Amazônia. Esse imaginário ecológico é materializado em campanhas e artes visuais católicas, além de encampar a criação de novos movimentos e instituições eclesiais voltadas para a questão socioambiental como a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) e o Movimento Laudato Si.

Retomando o discurso e o léxico de Marina Silva, reconhecida publicamente como evangélica, o que se pode perceber é um indicativo de alinhamento político com essa imaginação católica. Não por acaso, ao seu lado naquela mesa de abertura estavam algumas lideranças católicas atuantes na causa ambiental como dom Vicente Ferreira (secretário da Comissão de Ecologia Integral e Mineração da CNBB), Igor Bastos (gerente para Iberoamérica do Movimento Laudato Si) e Irmã Maria Irene Lopes (secretária executiva da REPAM-Brasil).

Esse alinhamento não é uma surpresa, dada a prévia formação da ministra e de diversas lideranças de esquerda dentro dos referenciais da teologia da libertação. Ao mesmo tempo, indo além do plano pessoal, o discurso da ministra é corroborado nas instâncias superiores do governo federal: o presidente Lula tem buscado se aliar ao Papa Francisco para encampar internacionalmente a agenda socioambiental brasileira.

Enquanto no governo Bolsonaro as alianças com o catolicismo se davam isoladamente, a partir de alguns setores e sujeitos nas margens da hierarquia da Igreja Católica, o que se pode perceber nesses primeiros meses do governo Lula é que essa imaginação católica compartilhada entre os líderes eclesiais e estatais pode proporcionar uma parceira mais institucionaliza. Nesse novo cenário político, resta ainda compreender quais serão as afinidades e discrepâncias nas imaginações postuladas pelas demais lideranças religiosas na região amazônica, sobretudo as evangélicas e/ou opositoras ao novo governo.

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