Perfil | Vivendo em Porto Alegre desde 2016, haitiano tem o Brasil como segunda casa, mas sonha em voltar para o país de origem
*Foto: Flávio Dutra/JU
Trabalhador terceirizado, migrante, homem negro que esteve vinculado à vida religiosa católica. Mas, sobretudo, um ser em constante reflexão sobre o futuro. É dessa forma que Willio Sainvil começa a se descrever em um memorial que apresentou ao Programa de Pós-graduação em Educação da UFRGS durante o último processo seletivo para o mestrado.
Willio tem bastante história para contar. Nascido em 22 de março de 1986 na cidade de Mirebalais, no centro do Haiti, não chegou a conhecer o pai, Angel Joachim, falecido antes do nascimento do filho. Willio viveu até os dez anos em Mirebalais com a mãe, Marie Rose Sainvil. Quando Willio tinha dez anos, a irmã, Jean Jeanette, se muda para Porto Príncipe e leva o irmão.
“Ela sempre disse que eu sou mais filho dela do que os filhos dela, porque nós temos uma sensibilidade, uma humanidade, um entende o outro. É um relacionamento de mãe e filho”, diz Willio sobre a irmã. Jean Jeanette segue no Haiti, mas ela e o irmão mantêm contato constante. É a única família que ele tem, conta, pois a mãe faleceu em 2021. Willio tem outros dois irmãos, já falecidos.
A educação e o catolicismo são dois fatores que, entrelaçados, se mantiveram ao longo da vida de Willio. Até agora, sua formação foi realizada em instituições católicas.
Na infância, chegou a ficar dois anos sem estudar, por falta de condições financeiras. Um dia, quando tinha dez anos, foi a uma escola buscar comida, que era distribuída na instituição. Parou do lado de fora de uma sala, onde acontecia uma aula de Matemática. Pela janela, ficou acompanhando a lição. O professor perguntou a Willio o que fazia ali, por que não estava estudando, e ele contou ao docente sua situação. Ele, então, convidou-o a estudar ali – foi assim que Willio voltou à escola.
Em 2004, após terminar o ensino fundamental, foi convidado a viver em uma comunidade religiosa, onde cursou e concluiu o ensino médio. Entre 2012 e 2014, cursou Filosofia no Seminário Maior de Notre Dame do Haiti.
No ano seguinte à conclusão do curso de Filosofia, Willio ingressou na Congregação dos Oblatos de São Francisco de Sales, em La Plaine. Nesse meio tempo, chegou a cursar Teologia no Centro Inter-Instituto de Formação Religiosa (Cifor).
A vinda para o Brasil aconteceu em 2016. Em 25 de agosto daquele ano, Willio chega a Porto Alegre para continuar sua formação religiosa e acadêmica.
“Eu estava na congregação, estava estudando para ser padre. A gente tem que vir aqui para o Brasil para fazer, como vocês chamam, o noviciado. E aí depois do noviciado, para fazer a formação permanente, que é a faculdade de Teologia”, explica.
Ele complementa que foi a congregação que organizou o processo de vinda dele para o país. “A chegada foi maravilhosa, sempre uma boa convivência, os membros da congregação me acolheram.”
Em 2017 ele chega à UFRGS. Naquele momento, como aluno do curso de Português para Estrangeiros, onde aprendeu o idioma em que hoje se comunica com facilidade. Aprender português não foi difícil. “Eu já tinha conhecimento das línguas: eu falo inglês, entendo o espanhol e falo francês e o crioulo.” O francês é o idioma oficial do Haiti, mas é o crioulo a língua materna de Willio. “[O crioulo] É a língua que todo mundo entende e todo mundo fala no Haiti. Mas o francês e o crioulo são parecidos, é como português de Portugal e português do Brasil”, compara.
Também em 2017 Willio ingressou em Teologia na Escola Superior de Teologia da Espiritualidade Franciscana, em Porto Alegre, curso no qual se graduou em 2022.
Em 2020, quando ainda cursava Teologia, resolve sair da congregação, e aluga um quarto perto do Câmpus do Vale. “E aí eu fui na Prefeitura do Câmpus do Vale cinco vezes pra buscar emprego. Eu cheguei lá e falei: ‘Bom, eu sou estrangeiro, preciso pagar meu aluguel, eu preciso trabalhar’.” Encaminharam Willio ao supervisor dos terceirizados no Câmpus Saúde e ele conseguiu uma vaga na portaria do Instituto de Psicologia. Passou pela Prefeitura do Câmpus Saúde e, desde julho de 2023, está na recepção da Pró-reitoria de Graduação, na Reitoria.
Mesmo que esteja fora da congregação religiosa, a rotina de Willio é bastante tranquila. Quando não está trabalhando, gosta de ficar em casa lendo. Aos domingos, frequenta a missa na paróquia Santa Ana, no Morro Santana, e na Igreja Perpétuo Socorro, no Intercap, bairro onde mora atualmente.
“Eu tenho formação fechada dentro da congregação. A minha saída é nas comunidades, visitar os doentes das famílias, ajudar os pobres na rua, trazer comida para eles. A formação religiosa ficou encarnada dentro do meu coração, isso é uma coisa que a gente nunca vai perder”
Willio Sainvil
Neste ano, Willio participou do processo seletivo para o mestrado em Educação, com um projeto sobre a inclusão da cultura dos imigrantes haitianos no Brasil como desafios no caminho da educação antirracista. Ficou como suplente no resultado preliminar, divulgado nesta semana. Além do mestrado, ele tem outro sonho: a construção de um centro educativo. No Brasil ou no Haiti? Tanto faz, ele diz. “O Brasil é o meu segundo país, é o país que me dá oportunidade e que eu gosto muito.” Mas ele gostaria, mesmo, de voltar ao seu país natal e contribuir com o sistema educativo de lá.
“Eu não sou fugitivo, entende? Eu não estou escapando da realidade porque eu tenho uma consciência – a formação que eu recebi lá no Haiti – e aí eu tenho que voltar no Haiti para contribuir. Não é um brasileiro que vai salvar o Haiti, não é um norte-americano…. Tem que conhecer a realidade de lá para melhorar, esse é o meu objetivo.”
Se a educação foi a transformação na vida de Willio, ele quer que isso chegue também a outras pessoas. “Eu passei graças à educação pela dificuldade que eu tinha no passado. E aí eu estou pegando essa dificuldade, essa experiência, para poder ajudar o outro, para dar oportunidade, para dar esperança para o outro também”, conclui.
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