Mal o avião do Papa levantou voo de Lisboa, logo os ecrãs de televisão substituíram as imagens hipnóticas da juventude católica em festa pelas não menos hipnóticas imagens de Portugal a arder. Eis um rápido regresso à realidade. Tende a falar-se dos fogos como uma catástrofe, seguindo-se de imediato críticas à falta de policiamento para evitar o fogo posto, à falta de limpeza da floresta ou de meios para combater os incêndios. Mas os fogos são sobretudo sinal de uma enorme mudança económica, social e, por aí, paisagística.
Os grandes incêndios massacram ano após ano sobretudo o interior do país, numa linha geográfica que acompanha aproximadamente o distrito de Leiria até às beiras, em direcção à serra da Estrela. Acontece que esses grandes fogos não existiam até às décadas de 70 e 80 do século XX. Não existiam porque o território estava ocupado e a limpeza florestal era feita pelos camponeses que aí viviam e pelos animais aí criados. A floresta integrava-se numa vida rural intensa. Depois, tudo mudou: em 1970, 30% do emprego ainda era agrícola, hoje não passa de 3%.
Os fogos não têm trazido grande decréscimo da floresta, que ocupa mais ou menos um terço do país. O que têm trazido é uma mudança da floresta. Onde antes víamos massas de pinheiros, sobreiros, azinheiras ou carvalhos vemos agora eucaliptos. O eucalipto tem duas faces. Nalguns casos é uma floresta cuidada, para alimentar a indústria do papel, mas noutros é precisamente sinal do abandono dos campos. Percebe-se porquê ao passar por zonas que arderam há poucos anos: enquanto as carcaças queimadas das outras espécies persistem, os eucaliptos recuperaram, vicejando robustamente. Em zonas abandonadas, ainda dão uma réstia de rendimento aos herdeiros urbanizados dos antigos camponeses.A célebre ‘recuperação do interior’ passa por perceber que já ninguém cuidará espontaneamente da floresta como outrora acontecia, sendo preciso dar um novo sentido económico à vida por lá. Um ou outro exemplo para onde olhar, entre vários possíveis: a reflorestação com espécies de retorno económico interessante, ou o turismo rural, bastando ver a decadência da rede de termas que ainda pontilha o interior para perceber que muito se poderia fazer por aí. Não vale a pena demonizar o eucalipto se não existe alternativa viável.
Mal o avião do Papa levantou voo de Lisboa, logo os ecrãs de televisão substituíram as imagens hipnóticas da juventude católica em festa pelas não menos hipnóticas imagens de Portugal a arder. Eis um rápido regresso à realidade. Tende a falar-se dos fogos como uma catástrofe, seguindo-se de imediato críticas à falta de policiamento para evitar o fogo posto, à falta de limpeza da floresta ou de meios para combater os incêndios.
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