Expulsar telemóveis das aulas e do recreio – Domingo

Smartphones e tablets desapareceram das escolas francesas em 2018. Holanda prepara idêntica medida para 2024. Em Portugal, o tema ganhou relevância com uma petição pública e uma decisão recente do município de Almeirim.


No recreio de qualquer escola, conversar olhos nos olhos é melhor do que falar através do WhatsApp; disputar uma partida de futebol é muito mais saudável do que estar no TikTok; um tabuleiro de xadrez torna os colegas mais sociáveis do que um solitário jogo online. O diagnóstico é comum a todos os intervenientes no processo educativo; a forma de alterar o panorama atual é que suscita divergências.

Há uma petição pública na Internet (com 19 mil assinaturas, no início desta semana), lançada por um grupo de pais para se restringir o uso de telemóveis nas escolas, “em prol da socialização das crianças” e para diminuir o “contacto com conteúdos impróprios para a sua idade”.

E no município de Almeirim foi decidido que, a partir de setembro, estes equipamentos vão ser “expulsos” das aulas e dos intervalos. O presidente da autarquia, Pedro Ribeiro, dando seguimento a uma recomendação, “aprovada por unanimidade” pelo Conselho Municipal de Educação, explica como vão ser as novas regras. “No primeiro ciclo, em que os alunos são transportados da escola à porta de casa, não podem levar telemóveis. Os dos segundo e terceiro ciclos deixam os seus num cacifo individual à chegada e levantam-nos quando saem. Os do secundário, como frequentam disciplinas diferentes, ao entrarem na sala colocam-no dentro de uma caixa, onde ficam enquanto dura a aula”.

O psicólogo Eduardo Sá está “preocupado com a desvalorização do recreio (com recintos mais pequenos e intervalos de cinco minutos), que é fundamental para se aprender a conviver, a rivalizar, a estruturar a personalidade”. Concordando com a proibição do telemóvel (“até já é usado pelas crianças no jardim-escola”), verifica que, nos momentos de lazer, este “é o recurso onde se refugiam os mais inseguros”.

Devido ao uso constante destes equipamentos, estes jovens “têm menos atenção, são mais impulsivos, revelam menor capacidade para lidar com a frustração, além de acederem pouco à palavra falada – quase tudo se resume a conversas fugazes nos chats de videojogos, o que é catastrófico em relação à língua materna”.

Convencer sem proibir
Professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, António Gomes Ferreira argumenta que o debate em torno destes aparelhos digitais “não é uma questão pedagógica” e tem “dúvidas sobre a eficácia de uma proibição pura e simples” do seu uso fora das salas de aula.

Alertando para a diversidade de situações, coloca reticências sobre o implementar da medida em todo o País, pois “se é fácil aplicar numa pequena escola, em grandes estabelecimentos torna-se complicado”.

Por um lado, “seria preciso ter espaços disponíveis e criar dinâmicas alternativas” à diversão do telemóvel – e “há escolas primárias que não têm sequer um lugar para jogar à bola”. Por outro, com a falta de recursos humanos, corre-se o risco de se “multiplicarem sanções disciplinares” – e “nada é pior do que um regulamento não ser cumprido”.

O ideal seria “conseguir, através de uma sintonia entre órgãos da escola, encarregados de educação, professores e comunidade, instituir uma cultura coletiva, onde se gerasse uma espécie de censura social” ao uso inadequado dos telefones móveis nos estabelecimentos de ensino.

A CONFAP (Confederação Nacional das Associações de Pais) “não tem uma posição fechada” sobre o tema, esclarece a sua presidente, Mariana Carvalho. De todo o modo, “mais do que proibir, seria preferível sensibilizar”, explicando às crianças e persuadindo os adolescentes a encontrar formas de divertimento e de convívio sem a dependência dos aparelhos, onde tentam subir de nível num jogo ou invejam vidas como as que veem no Instagram. “Acredito muito mais numa componente didática”, sintetiza a representante dos pais.

Mariana Carvalho acrescenta ainda que há escolas a pedirem aos pais para que os filhos levem smartphones, para “mais facilmente acederem à Internet” – e alguns encarregados de educação têm mesmo de os ir comprar, como se fosse material de estudo.

Domingos Fernandes, presidente do Conselho Nacional de Educação, considera que “haverá um consenso relativamente ao facto de não se poder utilizar um equipamento informático para efeitos recreativos na sala de aula”. E chama a atenção para o teor da Lei 51/2012 (“Estatuto do Aluno e Ética Escolar”), diploma que permite a qualquer escola estabelecer um regulamento interno com regras sobre o uso destes telefones. Além de colégios particulares, há meia dúzia de anos que a inibição do uso de telemóveis vigora no agrupamento de escolas António Alves Amorim, em Lourosa (Santa Maria da Feira).

Adultos “viciados”
O presidente do Conselho Nacional de Educação recorda que “a UNESCO tem-se pronunciado sobre os malefícios provocados pelo excesso do número de horas diante de ecrãs (uma questão de saúde pública)” e “um estudo americano calculou que os jovens passam nove horas por dia agarrados ao telemóvel”. “As crianças”, alega, “sobretudo entre os 6 e os 12 anos, se, em vez de brincarem, estão nas redes sociais, ficam expostas a problemas de solidão, ao lixo tecnológico, a ameaças de ‘cyberbullying’”.

Mas “é muito fácil apontar para a escola, esquecendo que os telemóveis são emanações da sociedade”, frisa Domingos Fernandes. O presidente da câmara de Almeirim diz que “há pais que telefonam, durante uma aula, só para saberem se os filhos estão bem”. A líder da CONFAP recebe queixas sobre professores que atendem chamadas pessoais quando estão a ensinar.

O presidente do Conselho Nacional de Educação, além de preconizar que seria bom que cada estabelecimento de ensino promovesse encontros de reflexão com os pais em torno deste problema, vai mais longe. Advoga que toda a sociedade se devia envolver num debate sobre a forma mais sensata de se utilizarem, na escola como na vida, as novas (e indispensáveis) tecnologias.

95% das crianças com mais de 10 têm telemóvel
Um estudo publicado há dois anos mostra que 95 por cento das crianças portuguesas com 10 ou mais anos de idade já têm o seu próprio smartphone e que, abaixo dessa idade, 34 por cento também já receberam de presente este aparelho.

Os dados da Boutique Research, para a cadeia de lojas de artigos tecnológicos Hubside.Store, apenas confirmam aquilo que já era percecionado: cada vez em idades mais precoces os menores portugueses acedem ao smarphone, também para ir a redes sociais, jogar ou para ver vídeos. Esta semana, a China legislou no sentido de autorizar menores entre os 8 e os 16 anos a apenas usar dispositivos móveis durante uma hora por dia. Os menores de 8 anos apenas 8 minutos. E os de 16 a 18 anos, duas horas.

“Toda a vida se jogou à bola”

O que levou a autarquia de Almeirim a avançar com esta proposta?

Pedro Ribeiro – Se as novas tecnologias foram muito úteis durante a pandemia, permitindo manter um ensino à distância, depois disso o seu uso disparou e tornou-se uma adição. No último ano letivo, verificámos que havia alunos a olhar para o ecrã horas seguidas, cansados por não dormirem o suficiente, com ansiedade, suores, ataques de pânico. Podíamos ter aumentado o número de psicólogos (de dois para três), mas percebemos que seria um paliativo.

Quais são as alternativas?
PR – As de sempre! Toda a vida se jogou à bola, brincou à apanhada, saltou à corda. Vamos também introduzir jogos de tabuleiro. Tudo é melhor do que os ver sentados, sem conversar, cada um virado para o seu telemóvel.

Mas não tem nada contra a inovação?
PR – As tecnologias são muito boas, mas é necessário um equilíbrio. Assim como se deve fazer exercício físico, mas sem correr ultramaratonas todas as semanas. E há cientistas a avisar que a nova geração, pela primeira vez na História, pode vir a ter um QI [Quociente de Inteligência] inferior à geração dos pais. Esta regressão tem de nos preocupar, enquanto Humanidade.


No recreio de qualquer escola, conversar olhos nos olhos é melhor do que falar através do WhatsApp; disputar uma partida de futebol é muito mais saudável do que estar no TikTok; um tabuleiro de xadrez torna os colegas mais sociáveis do que um solitário jogo online. O diagnóstico é comum a todos os intervenientes no processo educativo;


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