Felicidade. Se é feliz a fazer aquilo que mais gosta, então as coisas vão correr bem. Se as coisas lhe correm bem, então as oportunidades vão aparecer de forma natural. Depois é agarrá-las com a máxima força e aproveitar o momento. De forma alegre e responsável.
Rui Modesto é exemplo disso. Aliás, é sinónimo de boa disposição. O ala português, de 23 anos, passou da distrital da AF Évora à primeira liga sueca em apenas seis anos. Uma viagem de altos e baixos, mas que valeu todo o esforço.
Após dois anos «fantásticos» na Finlândia, ao serviço do FC Honka, Modesto mudou-se para o histórico AIK para continuar a escrever história em nome próprio no futebol nórdico e abriu as portas ao zerozero. Vamos conhecê-lo!
Rui Modesto deixou o Honka para assinar pelo AIK, da Suécia @AIK
«Às vezes é preciso dar um passo atrás para poder dar dois em frente»
zerozero (ZZ): Como é que o futebol aparece na tua vida?
Rui Modesto (RM): Apareceu bem cedo. Na minha família todos são fãs de futebol e foi o meu irmão mais velho que me ensinou a dar os primeiros toques.
ZZ: Como foi o caminho ao longo dos anos? Quando percebes que dá para fazer carreira pelo futebol profissional?
RM: Foi um caminho de altos e baixos. Vivi uma fase em que não acreditava muito, quanto tinha 16 anos, pois não jogava muito no clube onde estava e decidi voltar para o clube da minha terra natal. Aí consegui aproveitar mais aquilo que era estar dentro de campo e aos 17 anos subi à equipa principal do Estrela de Vendas Novas, então no Campeonato Nacional de Seniores. A partir daí comecei a interiorizar que era possível fazer carreira no futebol e foi quando comecei a trabalhar mais a sério.
Rui Modesto, jogador do AIK
ZZ: O regresso a casa foi uma espécie de clique?
RM: Sim. Tinha saído do Estrela de Vendas Novas nas camadas jovens porque não disputava o campeonato nacional. Queria disputar jogos mais competitivos e passei pelo Juventude e Lusitano de Évora, ainda sem pensar se seria profissional ou não. No Lusitano não jogava e às vezes tens de dar um passo atrás para dar dois em frente. Foi isso que eu fiz. Fui para o campeonato distrital, fui campeão e subi ao CNS.
ZZ: Depois aparece o Vitória…
RM: Também tive a oportunidade de ir para o Marítimo, mas o Vitória era mais próximo de Vendas Novas e um clube com muita história, que acompanhava bastante e significava muito para mim. Achei que era o melhor passo para evoluir e atingir a equipa principal, que não aconteceu, mas esse era o meu objetivo.
ZZ: O que ficou dessa passagem por Setúbal?
RM: Guardo boas memórias, principalmente dos colegas com quem trabalhei e o staff que era muito bom. Ainda falo com o treinador Chiquinho Conde. Ajudou-me imenso no meu desenvolvimento como jogador.
ZZ: Segue-se o salto para a Finlândia. Inesperado?
![]() |
Rui Modesto Vitria FC [S23] Total |
55 Jogos 4160 Minutosver mais �
RM: Foi inesperado. Tinha acabado o meu contrato no Vitória, que teve uns problemas com a Liga e desceu. Mesmo jogando bem e sendo dos mais regulares dos sub-23 não me foi oferecida a renovação ou uma oportunidade…
ZZ: Custou-te?
RM: Não entendi o facto de não ter acontecido. Talvez fosse para a Finlândia na mesma, porque era uma oportunidade melhor, mas… Tive de lidar com isso. O meu objetivo era sair da Liga Revelação, pois sentia-me preparado para jogar noutros patamares, mas sabia que era complicado arranjar algo na Segunda Liga, por exemplo. Nunca tive essa oportunidade e do nada apareceu a Finlândia nos últimos dias de mercado. A liga finlandesa não é muito vista nos países do Sul da Europa, como é o caso de Portugal, mas na minha visão era um país novo, uma cultura diferente e uma primeira liga. Isso pesou muito na minha decisão.
Da distrital até a um histórico da Suécia em apenas cinco anos @AIK
«Vivi dois anos incríveis na Finlândia»
ZZ: O que encontraste no Honka? Quais foram as principais dificuldades?
RM: Sinceramente, esperava menos qualidade do que aquela que existe. Não temos noção, e também não estou a dizer que é uma liga portuguesa, como é óbvio, mas há muito mais qualidade do que aquela que nós portugueses achamos. No início tive de adaptar-me ao estilo muito diferente, mais tático e físico, para além do contexto, a nível de clima. Fui no verão, mas pouco tempo depois tornou-se uma catástrofe… muito complicado [risos]. A pré-epoca é muito complicada e muito longa. Temos três meses em que não disputamos nada, estamos ali num pavilhão até que a liga comece em abril. Essa foi a minha maior dificuldade.
ZZ: Convido-te a resumir os dois anos e meio no Honka?
RM: Adaptei-me bastante bem. Identifiquei-me bastante com a cultura do clube e houve uma forte conexão entre todos. Não posso falar já sobre isso, porque sou novo, mas não me importava nada de voltar lá no futuro. Se depender apenas de mim, um dia vou lá voltar. Foram dois anos incríveis, dentro e fora de campo. Conheci muitas pessoas, fiz muitas amizades e é um país e um clube que jamais esquecerei. Aprendi muita coisa, sobretudo a ser uma pessoa diferente. Foi uma etapa bastante importante para mim.
ZZ: O último ano no Honka abre-te a porta de um histórico da liga sueca, o AIK. Como surgiu essa possibilidade?
RM: Desde o primeiro contacto que tive do AIK, eu queria vir diretamente para aqui. As pessoas não têm perfeita noção do que é o AIK. É um clube muito grande, tem muitos adeptos, tem estrutura muito boa e infraestruturas muito evoluídas. O estádio é absurdo! Todos os jogos em casa metemos 33-34 mil pessoas e isso foi algo que procurei quando sai da Finlândia. Tudo isso pesou bastante na minha decisão. Tive outras propostas de países nórdicos, da Dinamarca e Noruega, mas decidi vir para a Suécia. O AIK é um clube com muita história e isso pesa para os jogadores. A história não joga, mas faz-te ter uma crença de que podes conquistar também algo.
ZZ: Jogas com alguns jogadores que já viveram experiências de Liga dos Campeões, Campeonatos da Europa, Mundiais, como o Jimmy Durmaz, o Guidetti e o Viktor Fischer… O que é que já te deu esta experiência?
RM: É importante porque vês de perto a qualidade deles e começas a ter maior noção do que necessitas para chegar a certo nível. Esses jogadores estiveram em patamares altos e tentas adaptar o teu jogo à qualidade deles. É algo muito bom.
ZZ: Para quem não tem qualquer conhecimento sobre o campeonato sueco, como é que apresentas a liga?
Rui Modesto, jogador do AIK
RM: A liga sueca é muito competitiva entre os grandes clubes. Sinto que a liga está dividida. Há o AIK, o Hammarby, o Djurgarden, o IFK Goteborg e o Malmö, que são equipas muito competitivas, com muito bons jogadores e de nível competições europeias. Por exemplo, o Malmö defrontou o SC Braga na Europa na época passada e acabou a liga no 7.º lugar. Isso mostra o que é a liga sueca. Já se joga um futebol de alguma qualidade para a visão do adepto que está habituado a ver o futebol português. Estas equipas estavam preparadas para disputar a liga portuguesa. Não digo para ganhar, mas para estar presente. Em relação às outras, é mais luta pela sobrevivência. Não têm um orçamento tão alto e o nível baixa um pouco.
ZZ: O AIK lutava por que posição na liga portuguesa?
RM: É complicado. As pessoas podem julgar-me [risos]. Começámos a liga mal, o que não e habitual no clube, mas temos uma boa equipa. A qualquer momento pode acontecer qualquer coisa. É difícil prever….
ZZ: Lutava pela Europa?
RM: Não sei, não sei… Em Portugal há muita qualidade! Quem está a lutar pela Europa?
ZZ: Vitória SC, Arouca…
RM: Penso que seria competitivo.
Os adeptos do AIK são muito fervorosos @Getty /
«Liga portuguesa? Não é algo que mexa comigo…»
ZZ: Há 4-5 anos estavas a jogar em Vendas Novas e agora estás no AIK. Como olhas para trás? Sentes que valeu a pena?
RM: Valeu a pena. Nunca desacreditei totalmente e diverti-me muito. Depois, se fores suficientemente bom, alguém vai ver-te. É preciso manter o foco e acreditar, porque no futebol tudo pode acontecer. Tudo é possível! O tempo decide o resto.
ZZ: Para quem não conhece o teu futebol, como te apresentas enquanto futebolista?
RM: Sou um ala. Na minha opinião, sou mais um extremo, mas jogo a ala. Tenho bastante velocidade e condição física, algo que me ajuda bastante. Considero que tenho um bom cruzamento e finalizo bem. Não sou um jogador muito técnico, mas decido bem no último terço.
26 ttulos oficiais
| 4 | |
| 1984, 1985, 1987, 1994 | |
| 12 | |
| 1900, 1901, 1911, 1914, 1916, 1923, 1932, 1937, 1992, 1998, 2009, 2018 | |
| 8 | |
| 1949, 1950, 1975/76, 1984/85, 1995/96, 1996/97, 1998/99, 2009 | |
| 1 | |
| 2010 | |
| 1 | |
| 2005 |
ZZ: Tens sido sempre titular e sempre a jogar os 90 minutos. Isso diz muito da tua adaptação ao futebol sueco…
RM: Quando és contratado, tens noção do que pode ser o teu papel, mas depois tens de provar. A minha ideia foi sempre de vir para jogar e estou a trabalhar e a manter aquilo que foi prometido. Tinha na cabeça que ia jogar e não me sinto surpreendido, porque era algo que previa. Mas é sempre um desafio. Aqui a pressão é diferente… Aliás, aqui há pressão!
ZZ: Como foi lidar com isso?
RM: Não estava habituado. São muitos fãs. Desde o primeiro dia em que o meu nome foi lançado na imprensa como possível reforço do AIK, eu recebi 300 mensagens nas redes sociais. Só isso demonstra a grandeza do clube e o que ele significa para os adeptos. Tem sido uma experiência muito boa.
ZZ: Tens contrato ate 2025, o que esperas que esta experiência te dê no futuro?
RM: Sinceramente, espero aprender ainda mais neste grande clube. Penso simplesmente em aproveitar todo o tempo em que estou aqui e em cumprir sempre com o meu dever, que é dar o máximo. Neste momento não penso tanto naquilo que possa ser o futuro. Acredito apenas que o futuro vai ser bom e que posso ser um jogador importante aqui.
ZZ: A Liga portuguesa é um objetivo a longo prazo?
RM: Para ser sincero, não é algo que mexa muito comigo. Como é obvio, há clubes enormes em Portugal e o futebol está num nível mais elevado, mas não tenho em mente voltar. Gostaria de ter a oportunidade, não vou mentir, mas neste momento estou num grande clube e a partir daqui posso pensar ainda maior. Acredito que vou estar preparado, mais uma ou duas épocas, para patamares até superiores do que uma Liga portuguesa no seu conjunto geral. Mas, lá está, não sabemos o futuro e a porta de Portugal estará sempre aberta.
![]() |
Rui Modesto 1 ttulos oficiais |
ZZ: O que é que o Rui de hoje diria ao Rui que começou a aprender futebol com o irmão mais velho?
RM: O mais importante é divertirem-se enquanto estão a jogar futebol. Quando te divertes sentes-te mais feliz e é quando estás feliz que atinges a tua melhor performance e é aí que aparecem os contratos e as oportunidades. Por isso, divirtam-se!
ZZ: O que esperas que se diga do AIK e do Rui Modesto no final da época?
RM: Que dei 100%, que trabalhei todos os dias e que contribuí bastante para o sucesso do AIK. Não estamos a começar da melhor forma, mas ainda faltam muitos jogos, então há tempo para melhorar.
@AIK
Crédito: Link de origem




Comentários estão fechados.