Estrelas do mundo crioulo brilham na Ilha do Sal – África

A ilha do Sal, em Cabo Verde, acolheu a primeira edição do Sal Kriol Jazz Festival nos dias 7 e 8 de julho em Santa Maria.

O Kriol Jazz é um evento que conta já com doze edições na cidade da Praia, na ilha de Santiago. Por este festival criado em 2009 por José da Silva, antigo manager e responsável pela carreira de Cesária Évora, passaram muitos nomes internacionais, como Manu Dibango, Kátia Guerreiro, Ismael Lo, Chico Cesar, Richard Bona, Esperanza Spalding, Stanley Jordan, Seu Jorge, Cuca Roseta, e em abril deste ano, Bamba Wassoulou Groove e Dee Dee Bridgewater. Um projeto bastante sólido, que agora se expande à ilha mais turística de Cabo Verde. O Sal Kriol Jazz Festival (Sal KJF) faz a sua estreia com um cartaz que inclui quatro nomes de Cabo Verde: Pret & Bronk, Os Tubarões, Mírri Lobo, e Carmen Souza. E quatro nomes internacionais: Da Costa do Marfim chega a cantora e baixista Manou Gallo. Do Haiti, Jowee Omicil. Dos Estados Unidos, Kahil El’Zabar. Também do continente africano, O Trio 368 Degrés, formado por elementos dos Camarões, Costa do Marfim e Mali.

O palco do Sal KJF foi inaugurado pelos Pret & Bronk, a banda de Kahly, músico que em 2010, com dezassete anos, fez parte da banda de Cesária Évora. Vamar Martins foi o convidado especial dos Pret & Bronk para participar num concerto em que os temas tradicionais de Cabo Verde foram trabalhados de uma forma especial para o evento de jazz. A banda foi formada com um conceito ligado a ‘Covers’ e improvisos, mas Khaly sentiu a necessidade de compor novos temas. “As primeiras composições que fiz para a banda eram sempre viagens muito estranhas. Havia que encostar um pouco à terra. O José da Silva falou connosco e disse-nos que podíamos abrir mais portas com este conceito. Como gosto de desafios, foi o que fizemos. Pegámos na tradição, nas raízes, explorámos e temperámos à nossa maneira, e o resultado está à vista”, revela Khaly, sobre uma atuação muito bem conseguida no espírito do festival.

Os Tubarões foram a segunda banda a entrar em palco, e a reação foi imediata da parte do público com os primeiros acordes de ‘Somada’. Não faltaram os temas ‘Tabanka’, ‘Missão d’Service’, ou um ‘medley’ composto por ‘Mula Mansa’, ‘Ca Fila’ e ‘Tunuca’. “Os clássicos dos Tubarões foram bem acolhidos. O pessoal reconhece as músicas, mas fica sempre surpreendido com os arranjos que fazemos, como os três funanás seguidos. O nosso projeto é continuar como estamos. Como amigos. Não somos uma banda profissional. Somos amadores, mas trabalhamos a sério”, reage o percussionista da banda, Jorge Lima. Houve espaço para um novo tema, do vocalista Arlindo Rodrigues, ‘Es agu ki lebabu’, e claro, para ‘Djonsinho Cabral’ e ‘Porton di nos Ilha’. Arlindo, apesar de ser a voz mais recente da banda que ficou marcada por Ildo Lobo, encheu o palco como um tubarão.

Depois de duas bandas cabo-verdianas, chegou o momento das prestações internacionais. Manou Gallo e Jowee Omicil. A baixista e cantora da Costa do Marfim, que chegou a tocar com James Brown, levou o seu ‘Afro Groove Queen’, e os temas ‘Malunouka’, ‘Abj’, ou ‘Djedje’.  A fechar a noite foi a vez de Jowee Omicil. O saxofonista do Haiti, foi incansável durante o concerto inteiro, puxando pelo público ainda presente, chegando mesmo a descer do palco para tocar e dançar. Durante a atuação fez questão de sublinhar que assim que recebeu o convite para o festival, não hesitou e aceitou. No concerto interpretou ‘Angola’, gravado por Cesária Évora. E do saxofonista cabo-verdiano, Luís Morais, os temas ‘Pipilita’ e ‘Boas Festas’. Não é a primeira vez que Jowee Omicil toca em Cabo Verde, já marcou presença em edições do Kriol Jazz Festival na cidade da Praia. “O sentimento do povo cabo-verdiano é incomparável. Não nos podemos esquecer que nos deu como prenda Cesária Évora e também um grande maestro, Luís Morais. E muitos outros. É um povo que não para de oferecer. Mesmo hoje temos cantores magníficos, como Lura e Dino d’Santiago”, afirmou Jowee Omicil após o concerto que encerrou a primeira noite do festival.

A segunda noite do Sal KJF começou com um artista da casa, Mírri lobo. Aproveitou o momento para apresentar o disco Salgadim (Salgadinho, como se identificam os Salenses em jeito de brincadeira), que saiu pouco antes do aparecimento da pandemia de Covid-19, em 2020. O Sal KJF foi o palco perfeito para o apresentar ao vivo, sem esquecer temas mais antigos como o sucesso ‘Encomenda de Terra’ ou ‘Passion’.

Carmen Souza e Theo Pascal deram um concerto em que apresentaram o recente disco Interconnectedness, que inclui os temas ‘kuadru pintadu’, ‘Dja Txiga’, ou ‘Gratidon’. Aínda recuperou algumas músicas do álbum anterior, um tributo a Horace Silver. “Já tinha saudades de tocar em Cabo Verde. Porque é aqui a minha origem, a minha música é toda cantada em crioulo, então faz todo o sentido. Passo a vida a cantar o crioulo lá fora, e é bom voltar a casa e sentir-me abraçada pelos cabo-verdianos também”, referiu a cantora cabo-verdiana, que acabou o concerto muito aplaudida pelo público ‘salgadim’.

O festival ganhou outra dimensão com a entrada em palco do Trio 368 Degrés. Por muitos considerado o melhor baterista africano, o costa-marfinense Paco Sery. Esteve no Kriol Jazz, na cidade da Praia em 2016, onde deixou o público da capital cabo-verdiana encantado com a sua atuação. A este baterista juntaram-se mais dois grandes nomes da música africana. O baixista Guy Nsangué Akwa, dos Camarões, que já trabalhou com os Kassav, Mory Kanté, Alpha Blondy ou Salif Keita. E nas teclas Cheick Tidiane Seck, um compositor e multi-instrumentista do Mali, que tem no seu percurso trabalhos realizados com Santana, Taumani Diabate, Dibango, Salif Keita, entre outros. O trio em palco deu a máxima energia ao festival. Uma das particularidades do concerto foi a participação de cinco bateristas cabo-verdianos que, juntamente com Paco Sery, tocaram a mesma bateria durante uma música. Um atrás de outro, iam-se revezando, tocando cada um por duas ou três vezes. Com estilos variados, com diferente intensidade, mas sempre bem encaixados na música. Um concerto que deixou os músicos, e os espetadores, satisfeitos. “Adoro este público e o calor que transmite. Um público generoso. Volto a agradecer mil vezes, ao José da Silva, que nos convidou para partilhar este momento de música e vida com a população do Sal. O Kriol Jazz é uma grande janela aberta para o mundo, divulgando a cultura crioula, e dos afrodescendentes”, disse Cheick Tidiane Seck depois de deixar o palco, e antes da atuação que iria fechar o Sal KJF, com o percussionista norte-americano Kahil El’Zabar, que interpretou a sua homenagem a Don Cherry. Na voz esteve Dwight Trible com o seu característico jazz espiritual.

Para o diretor do festival, o balanço foi positivo, apesar das dificuldades de ser a primeira edição. “A nossa ideia é ficar no Sal. Fazer mais edições. Mostramos às pessoas o que é o festival e o seu rigor no trabalho. Correu bem, penso que as pessoas já entenderam, e o próximo vai correr melhor”, é a garantia deixado por José da Silva, que agradece a confiança depositada na organização do Sal KJF.

Crédito: Link de origem

- Advertisement -

Comentários estão fechados.