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Para o professor de Economia da Universidade Central da Venezuela (UCV) Elio Códova Zerpa, um processo de desdolarização interna, que implicaria em um resgate de confiança na moeda nacional, poderia auxiliar na recuperação do poder de compra dos venezuelanos, mas tal movimento deveria ser acompanhado por medidas econômicas e políticas tomadas pelo governo.

“O que o venezuelano quer é estabilidade, tranquilidade, que seu salário possa chegar até o fim do mês e, nesse contexto, a desdolarização aponta para isso se nós pudermos chegar a um acordo e estabelecer mecanismos de compensação nesse bloco de economias emergentes. Claro que, em paralelo, deve ser feito um trabalho interno de estabilizar uma economia que tem mais de 930 sanções e que a principal fonte de ingressos, o petróleo, não pode ser vendida livremente”, afirma.

O professor também alerta para os riscos inflacionários que uma retirada massiva de dólares da economia sem planejamento poderia trazer, principalmente nesse momento em que o país, apesar de ter abandonado a hiperinflação há um ano e meio, ainda sofre com a pior inflação do continente. Segundo dados do Banco Central da Venezuela, a inflação interanual registrada no mês de maio ficou em 429,2%. Para efeitos de comparação, a Argentina, que possui o segundo pior índice da região, registrou no mesmo período um aumento interanual nos preços de 114,3%.

Zerpa, no entanto, afirma que sair da esfera do dólar de maneira controlada poderia trazer benefícios inclusive para conter os preços em moeda local. “A recente valorização do dólar significa o empobrecimento do resto das moedas, então a taxa de câmbio se move e, em consequência, os preços sobem em moedas locais. Esse fenômeno ocorre de maneira independente dos problemas estruturais da nossa economia”, diz.

Entre o político e o econômico

A relação do governo do presidente Nicolás Maduro com o processo de dolarização foi, ao longo dos anos, repleta de mudanças. Entre 2014 e 2017, período em que o país entrou em recessão e começou a sentir os efeitos nocivos da queda nos preços do barril de petróleo, o mandatário classificava a entrada de dólares na economia comercial do país como uma tentativa de desestabilização que partia dos Estados Unidos.

Nesse momento, a Venezuela ainda mantinha um rígido controle cambial que proibia a livre transação de moedas estrangeiras e mantinha todos os dólares sob controle do Estado, obrigando empresas e pessoas físicas a negociarem diretamente com as autoridades através da Comissão Nacional de Administração de Divisas (Cadivi), substituído em 2014 pelo Centro Nacional de Comércio Exterior (Cencoex).

O mecanismo, criado em 2003 pelo então presidente Hugo Chávez para impedir a fuga de capitais durante o locaute petroleiro daquele ano, foi praticamente abolido em 2019, após o Banco Central adotar uma política de câmbio flutuante e operar em mesas de câmbio através dos bancos nacionais. Na prática, a decisão do governo Maduro liberou os dólares na economia, o que foi formalizado em 2021 com a autorização para abertura de contas bancárias em moeda estadunidense.

As mudanças nas normas vieram acompanhadas de uma mudança no discurso do governo, já que o presidente venezuelano deixou de lado o discurso confrontativo contra a moeda estrangeira e passou a classificar o processo com mais pragmatismo, chegando a afirmar que ele era “uma válvula de escape”.

“São contradições que devem ser entendidas nos diferentes contextos políticos”, afirma o ex-ministro Luis Salas Rodríguez. Para o economista, o termo correto para classificar as transformações monetárias que ocorreram no país seria “desbolivarização”, já que foi a moeda nacional que foi sendo substituída por outras divisas, inclusive pelo peso colombiano e pelo real brasileiro nas regiões de fronteira. “A nível comercial, claro, podemos dizer que há uma dolarização espontânea, parcial, mas esse fenômeno é típico de qualquer processo de hiperinflação ao longo da história”, diz.

Rodríguez explica que o governo reconheceu e normalizou a utilização de dólares na economia com o objetivo de conter a hiperinflação, uma vez que precisava reduzir a liquidez monetária em bolívares sem que isso implicasse em uma redução drástica no consumo. 

“O governo fez do problema da dolarização uma virtude para poder aplicar uma política anti-inflacionária que previa uma restrição máxima na circulação de bolívares, algo que geraria uma contração econômica pelo choque na demanda. Essa brecha foi resolvida pelo uso do dólar, que permitiu manter certa dinâmica na economia”, afirma.

No entanto, o ex-ministro aponta que a solução começa a demonstrar efeitos colaterais, já que o plano está diretamente associado à restrição de liquidez e, em consequência, um aumento de bolívares na economia poderia implicar em um novo processo inflacionário.

“O governo está sofrendo o vício de sua própria virtude, ou seja, sofrendo com efeitos colaterais de seu próprio êxito. Foi uma política que teve êxito no momento de combater a hiperinflação, mas como se baseia em uma restrição de bolívares, qualquer medida de estímulo ao bolívar pode disparar um novo processo inflacionário”, diz.

Para Rodríguez, essa contradição na política econômica do atual governo seria um dos principais obstáculos a uma iniciativa de desdolarização. “Se vamos desdolarizar, precisamos aumentar os meios de pagamentos em bolívar e isso pode disparar a inflação. O Banco Central não pode emitir mais bolívares se não resolver os problemas estruturais de reserva que estão diretamente ligados às sanções. Retirar todos os dólares da economia de maneira massiva e sem um plano é impossível”, conclui.


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