As memórias de quem saiu do país e de quem está em busca de uma vida melhor

Cultura

Quatro artistas apresentam este sábado em Vouzela o resultado das suas residências artísticas ao abrigo do projeto “Ecos da Ida e do Retorno”, após duas semanas de trabalho na região. Iniciativa da Binaural Nodar é dedicada às migrações e às suas implicações estéticas e sensoriais através de sons, imagens e sabores

Fotógrafo: Facebook/Binaural Nodar

Quatro artistas que passaram os últimos dias na região de Vouzela vão apresentar este sábado (17 de junho) o resultado das suas residências artísticas no âmbito do “Ecos da Ida e do Retorno”, um projeto dinamizado pela associação cultural Binaural Nodar e que se dedica às migrações e às suas implicações estéticas e sensoriais através de sons, imagens e sabores.

Os artistas Lucía Chamorro e Ricardo Arbiza (Uruguai), Riikka Haapasaari (Finlândia) e Silvia Angles (Argentina) revelam o trabalho final dos seus trabalhos num evento comunitário, artístico e gastronómico agendado para as 17h30 no Largo Moraes de Carvalho e na Igreja de São Frei Gil.

Segundo Luís Costa, coordenador da Binaural, os artistas “estiveram durante duas semanas” em Vouzela a refletir sobre “a temática da migração e dos fluxos migratórios, não só a tradicional emigração da região de Viseu para países como Suíça, França ou Luxemburgo mas também a imigração recente que está a chegar à nossa região”.

“Aqui em Vouzela, temos uma série de alunos de São Tomé e Príncipe na Escola Profissional. Obviamente, a comunidade brasileira está a crescer na região de Viseu. No fundo, quisemos refletir sobre as idas e os retornos dos processos migratórios. O que vai acontecer são três apresentações que vão assumir formas diferentes”, explicou ao Jornal do Centro.

Uma das apresentações, a cargo de Lucía Chamorro e Ricardo Arbiza, consiste numa instalação sonora “com sons de paisagem e de entrevistas realizadas com migrantes, quer os portugueses que emigraram quer os recentemente chegados de fora”. A instalação no Largo Moraes de Carvalho transformará também os sons da própria paisagem sonora do próprio evento e será transmitida em streaming para a rádio do Festival de Arte Sonora de Montevideu (Uruguai), Monteaudio.

“Temos também um espetáculo de piano, voz, paisagem sonora e vídeo da compositora argentina Silvia Angles na Igreja de São Frei Gil (dedicado às memórias gastronómicas). Depois, vamos ter uma confraternização com sabores oriundos de São Tomé e Príncipe, Brasil, Venezuela e Argentina. É um momento de partilha absolutamente grátis para quem quiser vir e que vai incluir um showcooking da Escola Profissional de Vouzela”, disse Luís Costa.

O convívio gastronómico também vai incluir uma exibição de danças de São Tomé e uma atuação do Grupo de Cavaquinhos de Ventosa, uma aldeia que fica perto de Vouzela.

Depois dessa confraternização, acrescentou o coordenador da Binaural, a Igreja de São Frei Gil apresenta o resultado do trabalho de Riikka Haapasaari, que fez um pequeno filme “sobre as idas e as voltas, mas na perspetiva de uma matéria que está muito presente na nossa região, o granito, com as casas abandonadas nas aldeias e o granito da Serra do Caramulo”.

O programa termina com a exibição, em parceria com o Cine Clube de Viseu, de uma curta-metragem que tem como pano de fundo uma aldeia de Lafões: “António, lindo António” de Ana Maria Gomes, um documentário que procura saber as razões pelas quais o tio da realizadora, que partiu há 50 anos para o Brasil, nunca mais voltou à sua aldeia natal no concelho de São Pedro do Sul, para indignação da mãe e dos irmãos. O evento terminará antes das 21h30.

Recordar os que saíram para depois acolher os que vêm cá

Os trabalhos apresentados resultam da terceira residência artística do “Ecos da Ida e do Retorno”, um projeto cultural que teve início há cerca de um ano e meio. Luís Costa adiantou que vai arrancar em breve uma quarta residência “que começa a partir de 25 de junho e acaba no dia 8 de julho na aldeia de Nogueira de Côta, em Viseu, sobre a mesma temática” das migrações.

No ano passado foram feitas duas residências, cujo trabalho incluiu ainda “um ciclo extenso de entrevistas e recolhas de fotografias” com antigos emigrantes de Côta, no concelho viseense. Um trabalho que está agora visível numa exposição patente no Museu do Linho de Várzea de Calde.

A iniciativa propõe criar laços de partilha entre os artistas e as pessoas que são entrevistadas e que contam as suas histórias de vida e de migração. Uma ligação que é facilitada, sublinha Luís Costa, pelo facto de alguns artistas serem eles próprios filhos de emigrantes que vieram de países como Espanha, Itália e Suíça. “Eles têm a sua própria história pessoal ligada a essa emigração e simpatizam-se facilmente com quem viveu ou está a viver a mesma situação”, conta.

Para já, o balanço é positivo. O projeto tem vindo a trabalhar em concelhos notórios pela sua atividade migratória como Vouzela, Viseu e Castro Daire e já recolheu dezenas de entrevistas que são depois publicadas no arquivo digital que a própria Binaural mantém e que já tem “quase 2.000 registos e tem uma parte precisamente dedicada à emigração”.

“Este tema pode ser visto sob múltiplas perspetivas como a gastronomia dos países para onde as pessoas emigraram, a música, a dança, os cheiros e a paisagem e foi um pouco esse o nosso objetivo, nomeadamente através das residências artísticas para onde acabaram por vir cerca de 15 artistas trabalhando sobre vários aspetos ligados à emigração”, acrescentou.

O coordenador da Binaural revela ainda que um dos objetivos do “Ecos da Ida e do Retorno” é revelar como a emigração vive tão intrinsecamente dentro das famílias da região, o que, a seu ver, pode ajudar no acolhimento de imigrantes que saem dos seus próprios países à busca de uma vida melhor.

“Quase todos na região de Viseu têm primos, pais, filhos ou familiares que emigraram ou que estão emigrados e o nosso dever também é, precisamente porque vivemos durante tantos anos a emigração das nossas famílias, acolhermos bem quem está a chegar porque são pessoas e famílias que estão com o mesmo desejo de poderem ter uma vida positiva a nível económico, social e de bem-estar. Este projeto também tem esse fim, chamando a atenção para cuidarmos bem destes novos migrantes que estão a chegar à região de Viseu”, sustentou.

Em novembro, a equipa da Binaural Nodar vai estar na Argentina e no Uruguai a apresentar o “Ecos da Ida e do Retorno” às comunidades portuguesas que estão a viver nos dois países. Um momento que Luís Costa antevê como “muito emocionante, porque podemos cruzar o Atlântico e mostrar à diáspora portuguesa que existe uma associação da região de Viseu que dedica parte da sua atenção a estas vidas da emigração”.



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