“Tenho de provar que os direitos humanos vendem”

É presidente da Associação Corações com Coroa, que está a festejar 11 anos. Valeu a pena criar esta organização?

Claro que sim. Todos os dias sinto que vale a pena lidar com adversidades, obstáculos a gerir e ser presidente de uma pequena grande equipa, mas que aquilo que faz é investir nas pessoas, não tem lucro. O lucro é medido pela capacidade que estas mulheres, raparigas e meninas têm, depois, de reerguerem as suas vidas, serem empoderadas e terem autonomia, financeira também, mas, sobretudo, terem a sua saúde mental tratada, questões muitas delas relacionadas com violência doméstica, com parentalidade difícil, com dificuldades em fazer a gestão com os próprios filhos, a saúde, enfim… Quando as vemos reerguerem-se, irem-se embora e já não precisarem dos nossos serviços gratuitos, todas as dores de cabeça para conseguir os financiamentos passam porque, depois, vemos o resultado. Em 11 anos informámos, apoiámos, capacitámos e reerguemos 699 mulheres que nos procuraram através dos nossos serviços de atendimento na área da psicologia, do serviço social, do apoio jurídico, do apoio dentário – até mesmo, às vezes, para saberem defender os seus próprios direitos, fazerem um currículo, preencherem o IRS, procurarem trabalho, habitação, justiça. Já levámos a tribunal agressores. Somos uma protecção social. E que vem colmatar muitas falhas…

Sim, do sistema, do Governo. É importante que o sector social tenha mais união, porque os recursos financeiros são poucos. Aqui, tenho uma empresa social, sou voluntária, evidentemente, trabalho arduamente com muito gosto e brio, mas nós pagamos aqui, fixos, oito ordenados. As 34 bolsas de estudo que já demos a jovens raparigas, universitárias, neste momento, muitas destas raparigas já estão inseridas no mercado de trabalho, porque damos apoio biopsicossocial, não é só fazer a transferência do dinheiro. É acompanharmos permanentemente.

Orientá-las, porque elas vêm de enquadramentos socioeconómicos familiares muito vulneráveis e precisam deste apoio social, deste apoio psicológico, para concretizarem os seus sonhos e potenciarem aquilo que têm para dar à sociedade. Na verdade, estas 34 bolseiras, depois, dão à sociedade aquilo que se propõem e realizam os seus sonhos em áreas tão diferentes como a gestão, a economia, medicina, direito, desporto… A Jéssica Silva é nossa bolseira.

A futebolista do Benfica.

Exactamente. Apareceu-nos aqui há dez anos, vinda de uma professora – normalmente, são os professores, assistentes sociais ou tutores que vêem potencial nessas raparigas , mas que não têm capacidade para seguir. Foi uma professora da Jéssica, há dez anos, quando ela estava num clube amador, que nos disse que ela não tinha capacidade financeira nem psicológica. Precisava de um empoderamento, de acreditar em si. Tinha o mais importante: talento e vontade.

Precisava que acreditassem nela?

Exactamente, e ela diz isso: “Vocês acreditaram em mim mais do que eu.” Hoje em dia é a jogadora que é, tem um percurso extraordinário fora de Portugal, agora está no Benfica e vai ao Mundial.

É uma grande vitória ver essas 699 mulheres mais as 34 bolseiras…

[interrompe] Mais os 11 mil alunos e alunas que nós tocámos em 175 escolas do país que percorremos contra a violência no namoro, porque os dados em Portugal são gritantes e vergonhosos.

É uma vitória ver essas pessoas aqui voltarem, depois de refazerem as suas vidas, e agradecerem pela ajuda?

Não estou nada à espera de agradecimento. Muitas vêm cá, mas não é para agradecer. Se estivermos todos à espera de agradecimento, fazemos muito menos. As pessoas têm de fazer pela verdade e pela convicção. Eu faço porque acredito mesmo que é possível termos uma sociedade mais empática, mais atenta às dificuldades uns dos outros e mais rápida nas respostas sociais. Enquanto embaixadora das Nações Unidas vi muitas desigualdades, sobretudo com base no género. Há 23 anos a fazer isto, eu queria em Portugal colmatar, ainda que seja uma gotinha, essas desigualdades com base no género. Não estou à espera de agradecimentos, estou à espera que essa pessoa depois reerguida e inserida na sociedade contribua também com o seu valor. Por isso é que o nosso lema é “apoiar uma mulher é apoiar uma família, uma comunidade, um país”, porque essa bola de neve acontece no terreno.

Sente uma evolução nestes 11 anos?

A História diz-nos que não estamos piores do que estávamos antes. Mas não quero colocar aqui a responsabilidade de termos sido nós… teremos tocado, ajudado, empurrado nas questões dos direitos das raparigas e das mulheres em Portugal, até porque não nos calamos e trabalhamos muitas vezes, também, com parlamentares e fazemos a nossa acção de advocacy junto da sociedade civil. O que eu sinto, e isto não é uma coisa só portuguesa, é que nós temos de ser mais vigilantes. Os direitos humanos estão identificados e assinados, mas não estão garantidos, e muito menos estarão os direitos das meninas e das raparigas e das mulheres.

Há muita indiferença de terceiros?

Não, acho que há medo em relação aos direitos das mulheres, e se nós virmos em muitos países que até já tinham assegurado os direitos, como o Irão, que era um país desenvolvido, neste momento as raparigas nem sequer podem estudar; vemos no Afeganistão, mas em Portugal e na Europa também assistimos a ventos que são bastante extremistas e que tendem a demonstrar o seu receio em relação aos direitos e à igualdade de género. Eles não estão adquiridos e isso faz com que nós tenhamos de ser vigilantes para que não os percamos, para que haja esta sociedade igualitária. Nós só temos a ganhar. E estão provadas coisas boas e más. Está provado que são necessários 135 anos para existir no mundo inteiro uma igualdade de género efectiva. Também está provado que quando há um investimento nas mulheres acontece, depois, uma repercussão positiva na sociedade, até a nível económico. Também está provado que quando uma mulher é apoiada, ela imediatamente coloca os seus filhos sob cuidados de saúde e sempre na escola. Ora, isso não acontece quando são os pais que ficam sozinhos com os seus filhos.

Sim. As mulheres têm mesmo de ter a mesma oportunidade de fazer as suas escolhas. Isso vai fazer com que nós todos, enquanto sociedade, tenhamos uma qualidade de vida muito superior.

E quando acha que isso vai acontecer?

Os estudos dizem 135 anos. Na nossa conferência, o Miguel Esteves Cardoso disse algo muito interessante. “Sou um optimista, não sou um pessimista. Os pessimistas são cobardes; os optimistas são estúpidos mas, ao menos, fazem.” Nós, optimistas, sabemos que nos vamos desiludir. A certa altura pintamos a manta toda bonita e depois pensamos, “lá vem um governo de extrema-direita que quer tirar daqui os emigrantes, trata as pessoas com discriminação e racismo, as mulheres são para estar na cozinha”. Aparece-nos isto. Somos estúpidos porque sabemos que nos vamos desiludir, mas somos corajosos. Os optimistas são corajosos, os pessimistas são cobardes. Porquê? Porque já sabem que a coisa vai sempre correr mal e não arriscam. Respondendo, provavelmente, a estimativa dos 135 anos está certa, mas eu acredito que em menos.

Há pouco disse que tem estabelecido diálogo com parlamentares mas, tendo em conta a última resposta, presumo que não fale com todos os partidos.

Falo com quem quer ouvir. Eu, enquanto embaixadora do Fundo das Nações Unidas para a População, que trata as questões da saúde materna e neonatal, da saúde sexual e reprodutiva, do planeamento familiar voluntário, da criação de apoio aos censos nos países em desenvolvimento e do potencial dos jovens, trabalho muito com os parlamentares sobre população e desenvolvimento. Os deputados que estão lá fazem parte deste grupo de população e desenvolvimento. E trabalho com todos.

Todas as forças partidárias estão representadas nesse grupo?

Investigue e depois diga-me. [risos]

Em 2000 foi nomeada por Kofi Annan embaixadora da Boa Vontade da ONU e foi agora homenageada pelo Fundo das Nações Unidas para a População pela sua luta pelos direitos das mulheres e meninas…

É um privilégio poder ter tido este mandato. Em 2000 era muito nova, tinha 28 anos. Apesar de o meu pai ser jornalista e de pertencer a uma família formada, estava longe de imaginar que a desigualdade de género fosse tão gritante e que quem mais sofresse no mundo fossem as meninas, as raparigas e as mulheres. Porquê? Porque são as que vão menos à escola, são vítimas ou sobreviventes de casamento precoce e forçado, de gravidez adolescente, de mutilação genital. Todas estas questões fazem com que haja uma fatia gigante da população que não veja os direitos reconhecidos. A causa maior de morte na adolescência é a gravidez adolescente não intencional porque não há vontade política de fazer uma saúde sexual e reprodutiva e planeamento familiar voluntário adequado para prevenir. Ninguém quer saber da saúde sexual e reprodutiva das raparigas e das mulheres. Em países em desenvolvimento, as mulheres têm muito mais filhos do que gostariam. Não há prevenção. E em países desenvolvidos como o nosso, se calhar, as mulheres gostariam de ter até mais filhos, mas não há protecção social. Passando este devaneio, foi uma sorte, porque me permitiu ler relatórios, estudar, ficar a par e, depois, ir ao terreno. Temos como obrigação no nosso mandato inventarmos projectos para colocar estas temáticas no centro das atenções: junto da imprensa, junto dos parlamentares e também junto do sector privado, das empresas, para poderem exercer a sua responsabilidade social, e junto das escolas e das universidades, para ajudar a consciencializar os jovens. Comecei a ler e foi daí que inventei o formato “Príncipes do Nada”. Propus há 17 anos à RTP fazer documentários que mostrassem a realidade, mas na perspectiva optimista. Mostro que aquilo está mau, que, a cada dois minutos, uma mulher morre por causas evitáveis relacionadas com a gravidez e com o parto, vou lá e mostro. Na Guiné-Bissau, no Sudão do Sul ou na Índia. Mas, depois, também mostro o que está a ser feito por organizações não governamentais para evitar que estes dados sejam ainda piores. É sempre a dar a esperança. Há uma oportunidade de os investidores investirem, quem está à procura de apoiar o mundo, e há muita gente com muito dinheiro que pode fazer muito mais. A minha vontade é essa, mostrar onde se deve realmente investir para tornarmos o mundo menos pobre, porque também está provado que a pobreza reduz-se se houver um investimento certo na igualdade de género. Nesta nossa missão de embaixadores, passados cinco anos, temos uma avaliação e é-nos entregue uma carta que diz “muito obrigado pelo seu serviço com as Nações Unidas” ou “gostaríamos muito que continuasse”. E eu, ao longo destes anos todos, fui sempre recebendo. Sou a única portuguesa e fico assim toda vaidosa, porque já foram muitas as cartas recebidas. Já tive três secretários-gerais: Kofi Annan, Ban Ki-moon e, agora, o António Guterres.

Ainda se recorda como foi convidada?

Por carta. Foi o Kofi Annan.

As Nações Unidas têm um português como secretário-geral. Fala muitas vezes com António Guterres?

Não. Não mesmo. O eng.º António Guterres é o secretário-geral, que tem inúmeras agências. Ele é o chapéu destas agências todas. Não falamos muitas vezes, mas faço uma inconfidência: há pouco tempo fui convidada para moderar a cerimónia em que o eng.º António Guterres veio receber o honoris causa na Universidade de Lisboa. Pedi-lhe uns minutos para poder conversar sobre estas temáticas. Falámos, foi de uma grande acessibilidade, e pedi-lhe: “Por favor, não se esqueça do Fundo das Nações Unidas para a População.” Porque – e 23 anos dá-me autoridade para dizer isto – é das agências mais difíceis para conseguir financiamentos e sensibilizar os governos. Sabemos que, em determinados países, a igualdade de género é inexistente. E, em muitos desses países, quem é que quer saber de saúde sexual e reprodutiva? E quando vai um governo dos países ricos e financiador mais à direita, os primeiros orçamentos a serem cortados são os relacionados com estas questões da saúde sexual e reprodutiva. Porque se pensa, “ai, libertinagem, ai as mulheres, querem não sei quê”. Estamos a falar em prevenir mortes evitáveis, que as mulheres possam ter os filhos que querem para lhes dar condições. Às vezes, não é fácil angariar financiamento. Se eu fosse da UNICEF, qual era a dificuldade, diga lá.

Não teme que a crise social e económica que existe em vários países da Europa, e não só, leve a uma viragem à direita?

Temo, por isso é que não me calo.

Não acha que há uma grande diferença de cobertura mediática dos problemas do mundo ocidental em relação a outros países?

Acho imenso. Há 17 anos estava grávida da minha filha e fui fazer reportagens sobre o tsunâmi na Indonésia. Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor, Indonésia, Sudão do Sul, Haiti, Bangladeche, Índia, Líbano, Uganda, Gana e Egipto… são tudo países onde fui verificar in loco como são tratados os direitos das meninas, das raparigas e das mulheres. E percebo que essa cobertura nem sempre existe. Há uma tendência para cobrirmos aquilo que vende mais. Se há uma luta que não quero perder é que os direitos humanos têm de vender. Tenho de provar que os direitos humanos vendem porque, se não venderem, somos nós a não querer saber, a desligar-nos de uma responsabilidade como cidadãos. Eu tento dar a volta, dizer que é possível vender e é possível, com informação rigorosa, puxar o interesse dos espectadores. Vemos isso através do trabalho feito em canais privados e temáticos. Apesar de tudo, há um investimento ainda nas grandes reportagens – talvez não o quanto gostaríamos ou precisaríamos. O jornalismo tem de continuar a fazer o seu trabalho de denunciador, informador, e missionário também.

Teve formação, o seu pai é jornalista. Como vê o jornalismo em Portugal?

Não sou a pessoa certa…

Não é não querer, porque tenho pouco medo de coisas. O único medo que eu tenho mesmo, neste momento, é da morte e que aos meus filhos não lhes corra bem a vida. Só poderei responder enquanto consumidora, e se fosse jornalista teria uma opinião com mais autoridade. Em Portugal, ainda existem grandes reportagens, alguns jornalistas seríssimos, cuja ética é à prova de bala. E não são só os mais antigos, em que o meu pai está inserido. É necessário continuar a investir financeiramente no jornalismo. A própria sociedade civil tem de colaborar. Tem de se continuar a apelar para que o jornalismo seja financiado e não deixar que os jornalistas se sintam numa espécie de profissão em vias de extinção.

A sua mãe foi educadora do ensino especial?

A sua vertente humanitária provém um bocadinho da sua mãe?

Totalmente, porque comecei a fazer voluntariado quando tinha nove anos. A minha mãe foi professora do ensino formal durante muitos anos. Depois especializou-se no ensino especial e foi trabalhar com crianças e jovens com deficiência. Lembro-me de a minha mãe falar deles todos com tanto amor, e eu, muitas vezes, acabava por sair da escola e ir à escola da minha mãe. Mesmo ao fim-de-semana acabava por fazer parte das actividades e houve um dia, aos nove anos, que decidi pedir à minha mãe para fazer as férias de Verão em regime de voluntariado. No Verão, as escolas levam as crianças e os jovens às colónias na praia, na Costa da Caparica. A minha mãe ficou surpreendida porque eles eram maiores do que eu. E fui, durante todo aquele Verão, tomar conta de miúdos mais velhos. Decidiram que eu ia ficar com o Tó, um menino mais velho com trissomia 21. A minha tarefa era pôr o protector no Tó, descascar a maçã, levá-lo ao mar. Houve uma tarde em que ele disse que queria ir à água. A meio do caminho, o Tó pergunta se pode cumprimentar umas senhoras que estão deitadas na areia. O Tó chega, estende a mão e diz: “Olá, eu sou o Tó.” E uma das senhoras olha para o Tó e diz-me: “Tire-me isto daqui.” Fiquei chocada, foi uma flecha ao meu coração. Fiquei tão, tão indignada… Eu conto isto aos miúdos nas escolas, porque é como se tivesse sido ontem. Não sabia como havia de responder e… cuspi-lhe na cara. O Tó desatou a rir, começámos a correr, olho para trás e está a minha mãe a ver o cenário todo. Nessa noite falámos sobre estas questões, a discriminação, que eu não sabia que existia. Achava que todas as pessoas eram iguais. A partir daí começou a cimentar-se em mim uma vontade imensa de participar na construção de uma sociedade mais justa. Devagarinho, as coisas inclinam-se muito, digo isso muitas vezes aos miúdos nas palestras em que vou às escolas. Eu estava longe de me imaginar na televisão, queria ser bailarina e coreógrafa. Estas questões dos direitos humanos foram acontecendo e, passado não sei quantos anos, recebo aquela proposta para ser embaixadora das Nações Unidas. Claro que temos de trabalhar para isso e temos de provar. Não estamos cá para tirar fotografias com pessoas em situação de vulnerabilidade e pobreza. Não sou essa pessoa.

Em 2021, quando o movimento #MeToo começou a ser falado, denunciou que tinha sido alvo de assédio por três superiores hierárquicos. Presumo que não se tenha arrependido…

Pelo contrário. Não só não me arrependo como gosto de voltar a referir isso. São estes movimentos que vão separando o trigo do joio. São fundamentais estes movimentos de libertação e de consciencialização porque muitas das mulheres estavam em silêncio. Como eu estava em silêncio durante anos, numa dor.

Ajudou-a, denunciar isso?

Não, porque já era empoderada, mas há muitas mulheres que precisam destes movimentos para perceberem que o seu poder é muito maior do que aquilo que pensam. A mim, o que fez foi… quis fazer parte de uma onda que veio, por acaso, dos Estados Unidos, mas que em Portugal também há, como em todos os países. Então achei que era boa boleia participarmos todos e abrir a possibilidade de outras mulheres também dizerem, “a mim, também já me aconteceu”. E porque não disse antes? Porque não era empoderada, porque eu também, como não sei quantas mulheres, tive medo. Consegui graças ao apoio que tinha de poder voltar para casa no caso de ser despedida se fizesse alguma coisa ou se dissesse um não, como disse um não, como consegui dizer não, mas há muitas mulheres que não conseguem dizer não e eu não as julgo. Não julgo ninguém. Consegui dizer não porque, se me despedissem, ficava a viver em casa dos meus pais. Disse não com orgulho, mas com medo.

Não foi despedida em nenhuma dessas três vezes.

Nunca, consegui dar a volta. Consegui, mas não quero ser vista como uma grande acrobata porque consegui. Eu já tinha alguns laivos de direitos humanos. Fui criada numa família que me deu a conhecer os direitos que eu tinha, mas o medo pode toldar as nossas acções. E aproveitei esse movimento para dizer a mais mulheres: “Não tenham medo.” Estamos a falar, sobretudo no meu caso, com superiores hierárquicos. Muitas das mulheres são monoparentais. Em Portugal temos uma taxa gigante de mulheres que estão sozinhas com os seus filhos e que, se forem ameaçadas, se calhar, não dizem. E muitas delas fazem-no para proteger os filhos. Quem sou eu para julgar o que quer que seja? O que falta, no fundo, são denúncias, mas para haver denúncias tem de haver uma solidariedade e uma sororidade da sociedade para que estas mulheres tenham protecção.

Há pouco utilizou a expressão “separar o trigo do joio”. Teve, seguramente, mais do que três superiores hierárquicos. Não acha que há aí muita gente que não merecia estar nesse bolo?

Disse que foi alvo de assédio por três superiores hierárquicos. Ao longo da sua vida teve mais do que três superiores…

Sim, tive mais directores. E directoras. Mas queria ter tido mais directoras. Até nesse capítulo, a realidade em Portugal é muito pobre.

Vamos ver se consigo completar a pergunta. Teve muitos superiores hierárquicos. Não acha que ao dizer que foi alvo de assédio por três há muita gente que está metida ao barulho e, se calhar, não merecia?

A mim, nunca me interessaram os nomes.

Mas às pessoas que nunca fizeram nada e tiveram um comportamento normal…

Mas isso é a consciência de cada um. Ninguém vai para a praça pública com nenhum nome. Não estou a acusar ninguém e a pessoa que está imaculada na sua acção não vai sentir-se acusada.

Já foi ou é actriz, letrista, escritora, narradora, dobradora, coreógrafa, apresentadora, e fez um curso no Cenjor às escondidas do seu pai. Como se define? Comunicadora?

Por ordem cronológica, mulher, comunicadora e mãe… e activista. Mas, por ordem de importância, mulher e mãe.

Porque frequentou o Cenjor à revelia do seu pai e sem o apelido Furtado?

Ao longo da minha vida, sempre tentei tratar bem de mim. Sempre soube o que não queria e não sabia o que queria. Entrei com nove anos no Conservatório, saí com 18, formada pela Escola de Dança; depois ganhei uma bolsa de estudo para ser coreógrafa. Uma coisa que sempre fiz foi tentar proteger-me – o que é que me faz mal, sou um bocadinho controladora. Depois de ter ganho a bolsa para ser coreógrafa e de ter montado o meu espectáculo, no ensaio geral caí e fiquei impossibilitada de dançar durante seis meses. Aí pensei: “Não vou conseguir ficar parada tanto tempo, tenho de estudar e investir em mim.” E fui para Jornalismo. O Adelino Gomes, amigo do meu pai, num jantar falou no Cenjor e aquilo ficou-me, mas eu sabia que, para fazer um bom trabalho no Cenjor, teria de ir mais incógnita, senão, a pressão ia ser grande. Queria tentar provar a mim própria se tinha ou não talento para a coisa. E, portanto, decidi inscrever-me sem que o meu pai soubesse. Havia fases de selecção e fui passando todas sem dizer nada. Até que fiquei. Passei entre os pingos da chuva e só mais tarde descobriram de quem eu era filha.

Não faz teatro há muitos anos.

Ainda vamos vê-la em palco?

Claro que sim. Vou utilizar aqui o vosso jornal para fazer um apelo: eu quero fazer teatro. Mas não faço também porque é muito difícil a agenda. Há quatro anos fiz uma peça com o Paulo Pires, com o João Reis, produzida pela UAU. E vou fazendo umas incursões, não exactamente teatro, mas como narradora, utilizando as minhas ferramentas de actriz. E quero muito fazer ficção, adorava fazer ficção. Fiz aquela série “Cidade Despida”, que adorei.

Última pergunta: continua a pensar na adopção de uma criança?

Sim. Era algo que eu gostaria, quando tivesse tempo, para fazer de forma… como entendo a adopção. Felizmente, não vou colmatar o facto de não ter podido ter filhos, porque pude. E também tive enteados. Agora era mais ter perto de mim a quem eu pudesse dar as oportunidades que um infortúnio da vida lhe retirou, a ele ou a ela, mas sim, para isso é preciso ter tempo. A exigência é muita.

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