Esvaziar pneus pelo ambiente? Movimento chegou a Portugal – Portugal

Desde quarta-feira que circulam duas fotografias pelas redes sociais e grupos de WhatsApp. Uma mostra um carro azul (um SUV) com dois pneus esvaziados e com um papel no limpa pára-brisas. A outra mostra uma fotografia de um papel onde se pode ler uma mensagem de um grupo chamado “Tyre Extinguishers” (“Os Extintores de Pneus” em tradução livre), informando que esvaziaram os pneus do veículo como forma de combate às alterações climáticas. Ativismo? Crime? Parvoíce? As opiniões nas redes sociais dividem-se (como sempre). 













Na quarta-feira, na sua página de Twitter, afirmavam, partilhando a imagem viral: “Primeira ação em Portugal! SUVs em Lisboa desarmados”, falando num plural. Acrescentavam ainda que estavam já em ação em 18 países: Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, República Checa, França, Espanha, Alemanha, Dinamarca, Noruega, Suécia, Suíça, Países Baixos, Áustria, Nova Zelândia, Itália, Irlanda, Bélgica e, finalmente, Portugal.




A PSP já afirmou não ter recebido nenhuma denúncia formal da situação e de que tiveram conhecimento de casos de esvaziamento de pneus deste tipo de veículos pelas redes sociais. E referem que os casos de que tomaram conhecimento têm consistido no ato de esvaziar os pneus, sem os inutilizar ou danificar, pelo que não constitui necessariamente um crime.

Quem são os Tyre Extinguishers?
Tyre Extinguishers é um grupo ambientalista que nasceu no Reino Unido, em março do ano passado, e que se espalhou um pouco por todo o mundo. Aparentemente chegou a Portugal esta semana. São uma organização recente, que diz não ter um líder e que não tem técnicas de recrutamento que não partilhar a sua atividade e incentivar, de forma global, outros a atuar. 

Tal como muitos movimentos de defesa do clima recentes (desde os grupos que se agrilhoam junto a empresas de exploração de petróleo, passando por ativistas que atiram alimentos e tintas a obras de arte), as formas de protesto mais radicais demoraram a chegar a Portugal. 

A forma de atuação deste grupo é esvaziar os pneus de grandes carros SUV e deixar uma nota com o título: “Atenção, o teu sugador de gasolina mata” (“ATTENTION – Your gas guzzler kills”, na versão orginal). Estas ações são levadas em contexto urbano e incentiva-se a que sejam manobras de guerrilha e não ações concertadas em grupo. 

De acordo com o site oficial do movimento, os membros deste grupo são “pessoas de todas as esferas da vida com um objetivo: tornar impossível possuir um enorme 4×4 poluente nas áreas urbanas do mundo. Estamos a defender-nos contra as mudanças climáticas, poluição do ar e condutores inseguros”, referem. O site disponibiliza versões do folheto em várias línguas de forma a que possa ser impresso e divulgado. Há versões em português (versão de Portugal e do Brasil), francês, italiano, castelhano, inglês, e mais meia dúzia de línguas.

“Fazemos isto com uma tática simples: esvaziar os pneus desses veículos enormes e desnecessários, causando transtornos aos seus proprietários”, explicam, acrescentando ainda que “esvaziar os pneus repetidamente e encorajar os outros a fazerem o mesmo transformará o pequeno inconveniente de um pneu vazio num obstáculo gigante para a condução de enormes veículos assassinos nas nossas ruas”.

Noutro separador informam como identificar um SUV – “são normalmente fáceis de distinguir” – e de como esvaziar os penus. Pedem ainda que o manifesto seja impresso e deixado no veículo de forma visível “para que o proprietário saiba que o carro está inutilizável e receba uma explicação do motivo”. Aconselham ainda a praticar estes atos de noite, com amigos, e a evitar carros de indivíduos com deficiência.

Porquê os SUVs?
A razão principal para esvaziarem os pneus destes carros é para “que seja impossível conduzir”. E dizem que estes protestos são necessários “porque governos e políticos falharam em proteger-nos desses enormes veículos. Todos os odiamos, exceto as pessoas que os conduzem”.

De acordo com o grupo, os alvos são, sobretudo, SUVs, veículos de tração às quatro rodas e carros de alta cilindrada, veículos que consideram ser inapropriados para a mobilidade urbana e, principalmente, “um desastre para o clima”. Afirmam mesmo que estes carros são mais prejudiciais para o ambiente do que toda a indústria da aviação. “Os SUVs foram a segunda maior causa global de emissões de CO2 [dióxido de carbono] na última década – mais do que toda a indústria da aviação”, sublinham.

O ano de 2022 foi um ano de queda para a indústria automóvel, mas a venda de SUVs aumentou exponencialmente (são cada vez mais comuns em Portugal). Estes carros e restante carros desportivos (SUV é a sigla de “Sport Utility Vehicle”, ou seja, “Veículo Utilitário Desportivo”) correspondem a metade de todos os carros vendidos o ano passado, tendo a sua compra crescido particularmente nos Estados Unidos, na Índia e na Europa, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). Esta organização calcula que haja atualmente 330 milhões de SUVs em circulação no mundo inteiro. 

Em 2022 emitiram cerca de mil milhões de toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera. Como refere a CNN, se os SUV fossem um país, estariam no top 10 de países mais poluentes do mundo. Maior parte destes veículos são movidos a combustíveis fósseis e tem uma eficiência menor do que carros mais pequenos. Segundo a AIE consomem até 20% mais de combustível do que o carro de tamanho médio mais comum. 

No entanto, a AIE refere que têm crescido o número de SUVs elétricos a ser vendidos. Mas não são necessariamente mais amigos do ambiente, já que necessitam de baterias maiores e que requerem mais materiais como cobalto, cobre, lítio e niquel, o que também tem impacto ambiental.

Voltando aos Tyres Extinguishgers, o grupo justifica que “protestar de forma educada contra estes carros falhou” e que por isso tiveram de recorrer a estas técnicas mais radicais. Tudo para poderem “viver em vilas e cidades com ar puro e ruas seguras”.

Perigos
A Polícia de Segurança Pública alerta que o esvaziamento dos pneumáticos poderá dar origem a acidentes rodoviários, caso o utilizador do veículo não note o estado dos pneus. O grupo Tyre Extinguishers original pede que os manifestos sejam sempre deixados de forma visível para impedir situações como estas.

A PSP pede a qualquer pessoa que assista a um destes atos para alertar a esquadra mais próxima e apela a que protestos sigam pela via legal e sem potenciar situações de risco para os próprios ou para os outros.

Este aviso sobre o “perigo para os próprios” pode estar relacionado com as centenas de comentários feitos nas redes sociais de quem comenta que se visse isto a acontecer ao seu próprio carro iria agir violentamente contra os manifestantes.

No entanto, há outro perigo associado aos SUVs: são carros considerados perigosos pelo seu tamanho e ângulo morto. 

Um estudo da Universidade do Illinois de 2022 – Efeitos dos veículos grandes em ferimentos graves de ciclistas e peões -,  os carros “médios” foram responsáveis por 62% dos acidentes que envolveram crianças atropeladas (quer a pé, quer de bicicleta) no estado do Illinois, nos Estados Unidos, entre 2016 e 2018. Mas são responsáveis por apenas 19% das mortes nesses casos. Já os SUV estiveram envolvidos em 16,9% dos acidentes, mas causaram 40% das mortes por atropelamentos de crianças. 

Entre as teorias avançadas para estes números estão o facto de os SUV serem maiores e terem menor visibilidade do que o carro “normal”. E a verdade é que enquanto com os carros típicos as crianças são 21% das vítimas de acidentes, quando se fala de SUV esse número aumenta para 26,1%. 

Os autores referem que o número de acidentes fatais naquele estado tem vindo a aumentar de forma constante desde 2009, ano em que se começou a massificar a venda deste tipo de carros. Dados da Governors Highway Safety Association mostram que mortes causadas por SUV aumentaram 76% entre 2011 e 2020 e que as mortes causadas por “carros de passageiros” cresceram 36%.









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