Há uma certa bipolaridade que carateriza a tecnologia e que pode ter um grande impacto na capacitação das pessoas, mas também na padronização de comportamentos e de pensamento. Na realidade, “na tecnologia não há um algoritmo perfeito”, defende João Viana Ferreira. O partner da NTT DATA Portugal foi um dos participantes na conferência “Tecnologias da Informação e o Futuro da Sociedade”, uma iniciativa que associou o Expresso à NTT Data, e que decorreu esta manhã.
Literacia, educação e formação, que conferem capacitação e desenvolvimento do espírito crítico são, na opinião do painel de oradores, a solução para potenciar uma sociedade de conhecimento, por um lado, e uma forma de escrutínio com vista a evitar as consequências menos positivas da inovação tecnológica, por outro. “É preciso perceber o impacto e as consequências da adoção de tecnologias como, por exemplo, a Inteligência Artificial (IA) no modo de vida das pessoas, na sua forma de trabalhar e na segurança”, aponta Luís de Melo Jerónimo, diretor do Programa de Desenvolvimento Sustentável da Fundação Calouste Gulbenkian.
Ética, regulamentação e linhas vermelhas
A evolução tecnológica tem acontecido a um ritmo muito mais elevado do que o acompanhamento que a sociedade consegue dar. E é por isso que, na opinião de Luísa Loura, diretora da Pordata na Fundação Francisco Manuel dos Santos, a literacia é um caminho que é preciso percorrer rapidamente. Em Portugal, diz, “ainda estamos atrasados e é preciso recuperar esse atraso também para que as empresas possam ter uma força de trabalho mais bem preparada”.
Na outra face do desenvolvimento tecnológico, os participantes nesta conferência alertam para a importância dos dados, que são hoje gerados a uma velocidade vertiginosa. “Importa garantir que os bancos de dados que servem de base ao desenvolvimento tecnológico estão limpos de preconceitos”, alerta Luís Jerónimo. O responsável da Gulbenkian salienta que a tecnologia não pode comprometer o equilíbrio social, gerando algoritmos que, aplicados à IA, possam refletir ideias préconcebidas. “Os princípios éticos da diversidade têm que estar garantidos nestas fontes de dados”, reforça. Uma opinião semelhante à de Joe Paton, diretor do Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud. “É preciso apresentar questões que devam ser regulamentadas, mas é difícil definir linhas vermelhas porque os valores definidos pela sociedade estão sempre a mudar”.
Ética, privacidade e outras questões que necessitam de regulamentação devem, contudo, obrigar à intervenção dos governos. Luís Jerónimo defende um debate, a nível europeu, que possa gerar normas standard, mas Luísa Louro alerta para a importância de “regulamentar sem impor uma nova censura”. A diretora da Pordata acredita que a sociedade corre o risco de tornar-se demasiado padronizada, marginalizando a diferença de pensamento e limitando o desenvolvimento individual.
O debate foi moderado pelo jornalista Rodrigo Prata, da SIC Notícias.
Outras conclusões:
- A inteligência artificial tem hoje um duplo papel. “É uma ferramenta essencial para entender o enorme volume de dados, mas também serve como modelo para as tarefas dos algoritmos”, afirma Joe Paton. O neurocientista recorda que a criação de algoritmos parte sempre de experiências humanas do cérebro, da visão, etc, mas esta ligação entre a inteligência natural e artificial já está a criar questões éticas.
- “Preocupa-me o fenómeno que acontece quando fazemos uma pesquisa e que nos apresenta propostas sempre na mesma linha. Isto vai bloquear o pensamento único”, acredita Luísa Loura. João Viana Ferreira concorda: “perde-se o controlo quando obrigamos as pessoas a ver os mesmos algoritmos”. Por outro lado, defende Luís Jerónimo, “é a tecnologia que permite a salvaguarda da democracia”.
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